segunda-feira, 31 de agosto de 2026

CITAÇÕES: USE COMO EPÍGRAFE ESTE TEXTO DE MICHAEL SHERMER

 

“[...] há princípios morais pelos quais podemos construir um sistema ético secular. Estes princípios não são absolutos (sem exceções), nem tampouco são relativos (vale tudo). Eles são provisionais -- verdadeiros para a maioria das pessoas na maioria das circunstâncias a maior parte do tempo. Sempre que possível, as questões morais devem ser sujeitas ao escrutínio científico e racional, tanto quanto as questões da natureza são sujeitas ao escrutínio científico e racional.”

– Michael Shermer, in O Enigma da Ética sem Religião; publicado originalmente em Skeptic, vol. 4, n.º 2, 1996; tradução de Rodrigo Farias)

sábado, 29 de agosto de 2026

FOTOGRAFIA: PIERRE VERGER

REGISTRO DE ENTRADA DE PIERRE VERGER NO BRASIL 
SOB A GUARDA DO ARQUIVO NACIONAL

Pierre Verger; 1952: autorretrato

O acervo do Serviço de Polícia Marítima e de Fronteira (SPMAF), sob a guarda da Coordenação Regional do Arquivo Nacional em Brasília, guarda o registro de entrada no Brasil, em 1946, do fotógrafo, etnólogo e babalaô francês, Pierre Edouard Léopold Verger.

Pierre Verger - Porto dos Saveiros, Salvador, Brasil-1946-1950

Pierre Verger nasceu em Paris, em 1902, em uma típica família burguesa. Com seu pai, Leopold Verger, empresário belga das artes gráficas, sua mãe, Marie Adéle Samuel, e mais dois irmãos, residiam no luxuoso distrito 16. Em 1932, com a morte da mãe, tornou-se o único descendente da família, pois os seus irmãos faleceram prematuramente, e o pai, no ano de 1915. Assim, aos 30 anos de idade, Verger abandonaria o destino traçado por seus pais e se reinventa, seguindo para as Ilhas do Pacífico e encontrando uma nova profissão: a de fotógrafo. Verger foi um dos associados da famosa agência Alliance Photo , fundada em Paris, em 1934. Viajou por diferentes regiões do mundo durante muitos anos, reunindo uma vasta documentação e realizando um importante trabalho fotográfico, desde o registro de paisagens, tipos humanos das mais distintas origens, hábitos, costumes e rituais religiosos.

Pierre Verger - Pai Balbino de Xangô; Salvador - Bahia - Brasil; 1972-1973

Segundo os documentos do Arquivo Nacional, em pleno pós-guerra, em 13 de abril de 1946, Verger desembarcou na cidade de Corumbá. Três dias depois, estava em São Paulo para encontrar o professor francês Roger Batiste, ocupante da cátedra de Sociologia no Departamento de Ciências Sociais da Universidade de São Paulo - USP, vaga ocupada anteriormente pelo antropólogo Claude Lévi-Strauss. Batiste e Verger realizaram numerosos trabalhos em parceria. Ao estabelecer residência no Rio de Janeiro, Verger foi contratado pela maior revista do país à época, O Cruzeiro, sendo designado para a sua sucursal em Salvador, uma vez que, no Rio de Janeiro, já atuava o fotógrafo frânces Jean Mazon, que trabalhava com o jornalista David Nasser. O ofício na revista permitiu a Verger obter sua permanência definitiva no Brasil, em 5 de junho de 1946, obtendo assim a carteira de residente estrangeiro.

Pierre Verger - Festa Shango - Sakété - Benin; 1958

Pierre Verger se apaixonou pela Bahia e realizou viagens pela costa ocidental da África, principalmente Daomé e Nigéria, intensificando suas pesquisas sobre a influência e a relação entre a cultura africana e a baiana. Seus estudos o levaram a envolver-se com o candomblé, exercendo funções no ritual religioso. Na Bahia, foi Ogã no Opô Afonjá da Mãe Senhora e no Opô de Aganju de Balbino. No Daomé, foi iniciado como babalaô, quando estudava a arte adivinhatória de Ifá, recebendo o nome de Fatumbi – renascido pelo Ifá.

Pierre Verger - porto - Belem - Brasil; 1948

Pierre Fatumbi Verger, como ficou conhecido, faleceu em 1996, deixando à Fundação Pierre Verger a tarefa de prosseguir com o seu legado.



