ESPERANTO:
O NASCIMENTO E A EVOLUÇÃO DE UMA LÍNGUA UNIVERSAL
L.L. Zamenhoff teve um sonho: desenvolver um idioma que simplificasse a comunicação entre humanos de diferentes culturas. Hoje, o esperanto é a língua artificial mais falada no mundo.
Portugala Esperantisto, Nº1, Janeiro de 1936
- Hemeroteca Municipal de Lisboa / Em domínio público
- Capa da primeira edição do bilingue “Portugala Esperantisto”,
o órgão mensal do Movimento Esperantista Português.
Esta publicação durou apenas oito edições
(entre Janeiro e Agosto de 1936).
Ao contrário de outras passagens bíblicas, os estudiosos do mais sagrado livro da cristianismo concordam que a mítica Torre de Babel – a ambiciosa construção humana que chegaria ao céu – não se baseia em qualquer evento que tenha percorrido a História do Médio Oriente. Destina-se apenas a explicar os motivos da divisão tão grande de culturas e a incapacidade de os indivíduos comunicarem numa língua comum. Sempre foi um enorme problema, para lá de qualquer crença religiosa.
Há, aliás, casos em que as palavras desarmam mesmo: em Novembro de 1956, Nikita Khrushchev, o líder soviético, discursava na embaixada polaca em Moscovo quando proclamou uma frase que, perdida na tradução, viria a ser imortalizada na letra da canção “Russians”, de Sting: “We will bury you”. A sala, cheia de representantes diplomáticos ocidentais, tremeu. Parecia uma ameaça séria, clara, em plena Guerra Fria. O medo nuclear efervescente ficou plasmado nas capas dos jornais mundiais no dia seguinte. O problema é que as intenções e até as palavras do líder do Politburo eram muito mais ideológicas: a expressão usada no discurso significava “dig in”, que utilizada no contexto da frase completa (“Gostem ou não, a História está do nosso lado: iremos colocar-vos num buraco”) se torna muito menos agressiva. “Bury you” significa o mesmo, mas de uma forma muito mais violenta (“...iremos enterrar-vos!”). Um simples capricho ideológico, que alude ao Manifesto Comunista, virou declaração de guerra e Khrushchev passou os anos seguintes a ter de explicar a confusão... tudo por causa de um tradutor.
O doutor chegou...
O mentor do esperanto Ludwik Lejzer Zamenhof
(Lázaro Luís Zamenfof), o mentor do esperanto,
quis contribuir com esta língua universal
para um mundo sem guerra.
Fonte: Bildarchiv Austria
L.L Zamenhoff, um oftalmologista russo, tinha em mente, já no final do século XIX, esta exacta questão. Num período em que a Europa estava envolvida por pequenos conflitos que se tornavam cada vez mais inescapáveis, um homem bem intencionado ambicionava unir as pessoas através de um idioma comum. Fomentar a paz através do entendimento, criando uma comunidade de falantes que unida pela mesma língua pudesse trabalhar para o bem da Humanidade, era mais do que um sonho – era uma missão.
Zamenhoff nasceu judeu e a diversidade de dialectos que separavam as diferentes comunidades judaicas europeias mostrou-lhe como até as mais pequenas variações linguísticas podiam causar as maiores separações. Não poucas vezes, estas misturaram o seu hebraico com as línguas dos países onde se instalaram – o Yiddish, da Alemanha Ocidental, é um resultado deste cruzamento.
Antes de mais, o oftalmologista ecuménico fixou-se na ideia de reavivar o Latim, a língua franca dos antigos territórios do Império Romano. Mas achou-o demasiado complicado de aprender e optou então por focar-se nos idiomas que derivaram do romance e do germânico, em larga escala os mais ensinados nas escolas de todo o mundo. Para resolver o problema de um largo vocabulário, usou um truque muito comum no seu russo: os afixos. Esta nova língua devia ser fácil de aprender, reconhecível de imediato e simples, para que qualquer pessoa tivesse bases suficientes para se tornar um falante.
