segunda-feira, 20 de abril de 2026

SOCIEDADE: POR QUE UM INGLÊS DEU O NOME DE "FILHO DA PUTA" A UM CAVALO



O CAVALO FILHO DA PUTA

(John Frederick Herring I (1795-1865) - Filho da Puta)

Filho da Puta (14 de abril de 1812 – 25 de agosto de 1835) foi um cavalo puro-sangue inglês do turfe da Grã-Bretanha[1] que ganhou nove de suas doze corridas, inclusive a "St. Leger Stakes" e a "Doncaster Cup". Ele foi pai do cavalo Birmingham que venceu em St. Leger em 1830 e foi o mais importante “Leading Sire” da Grã-Bretanha e Irlanda em 1828. Filho da Puta pertenceu a Sir William Maxwell e posteriormente a Mr. Houldsworth.

No texto a seguir, o autor, de forma bem humorada, comenta sobre:

O QUADRO "FILHO DA PUTA"

Quando eu era pequeno, via um quadro como esse na casa antiga da minha avó e achava engraçado o título estampado sem rodeios: "Filho da Puta". Nunca perguntei para ninguém de onde tinha vindo e o que significava. Mas recordo de pensar que era uma crítica social, antes de eu saber que existia a expressão "crítica social". Aquele cara todo soberbo em cima de seu cavalo seria de uma elite dominadora, um homem branco que deveria explorar milhares de trabalhadores para poder trotar solenemente em dia claro com uma montaria de alto padrão. Enfim, um filho da puta.

Vendo hoje outra gravura antiga de homem-sobre-cavalo, lembrei do filho da puta. Pesquisei no Google e encontrei o retrato da lembrança. Encontrei também a história, e, para minha consternação, descobri que filho da puta era, na verdade, o cavalo.

No começo do século 19, o senhor William Barnett possuía em seu haras, na Inglaterra, uma égua a quem havia dado o nome de Mrs Barnett, em homenagem a sua amada esposa. Em 1812, calhou de essa égua ter cria bem quando sua esposa o havia traído e abandonado. A raiva sobrou para o potro, que foi batizado – de novo – em homenagem a ela. Mas não "son of a bitch": filho da puta em português mesmo! O senhor Barnett havia estudado em Portugal e conhecia o idioma. O nome Filho da Puta foi aceito porque os comissários responsáveis pelo registro não sabiam o que significava.

O animal foi comprado por um competidor e tornou-se célebre, ganhando muitas corridas até se aposentar por lesão em 1818. Viveu até 1835.

A imagem que o imortalizou foi pintada por John Frederick Herring em 1815, virou gravura, foi para a parede da minha avó e veio chegar até aqui. É difícil se livrar de um filho da puta.




Fontes:

Wikepedia:



O quadro "Filho da Puta":

Autor: Paulo Santoro

São Roque, SP


sexta-feira, 17 de abril de 2026

CITAÇÕES: USE COMO EPÍGRAFE ESTA FRASE DE JUVENAL

 


Vitam impendere vero – dedicar sua vida à verdade. 

 Essa divisa do poeta satírico romano Juvenal (67-127), retomada por Rousseau em sua carta a d’Alembert:


Em longa passagem na carta a d’Alembert (1758), Rousseau declara ter adotado como mote Vitam impendere vero (sem dar o devido crédito a Juvenal). Essa proclamação vem acompanhada por um apelo solene ao leitor e por uma invocação da verdade: Vitam impendere vero: voilà la devise que j’ai choisie et dont je me sens digne. Lecteurs, je puis me tromper moi-même, mais non pas vous tromper volontairement; craignez mes erreurs et non ma mauvaise sui. L’amour du bien public est la seule passion qui me fait parler au public; je sais alors m’oublier moi-même [...] Sainte et pure vérité à qui j’ai consacre ma vie, non jamais mes passions ne souilleront le sincère amour que j’ai pour toi; l’intérêt ni la crainte ne sauraient altérer l’hommage que j’aime à t’offrir, et ma plume ne te refusera jamais rien que ce qu’elle craint d’accorder à la vengeance ! » Estamos diante de uma espécie de juramento. Rousseau encontra consolo, em tempos de conflito com Diderot e diante do risco de ficar sem amigos, no engajamento pela verdade. A verdade está, por sua vez, a serviço do “bem público”, ou seja: é um benefício universal. Por conseguinte, um valor moral superior. Após a publicação do Émile e do Contrato Social, em 1762, sua profissão de verdade toma cada vez mais a si mesmo como referência, como fica claro nas Confissões: “Eis aqui o único retrato possível de um homem, pintado em exato acordo com a natureza e com toda sua verdade [...] Quero mostrar a meus semelhantes um homem na plenitude da verdade da natureza; e esse homem serei eu.” 
(Confessions de J.J. Rousseau. Prefácio de George Sand. Paris: Charpentier, 1841, pp.1, 288).

Apud Estevão C. de Rezende Martins, in VITAM IMPENDERE VERO: MORAL E VERDADE NA PESQUISA

terça-feira, 14 de abril de 2026

TECNOLOGIA: AI-DA, A PRIMEIRA ARTISTA ROBÔ HUMANOIDE

CONHEÇA AI-DA, 
A PRIMEIRA ARTISTA ROBÔ HUMANOIDE
 ULTRARREALISTA DO MUNDO, 
MOVIDA A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL.


Ai-Da é a primeira artista robô ultrarrealista do mundo. Ela cria arte usando câmeras em seus olhos, algoritmos de IA e seu braço robótico. Em fevereiro de 2019, realizou sua primeira exposição individual, "Unsecured Futures" (Futuros Inseguros), na Universidade de Oxford, onde seu trabalho desafiou as pessoas a refletirem sobre nosso ambiente em rápida transformação. Desde então, ela viajou e exibiu sua arte pelo mundo, incluindo sua primeira grande apresentação em um museu, o Design Museum, em 2021. Em um mundo pós-humanista, ela continua a desenvolver trabalhos que questionam nossos conceitos de criatividade.

Há décadas, a inteligência artificial faz parte do nosso dia a dia. Embora ainda tenha um ar futurista e seja alvo de críticas e receios quanto aos seus efeitos, ela já se assimilou à nossa cultura. E, por estar há muito tempo intrinsecamente ligada às práticas criativas, não é incomum ouvir falar de projetos que integram esses dois domínios e que viajam pelo mundo. É surpreendente que a robô-artista Ai-Da tenha sido detida na fronteira egípcia sob acusações de espionagem.

Ai-Da é uma androide desenvolvida pelo galerista inglês Aidan Meller e pela empresa de robótica da Cornualha, Engineered Arts, e batizada em homenagem à matemática e pioneira da programação de computadores, Ada Lovelace. A robô está bem preparada para as belas artes, com duas câmeras no lugar dos olhos e um braço biônico capaz de realizar movimentos finos, como desenhar. Sua inteligência artificial é treinada para esboçar, pintar e até esculpir. Ai-Da impressionou o mundo com sua capacidade de criar imagens de pessoas e situações que observa. Ela tem contribuído para o debate contínuo sobre o papel da inteligência artificial nas práticas criativas.

Ai-Da é uma obra de arte?


As pessoas entendem que "arte" pode ter significados diferentes para pessoas diferentes. O papel e a definição da arte evoluem com o tempo. Por representar a integração massiva da tecnologia na sociedade atual, a obra de Ai-work Da é arte.

Segundo o critério da professora Margaret Boden, para que as obras de Ai-Da sejam consideradas inovadoras, elas devem ser originais, surpreendentes e culturalmente significativas (2016, Oxford University Press).