Fonte:

Arquivo Nacional


Publicado em 13/09/2019

Atualizado em 28/10/2020

sábado, 15 de agosto de 2026

HISTÓRIA: CURIOSIDADES DOS ANOS 1600 A 1700

 CURIOSIDADES DOS ANOS 1600 A 1700


- Ao se visitar o Palácio de Versailles, em Paris, observa-se que o suntuoso palácio não tem banheiros. Na Idade Média, não existiam dentifrícios ou escovas de dente, perfumes, desodorantes, muitos menos papel higiênico. As excrescências humanas eram despejadas pelas janelas do palácio. Em dia de festa, a cozinha do palácio conseguia preparar banquete para 1.500 pessoas, sem a mínima higiene.


- Vemos, nos filmes de hoje, as pessoas sendo abanadas. A explicação não está no calor, mas no mau cheiro que exalavam por debaixo das saias (que propositalmente eram feitas para conter o odor das partes íntimas, já que não havia higiene).

Francois Boucher - La Toiletteintime Une Femme qui pisse 1760s

Também não havia o costume de se tomar banho devido ao frio e à quase inexistência de água encanada. O mau cheiro era dissipado pelo abanador. Só os nobres tinham lacaios para abaná-los, para dissipar o mau cheiro que o corpo e boca exalavam, além de, também, espantar os insetos. Quem já esteve em Versailles admirou muito os jardins enormes e belos que, na época, não eram só contemplados, mas "usados" como vaso sanitário nas famosas baladas promovidas pela monarquia, porque não existia banheiro.

Paul Srusier - a noiva

- A maioria dos casamentos ocorria no mês de junho (para eles, o início do verão). A razão é simples: o primeiro banho do ano era tomado em maio; assim, em junho, o cheiro das pessoas ainda era tolerável. Entretanto, como alguns odores já começavam a incomodar, as noivas carregavam buquês de flores, junto ao corpo, para disfarçar o mau cheiro. Daí termos maio como o "mês das noivas" e a origem do buquê de noiva explicada.

Francois Eisen- jeune femme a sa toilette

- Os banhos eram tomados numa única tina, enorme, cheia de água quente. O chefe da família tinha o privilégio do primeiro banho na água limpa. Depois, sem trocar a água, vinham os outros homens da casa, por ordem de idade, as mulheres, também por idade e, por fim, as crianças. Os bebês eram os últimos a tomar banho. Quando chegava a vez deles, a água da tina já estava tão suja que era possível "perder" um bebê lá dentro. É por isso que existe a expressão em inglês "don't throw the baby out with the bath water", ou seja, literalmente, "não jogue fora o bebê junto com a água do banho", que hoje usamos para os mais apressadinhos.


- O telhado das casas não tinha forro e as vigas de madeira que os sustentavam era o melhor lugar para os animais - cães, gatos, ratos e besouros se aquecerem. Quando chovia, as goteiras forçavam os animais a pularem para o chão. Assim, a expressão "está chovendo canivete" tem o seu equivalente em inglês em "it's raining cats and dogs" (está chovendo gatos e cachorros).

Francisco Oller y Cestero - the wake

- Aqueles que tinham dinheiro possuíam pratos de estanho. Certos tipos de alimento oxidavam o material, fazendo com que muita gente morresse envenenada (lembremos-nos de que os hábitos higiênicos, da época, eram péssimos). Os tomates, sendo ácidos, foram considerados, durante muito tempo, venenosos. Os copos de estanho eram usados para beber cerveja ou uísque. Essa combinação, às vezes, deixava o indivíduo "no chão" (numa espécie de narcolepsia, induzida pela mistura da bebida alcoólica com óxido de estanho). Alguém que passasse pela rua poderia pensar que ele estivesse morto e, assim, recolhia o corpo e preparava o enterro. O corpo era, então, colocado sobre a mesa da cozinha por alguns dias e a família ficava em volta, em vigília, comendo, bebendo e esperando para ver se o morto acordava ou não. Daí surgiu o velório, que é a vigília junto ao caixão.


- A Inglaterra é um país pequeno, onde nem sempre havia espaço para se enterrarem todos os mortos. Então, os caixões eram abertos, os ossos retirados e postos em ossários e o túmulo utilizado para outro cadáver. Às vezes, ao abrirem os caixões, percebia-se que havia arranhões nas tampas, do lado de dentro, o que indicava que aquele morto, na verdade, tinha sido enterrado vivo. surgiu, assim, a ideia de, ao se fechar o caixão, amarrar uma tira no pulso do defunto, passá-la por um buraco feito no caixão e amarrá-la a um sino. Após o enterro, alguém ficava de plantão ao lado do túmulo, durante uns dias. Se o indivíduo acordasse, o movimento de seu braço faria o sino tocar. E ele seria "saved by the bell", ou "salvo pelo gongo", expressão usada por nós até os dias de hoje.