O trabalho que Zamenhoff desenvolveu desde a sua adolescência demorou vários anos a terminar e enfrentou obstáculos: a censura czarista proibiu-o de publicar o seu livro explicando o recém-nascido idioma. Entretanto, traduzir obras literárias permitiu-lhe melhorar os fundamentos da sua criação. Assim, em Julho de 1887, lançou Unua libro (“O primeiro livro”), onde declarava que “uma língua internacional, como qualquer língua nacional, é propriedade da sociedade, e o autor renuncia para sempre a todos os direitos pessoais sobre ela”. Para escapar à censura, usou um pseudónimo, “Doktoro Esperanto”, que na gramática nova significava “Aquele que é esperançoso”. No entanto, a palavra, forte e marcante, viria a baptizar então esta língua artificial. De início, o livro tornou-se uma curiosidade apenas nos territórios eslavos, mas foi-se espalhando para vários continentes, gerando até uma revista, La Esperantisto (com uma versão bilingue publicada em Portugal em 1936). Novas vozes e novos adeptos levaram a discussões sobre como melhorar o esperanto e Zamenhoff, com alguma relutância, foi incorporando as mais populares. Em 1905, com o Congresso de Bolonha, o esperanto ficou estabelecido tal como o conhecemos hoje.
Foto de Henri Caudevelle -
Em 1905, no primeiro Congresso Universal de Esperanto,
foram estabelecidas as regras da língua criada de raiz
por Ludwik Lejzer Zamenhof que vingam até hoje.
Fonte: Arquivo da UEA – Universala Esperanto-Asocio
Esperanto: como funciona
Não temos espaço para explicar como este idioma está construído. De uma forma simplificada, o esperanto possui um vocabulário derivado maioritariamente das línguas latinas, com o restante vindo do germânico, do grego e das línguas eslavas. Como todas as línguas latinas, a estrutura frásica é “sujeito-verbo-objecto”. Apesar disto, as propriedades linguísticas e frásicas derivam de 13 outras linguagens, que vão desde desde o hebraico ao lituano, passando por outra língua artificial chamada volapük, criada por volta da mesma altura por um sacerdote católico alemão.
O esperanto confunde os linguistas e é um óptimo caso de estudo sobre como uma forma de comunicar pode surgir incorporando elementos e até características aparentemente incompatíveis. Pela sua estrutura, podia ser facilmente incluído na família das línguas indo-europeias; no entanto, a formação de palavras tem muito mais em comum com o mandarim e a estrutura linguística é reminiscente do eslavo. Não deixa de ser uma língua criada por um europeu, que reflecte uma mentalidade eurocêntrica; mas ainda assim, para se facilitar e destacar, utiliza estratégias intuitivas que, algures na História, civilizações bem distantes da Europa usaram para construir a sua própria comunicação.
Hoje, o esperanto é, de longe, a língua artificial mais popular em todo o mundo. Existem clubes de faladores em todos os continentes, principalmente Europa e Ásia, tendo países recém-independentes após a Primeira Guerra Mundial, como o Irão, ponderado usá-lo como língua oficial para unificar populações culturalmente diversas. Calcula-se que o número de falantes varie entre 63.000 e 2.000.000, podendo encontrar alguns exemplos aqui e aqui. Desses, garantidamente dois mil são falantes aprenderam-no desde crianças.
Com uma periodicidade anual, o Congresso do Esperanto foi acolhido por Portugal em 2018, com a presença de 1.567 participantes de todo o mundo. Neste ano, a 110.ª edição ocorreu em Brno, na República Checa, entre 26 de Julho e 2 de Agosto de 2025.
Arquivo da UEA – Universala Esperanto-Asocio -
Com uma periodicidade anual, o Congresso Universal de Esperanto
foi acolhido por Portugal em 2018,
com a presença de 1.567 participantes de todo o mundo.
Neste ano, a 110.ª edição ocorreu em Brno,
na República Checa, entre 26 de Julho e 2 de Agosto de 2025.
OUTRAS LÍNGUAS ARTIFICIAIS
Existem várias toponímias baptizadas em honra do esperanto e do seu criador, e até objectos cósmicos, como os asteróides 1421 Esperanto e 1462 Zamenhoff, os celebram. Se o assunto lhe interessar, pode investigar outras línguas artificiais. Algumas delas antigas como a lingua ignota, criada sem estrutura aparente por Hildegarda de Bingen; ou mais contemporâneas como o eurolengo, uma mistura de inglês e espanhol da autoria de Leslie Jones; e claro, qualquer nerd digno dos seus galões conhecerá o quenya de Tolkien, o klingon da saga Star Trek ou o na'vi, que o linguista Paul Frommer construiu para servir o mundo de Avatar, de
James Cameron.
Fonte:
Autor: Bruno Fernandes
Actualizado a 7 de agosto de 2025