Hoje em dia, acredita-se amplamente que a arte é feita por humanos para outras pessoas. Nem sempre foi assim. Segundo os antigos gregos, a arte e a criatividade vinham dos deuses. A inspiração vinha dos céus. O humanismo é uma mentalidade predominante atualmente, na qual a arte é puramente humana e deriva da ação humana. No entanto, o pensamento atual argumenta que estamos nos afastando do humanismo e caminhando para um período em que a tecnologia e os algoritmos afetam nosso comportamento a tal ponto que nossa "capacidade de agir" não é mais exclusivamente nossa. Ela está sendo delegada a julgamentos e recomendações algorítmicas, e a capacidade de agir totalmente do ser humano está se tornando menos segura. Ai-Da cria arte porque a necessidade da ação humana por si só não a limita mais.

A Ai-Da foi idealizada por Meller em Oxford e desenvolvida por uma equipe de programadores, especialistas em robótica, arte e psicologia ao longo de mais de dois anos. Seu projeto foi concluído em 2019 e é atualizado conforme os avanços da tecnologia de IA. Ela já demonstrou ser capaz de rabiscar e escrever poemas.

Sua nova habilidade em pintura foi revelada antes de sua exposição individual na Bienal de Veneza de 2022, que será aberta ao público em 22 de abril.

Ai-Da Robot with Painting- Photographer Nicky Johnston

A exposição de Ai-Da Robot em Veneza, intitulada "Saltando para o metaverso", analisará a interseção entre a experiência humana e a tecnologia de IA, desde Alan Turing até o metaverso, inspirando-se nos conceitos de purgatório e inferno de Dante para refletir sobre o futuro da humanidade em um mundo onde a tecnologia de IA continua a invadir o cotidiano.

Segundo Meller, os sistemas de IA em breve "conhecerão você melhor do que você mesmo", dada a quantidade de dados que os pesquisadores fornecem prontamente sobre nós mesmos, por meio de conversas com nossos telefones, computadores, automóveis e até mesmo eletrodomésticos.


Referências:



Fonte:

Autor: Prathamesh Ingle 

Prathamesh Ingle é engenheiro mecânico e trabalha como analista de dados. Ele também é um profissional de IA (Inteligência Artificial) e cientista de dados certificado, com interesse em aplicações de IA. É um entusiasta da exploração de novas tecnologias e avanços com suas aplicações práticas.

5 de abril de 2022





sábado, 11 de abril de 2026

CITAÇÕES: USE COMO EPÍGRAFE ESTA FRASE DE MIGUEL NICOLELIS

 


  “Na linguagem da neurociência moderna, a natureza altamente plástica do cérebro do Homo sapiens nos transforma em presas fáceis dos imensos poderes predatórios das nossas próprias abstrações mentais, as quais podem facilmente se impor sob o manto racional de interpretar o mundo natural”. 

– Miguel Nicolelis, in “O verdadeiro criador de tudo”.

quarta-feira, 8 de abril de 2026

HISTÓRIA: DARWIN NO BANCO DOS RÉUS



HÁ 101 ANOS, LEI NOS EUA PROIBIA O ENSINO DA TEORIA DA EVOLUÇÃO E LEVOU PROFESSOR A JULGAMENTO

Aprovada no Tennessee em 1925, a chamada Lei Butler levou ao famoso “Julgamento do Macaco”, que colocou ciência e religião no centro de um debate nacional

 John Thomas Scopes foi levado a julgamento 
por ensinar a Teoria da Evolução 

A lei que proibiu o ensino da teoria da evolução nas escolas públicas do estado do Tennessee, nos Estados Unidos, completa 101 anos no próximo dia 21 de março. A chamada Lei Butler, aprovada em 1925, desencadeou um dos debates culturais mais intensos da história americana e levou ao famoso “Julgamento do Macaco”, que colocou ciência e religião frente a frente nos tribunais.

A legislação determinava que professores das escolas públicas não poderiam ensinar qualquer teoria que negasse o relato bíblico da criação da humanidade. Na prática, a norma tinha como alvo direto a teoria da evolução proposta pelo naturalista britânico Charles Darwin em 1859, que defendia que as espécies se transformam ao longo do tempo por meio da seleção natural.