Fonte:

terça-feira, 11 de agosto de 2026

LINGUAGEM: ESPERANTO, A LÍNGUA UNIVERSAL

 ESPERANTO: 

O NASCIMENTO E A EVOLUÇÃO DE UMA LÍNGUA UNIVERSAL

L.L. Zamenhoff teve um sonho: desenvolver um idioma que simplificasse a comunicação entre humanos de diferentes culturas. Hoje, o esperanto é a língua artificial mais falada no mundo.

Portugala Esperantisto, Nº1, Janeiro de 1936 
- Hemeroteca Municipal de Lisboa / Em domínio público 
- Capa da primeira edição do bilingue “Portugala Esperantisto”, 
o órgão mensal do Movimento Esperantista Português. 
Esta publicação durou apenas oito edições 
(entre Janeiro e Agosto de 1936).

Ao contrário de outras passagens bíblicas, os estudiosos do mais sagrado livro da cristianismo concordam que a mítica Torre de Babel – a ambiciosa construção humana que chegaria ao céu – não se baseia em qualquer evento que tenha percorrido a História do Médio Oriente. Destina-se apenas a explicar os motivos da divisão tão grande de culturas e a incapacidade de os indivíduos comunicarem numa língua comum. Sempre foi um enorme problema, para lá de qualquer crença religiosa.

Há, aliás, casos em que as palavras desarmam mesmo: em Novembro de 1956, Nikita Khrushchev, o líder soviético, discursava na embaixada polaca em Moscovo quando proclamou uma frase que, perdida na tradução, viria a ser imortalizada na letra da canção “Russians”, de Sting: “We will bury you”. A sala, cheia de representantes diplomáticos ocidentais, tremeu. Parecia uma ameaça séria, clara, em plena Guerra Fria. O medo nuclear efervescente ficou plasmado nas capas dos jornais mundiais no dia seguinte. O problema é que as intenções e até as palavras do líder do Politburo eram muito mais ideológicas: a expressão usada no discurso significava “dig in”, que utilizada no contexto da frase completa (“Gostem ou não, a História está do nosso lado: iremos colocar-vos num buraco”) se torna muito menos agressiva. “Bury you” significa o mesmo, mas de uma forma muito mais violenta (“...iremos enterrar-vos!”). Um simples capricho ideológico, que alude ao Manifesto Comunista, virou declaração de guerra e Khrushchev passou os anos seguintes a ter de explicar a confusão... tudo por causa de um tradutor.

O doutor chegou...

O mentor do esperanto Ludwik Lejzer Zamenhof 
(Lázaro Luís Zamenfof), o mentor do esperanto,
quis contribuir com esta língua universal 
para um mundo sem guerra. 
Fonte: Bildarchiv Austria


L.L Zamenhoff, um oftalmologista russo, tinha em mente, já no final do século XIX, esta exacta questão. Num período em que a Europa estava envolvida por pequenos conflitos que se tornavam cada vez mais inescapáveis, um homem bem intencionado ambicionava unir as pessoas através de um idioma comum. Fomentar a paz através do entendimento, criando uma comunidade de falantes que unida pela mesma língua pudesse trabalhar para o bem da Humanidade, era mais do que um sonho – era uma missão.

Zamenhoff nasceu judeu e a diversidade de dialectos que separavam as diferentes comunidades judaicas europeias mostrou-lhe como até as mais pequenas variações linguísticas podiam causar as maiores separações. Não poucas vezes, estas misturaram o seu hebraico com as línguas dos países onde se instalaram – o Yiddish, da Alemanha Ocidental, é um resultado deste cruzamento.

Antes de mais, o oftalmologista ecuménico fixou-se na ideia de reavivar o Latim, a língua franca dos antigos territórios do Império Romano. Mas achou-o demasiado complicado de aprender e optou então por focar-se nos idiomas que derivaram do romance e do germânico, em larga escala os mais ensinados nas escolas de todo o mundo. Para resolver o problema de um largo vocabulário, usou um truque muito comum no seu russo: os afixos. Esta nova língua devia ser fácil de aprender, reconhecível de imediato e simples, para que qualquer pessoa tivesse bases suficientes para se tornar um falante.