O julgamento que virou símbolo

A polêmica ganhou dimensão nacional poucos meses depois da aprovação da lei. Em julho de 1925, o jovem professor John T. Scopes, de 24 anos, foi levado a julgamento na pequena cidade de Dayton, acusado de ensinar a teoria da evolução a alunos do ensino médio.

O caso rapidamente ultrapassou os limites de um processo local. Jornalistas, cientistas e líderes religiosos passaram a acompanhar o julgamento, transformando-o em um símbolo do conflito entre modernidade científica e tradição religiosa nos Estados Unidos da década de 1920.

O tribunal reuniu duas figuras conhecidas da política e do direito americanos. A acusação foi liderada por William Jennings Bryan, ex-secretário de Estado e defensor de uma interpretação literal da Bíblia. Já a defesa ficou a cargo do renomado advogado Clarence Darrow, que argumentava que proibir o ensino de uma teoria científica ameaçava a liberdade intelectual.

Durante o julgamento, Darrow chegou a interrogar Bryan sobre a interpretação literal de passagens bíblicas — um dos momentos mais marcantes do processo. A cena evidenciou o embate entre fé e ciência que dominava o debate público da época.

Scopes acabou considerado culpado e condenado a pagar uma multa de US$ 100. A sentença, no entanto, foi anulada um ano depois pela Suprema Corte do Tennessee por uma questão técnica.

Apesar da repercussão do julgamento, a Lei Butler permaneceu em vigor por mais de quatro décadas, sendo revogada apenas em 1967. O episódio, porém, ficou marcado como um dos momentos mais emblemáticos da disputa sobre os limites entre religião, ciência e educação nos Estados Unidos.



Fonte:

O Globo — Tennessee

domingo, 5 de abril de 2026

CITAÇÕES: USE COMO EPÍGRAFE ESTA FRASE DE UMBERTO ECO

 


     “Odi ergo sum”. 

– Umberto Eco, in “O cemitério de Praga; tradução de Joana Angélica Dávila.


(ODEIO, LOGO EXISTO)

quinta-feira, 2 de abril de 2026

FEMINISMO: HEDY LAMARR, ESTRELA DE HOLLYWOOD E CIENTISTA

 A INCRÍVEL HISTÓRIA DE HEDY LAMARR, A ESTRELA DE HOLLYWOOD QUE AJUDOU A INVENTAR O WI-FI E O BLUETHOOH


Bob Cranston e Hedy Lamarr trabalharam juntos no estúdio One and Three Color 
em 1940.  Lamarr era uma estrela em Hollywood na década de 1940
 e, simultaneamente, inventou a tecnologia de salto de frequência. 
Foto de NY Daily News Archive via Getty Images

Todos os anos, no dia 11 de fevereiro, é celebrado o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, data instituída em 2015, pela ONU (Organização das Nações Unidas) que visa destacar a necessidade de igualdade de gênero em diversas áreas da Ciência, como tecnologia, engenharia, biologia, matemática, entre outras.

Para comemorar essa data, e ressaltar a importância da presença feminina no universo científico, a National Geographic apresenta a história de uma mulher genial que teve ideias essenciais na década de 1940 para o futuro desenvolvimento tecnológico e não teve seu reconhecimento na época: Hedy Lamarr.

Enquanto o mundo caminhava para a catastrófica Segunda Guerra Mundial, a atriz que já era uma lenda do cinema, Hedy Lamarr, posava para fotos publicitárias e interpretava femmes fatales nas telas. Mas seu trabalho principal nem sempre era a prioridade da atriz, que foi um dos maiores nomes da Era de Ouro de Hollywood.

Lamarr era um gênio da tecnologia e, enquanto conquistava o coração de Hollywood na década de 1940, estava ao mesmo tempo ocupada idealizando uma invenção que esperava que pudesse ajudar sua nação adotiva, os Estados Unidos, a manter a Alemanha nazista sob controle.

A ideia de Lamarr era criar uma maneira simples, porém engenhosa, de impedir que navios de guerra do Eixo interferissem nas comunicações secretas dos Aliados — uma ideia tão boa que se tornou a base das telecomunicações modernas, conhecidas como Wi-Fi e GPS.

Mas o trabalho de Lamarr nos bastidores como inventora foi ofuscado tanto pelo glamour de Hollywood quanto pelos preconceitos de gênero da época, que muitos defendiam a incompatibilidade entre beleza e inteligência. Eis por que Lamarr era muito mais do que um rosto bonito — e como sua invenção do salto de frequência mudou o cotidiano para sempre.

Quem foi Hedy Lamarr?

Hedwig "Hedy" Kiesler nasceu em 9 de novembro de 1914, em Viena, na Áustria. Era filha de pais de ascendência judaica, embora sua mãe tenha se convertido ao cristianismo. Conhecida na época como Áustria-Hungria, a região era assolada pelo antissemitismo no início do século 20.

Historiadores observam que Lamarr manteve sua identidade judaica em segredo durante toda a vida, chegando a esconder sua herança judaica até mesmo de seus próprios filhos.

Filha de pais ricos, ela cresceu em uma sociedade privilegiada e frequentou escolas particulares junto com outras crianças abastadas. Era uma aluna curiosa, com já demonstrava talento para ciências e engenharia, mas esperava-se que ela se conformasse aos ideais femininos da época e priorizasse o romance e a família em detrimento da carreira. Lamarr era valorizada mais por sua aparência física do que por sua inteligência, ela se voltou para a atuação e estreou no cinema na Áustria em 1930.

Os primeiros papéis da jovem estrela a rotularam como uma "beleza vienense inocente, porém sedutora", escreve a historiadora Ruth Barton. Logo, a atriz iniciante se mudou para Berlim em busca de maior reconhecimento entre o público de língua alemã. Lá, fez aulas de atuação e conseguiu o papel principal no filme “Êxtase” (1933), um filme ousado dirigido por Gustav Machatý.

O filme imediatamente ganhou notoriedade como uma obra-prima erótica, chamando a atenção com suas representações de nudez e prazer sexual. Isso a catapultou para a fama instantânea, que ela transformou em uma carreira teatral e em um casamento com o rico negociante de armas Fritz Mandl em 1933.

O status de Mandl como um negociante de armas de confiança para fascistas italianos e alemães garantia à sua esposa uma vida social luxuosa. Mas ele era ciumento, possessivo e não tinha vergonha de seus laços estreitos com o fascismo. Os vastos negócios de armas de Mandl colocaram sua esposa em uma proximidade desconfortável com antissemitas, nazistas e fascistas.

Embora a esposa relutante se sentisse cada vez mais presa em seu relacionamento, ela gostava de acompanhar o marido em encontros com algumas das maiores mentes científicas e tecnológicas da Europa. Só que, por fim, ela fugiu do casamento — e, em 1937, também fugiu da Europa, onde o antissemitismo estava em ascensão.

Quando Hedy soube que o magnata do cinema Louis B. Mayer estava a caminho dos Estados Unidos em um transatlântico após suas férias, ela decidiu de última hora reservar uma passagem para o mesmo navio. A bordo, ela conseguiu conhecer e cativar Mayer, cujo estúdio MGM estava atingindo o auge de produtividade, popularidade e lucratividade. Juntos, eles idealizaram uma nova identidade sob medida para as lentes das câmeras: Hedy Lamarr, uma estrela da MGM bela, porém distante.

Com a ajuda de uma transformação a bordo e muita publicidade, a atriz Hedy Lamarr tornou-se uma sensação imediata ao chegar a Nova York, nos Estados Unidos.