O trabalho que Zamenhoff desenvolveu desde a sua adolescência demorou vários anos a terminar e enfrentou obstáculos: a censura czarista proibiu-o de publicar o seu livro explicando o recém-nascido idioma. Entretanto, traduzir obras literárias permitiu-lhe melhorar os fundamentos da sua criação. Assim, em Julho de 1887, lançou Unua libro (“O primeiro livro”), onde declarava que “uma língua internacional, como qualquer língua nacional, é propriedade da sociedade, e o autor renuncia para sempre a todos os direitos pessoais sobre ela”. Para escapar à censura, usou um pseudónimo, “Doktoro Esperanto”, que na gramática nova significava “Aquele que é esperançoso”. No entanto, a palavra, forte e marcante, viria a baptizar então esta língua artificial. De início, o livro tornou-se uma curiosidade apenas nos territórios eslavos, mas foi-se espalhando para vários continentes, gerando até uma revista, La Esperantisto (com uma versão bilingue publicada em Portugal em 1936). Novas vozes e novos adeptos levaram a discussões sobre como melhorar o esperanto e Zamenhoff, com alguma relutância, foi incorporando as mais populares. Em 1905, com o Congresso de Bolonha, o esperanto ficou estabelecido tal como o conhecemos hoje.

Foto de Henri Caudevelle - 
Em 1905, no primeiro Congresso Universal de Esperanto, 
foram estabelecidas as regras da língua criada de raiz 
por Ludwik Lejzer Zamenhof que vingam até hoje. 
Fonte: Arquivo da UEA – Universala Esperanto-Asocio

Esperanto: como funciona

Não temos espaço para explicar como este idioma está construído. De uma forma simplificada, o esperanto possui um vocabulário derivado maioritariamente das línguas latinas, com o restante vindo do germânico, do grego e das línguas eslavas. Como todas as línguas latinas, a estrutura frásica é “sujeito-verbo-objecto”. Apesar disto, as propriedades linguísticas e frásicas derivam de 13 outras linguagens, que vão desde desde o hebraico ao lituano, passando por outra língua artificial chamada volapük, criada por volta da mesma altura por um sacerdote católico alemão.

O esperanto confunde os linguistas e é um óptimo caso de estudo sobre como uma forma de comunicar pode surgir incorporando elementos e até características aparentemente incompatíveis. Pela sua estrutura, podia ser facilmente incluído na família das línguas indo-europeias; no entanto, a formação de palavras tem muito mais em comum com o mandarim e a estrutura linguística é reminiscente do eslavo. Não deixa de ser uma língua criada por um europeu, que reflecte uma mentalidade eurocêntrica; mas ainda assim, para se facilitar e destacar, utiliza estratégias intuitivas que, algures na História, civilizações bem distantes da Europa usaram para construir a sua própria comunicação.

Hoje, o esperanto é, de longe, a língua artificial mais popular em todo o mundo. Existem clubes de faladores em todos os continentes, principalmente Europa e Ásia, tendo países recém-independentes após a Primeira Guerra Mundial, como o Irão, ponderado usá-lo como língua oficial para unificar populações culturalmente diversas. Calcula-se que o número de falantes varie entre 63.000 e 2.000.000, podendo encontrar alguns exemplos aqui e aqui. Desses, garantidamente dois mil são falantes aprenderam-no desde crianças.

Com uma periodicidade anual, o Congresso do Esperanto foi acolhido por Portugal em 2018, com a presença de 1.567 participantes de todo o mundo. Neste ano, a 110.ª edição ocorreu em Brno, na República Checa, entre 26 de Julho e 2 de Agosto de 2025.

Arquivo da UEA – Universala Esperanto-Asocio - 
Com uma periodicidade anual, o Congresso Universal de Esperanto
foi acolhido por Portugal em 2018, 
com a presença de 1.567 participantes de todo o mundo. 
Neste ano, a 110.ª edição ocorreu em Brno, 
na República Checa, entre 26 de Julho e 2 de Agosto de 2025.


OUTRAS LÍNGUAS ARTIFICIAIS

Existem várias toponímias baptizadas em honra do esperanto e do seu criador, e até objectos cósmicos, como os asteróides 1421 Esperanto e 1462 Zamenhoff, os celebram. Se o assunto lhe interessar, pode investigar outras línguas artificiais. Algumas delas antigas como a lingua ignota, criada sem estrutura aparente por Hildegarda de Bingen; ou mais contemporâneas como o eurolengo, uma mistura de inglês e espanhol da autoria de Leslie Jones; e claro, qualquer nerd digno dos seus galões conhecerá o quenya de Tolkien, o klingon da saga Star Trek ou o na'vi, que o linguista Paul Frommer construiu para servir o mundo de Avatar, de 
James Cameron.


Fonte:


Autor: Bruno Fernandes




Actualizado a 7 de agosto de 2025

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

FRUTA: LIMA-DA-PÉRSIA OU SIMPLESMEMTE LIMA

LIMA-DA-PÉRSIA É A DOCE LIMA DO SERÃO DE MINHA MENINICE

É como se estivesse no pomar da casa da vovó…


Não sei exatamente quando, mas não faz muito tempo, fiquei emocionada ao ver, no sacolão, umas limas amarelinhas. Virei menina no quintal da casa da vovó Maria… Peguei uma e cheirei. Era mesmo lima!

Comprei mais ou menos uma dúzia. Em casa, depois de lavá-las e enxugá-las, fiquei apreciando uma bacia cheia delas. Comecei a descascar a primeira. Resumo da ópera da bacia de lima: comi todas, gomo por gomo, degustando aquela refrescante fruta da infância e da adolescência que não saboreava havia muitos anos.


A lima, hoje vendida com o pomposo nome de lima-da-pérsia, em alguns lugares, conhecida como lima-doce, no sertão onde nasci, era apenas lima, fruta comum em quase todos os quintais – frutificava tanto que os galhos, às vezes, se quebravam. A lima floresce e frutifica durante todo o ano, com mais abundância de maio a setembro. Graça Aranha, nos anos 1960/70, era importante município produtor de lima. Originária da Índia e do sul da Ásia, nem sequer imagino por que era tão apreciada em nossa região. Apenas descobri que o vocábulo "lima é derivado do nome persa (?) ‘Limu’, quando da introdução da fruta na Europa durante as Cruzadas", e que, na culinária tailandesa, a fruta é uma mascote.


A limeira se parece com a laranjeira, só que cresce menos, pois é um arbusto, e o cheiro das folhas tende ao adocicado; a lima é muito parecida com a laranja, até no tamanho, mas a casca é fina e de cor amarelo-clara; a polpa – doce, suavemente amarga, uma delícia – fica dentro de gomos esbranquiçados, uma pele amarga, daí porque, diferentemente da laranja, para se comer a lima, é necessário abrir os gomos ou então chupá-la, mas não dá para comer o bagaço porque amarga demais!


Os valores medicinais da lima estão suficientemente demonstrados: o suco é auxiliar da digestão, daí dizerem que a fruta previne e trata "doenças do estômago" em geral; é diurético, por tal motivo, "entrou na moda" como "o suco que combate a celulite e emagrece"! Evidentemente, tais propriedades milagrosas carecem de respaldo científico.

Pense num diurético potente: é a lima! Tanto que, no sertão, criança não podia comer a fruta à noite para não fazer xixi na cama! Lembro-me, também, da história de que "lima quente dá dor de barriga". Por tal motivo, a gente só podia colhê-la para "comer na hora", pela manhã ou no fim da tarde, mesmo assim, colocando-as delicadamente dentro de um balde de água para esfriá-las.


Além disso, "a cultura popular diz que o chá feito de casca de lima, quando tomado regularmente após as refeições, ajuda a prevenir as palpitações cardíacas". Ou seja, é um tranquilizante. A sabedoria sertaneja diz que criança muito danada deve chupar lima e tomar um chazinho de casca da fruta de vez em quando para se acalmar. Vovó era incansável em "receitar" lima e chá da casca dela para crianças inquietas e arreliadas.


Meu avô Braulino dizia que "lima tem ciência" e só era boa "pegada com a mão" e chupada debaixo do pé, por ser uma fruta fina: se machucar, fica amargosa. Estava coberto de razão! Tanto que as limas de sacolão nem sempre são docinhas, algumas possuem um sabor de doce-amargo. Não há do que duvidar: são frutas machucadas, muito manuseadas, porque lima colhida e transportada com cuidado é doce, doce, doce…


Comer lima é voltar à minha infância. Cada vez que como a fruta é como se estivesse no pomar da casa da vovó… São recordações de manhãs de brisa aconchegante debaixo do nosso pé de lima, pegando uma por uma no pé.


Fonte:

Autora: Fátima Oliveira

(Médica e escritora. É do Conselho Diretor da Comissão de Cidadania e Reprodução e do Conselho da Rede de Saúde das Mulheres Latino-americanas e do Caribe. Indicada ao Prêmio Nobel da paz 2005)

https://vermelho.org.br/coluna/lima-da-persia-e-a-doce-lima-do-sertao-de-minha-meninice/