O arquivo de patente do Sistema Secreto de Comunicação 
criado por Hedy Lamarr e George Antheil. 
Foto de Reprodução/Arquivos Nacionais dos EUA


Hedwig Eva Maria Kiesler, conhecida como Hedy Lamarr,
 foi uma famosa atriz e inventora de Hollywood. 
Juntamente com o pianista e compositor George Antheil, 
ela desenvolveu o Sistema Secreto de Comunicação, 
uma invenção que estabeleceu a base para tecnologias 
como Bluetooth e Wi-Fi. 
Foto de UCLA Charles E. Young Research Library Department of Special Collections (CC BY 4.0)

O que Hedy Lamarr inventou?

Em 1938, o papel que alçou Lamarr ao estrelato em "Argel" a transformou em uma estrela de verdade no cinema, e ela passou a interpretar mulheres sedutoras em filmes como "A Dama dos Trópicos", "Boomtown" e "Ziegfeld Girl". Embora sua beleza cativasse o público, sua inteligência — e genialidade tecnológica — permaneciam estritamente nos bastidores.

Naquela época, a Segunda Guerra Mundial havia começado, e Lamarr considerava abandonar a carreira de atriz e oferecer suas habilidades tecnológicas aos Estados Unidos para ajudar no esforço de guerra. Seu conhecimento privilegiado sobre armamentos, adquirido ao observar seu ex-marido e seus clientes, também era inestimável.

Embora os Estados Unidos ainda não tivessem entrado na guerra, já forneciam suprimentos aos Aliados por via marítima, e tanto embarcações mercantes quanto militares enfrentavam ameaças constantes de torpedos alemães.

Lamarr estava a par das últimas novidades em tecnologia de torpedos europeia graças ao convívio com os clientes de seu ex-marido. Ela estava pensando em uma maneira de os navios Aliados impedirem que seus torpedos controlados por rádio fossem sabotados por navios alemães, que frequentemente interferiam com sucesso nos sinais de rádio Aliados e tornavam os torpedos inúteis.

E se, em vez disso, os torpedos e os operadores se comunicassem em mais de um sinal, "pulando" juntos para outra frequência com frequência para escapar dos bloqueadores alemães?

Em 1940, ela conheceu George Antheil, um compositor modernista apaixonado por tecnologia. Ele percebeu imediatamente que estava falando com a mulher mais inteligente da sala, como recordou em suas memórias de 1945. "Hedy é muito, muito inteligente", escreveu ele. "Comparada com a maioria das atrizes que conhecemos, Hedy é uma gigante intelectual."

Quando Lamarr contou a Antheil sobre sua teoria de "salto de frequência", ele ficou intrigado e conseguiu construir um protótipo do tipo de tecnologia que ela idealizava. Ele era mais conhecido por obras que apresentavam pianos mecânicos sincronizados com sinos, sirenes, hélices de avião e outros sons estrondosos — composições que quase causaram um tumulto durante sua estreia no Carnegie Hall em 1930.

Antheil ajudou a conceber uma invenção inspirada em pianos mecânicos que utilizava mecanismos de relojoaria e bobinas de pianola para alternar simultaneamente entre o operador e o receptor para uma frequência diferente.

Inspirados por relatos de crescentes baixas no Atlântico, eles decidiram submeter sua ideia ao recém-fundado Conselho Nacional de Inventores (National Inventors Council), um programa público-privado de aceleração criado para impulsionar invenções que pudessem contribuir para o esforço de guerra. Em 1942, receberam uma patente para seu "Sistema de Comunicações Secretas" — cujos direitos concederam à Marinha dos Estados Unidos.

O conceito fracassou "em grande parte porque a invenção estava muito além das capacidades técnicas da época", escreveu a historiadora Lisa A. Marovich no livro "Business and Economic History" em 1998. Por fim, a Marinha decidiu não prosseguir com o dispositivo, uma rejeição que Antheil sempre atribuiu à menção a pianos mecânicos na patente.

Acontece que a ideia era tecnicamente sólida — apenas décadas à frente de seu tempo.

O conceito de alta tecnologia de Hedy Lamarr

Lamarr continuou sua carreira cinematográfica, atingindo o auge nas décadas de 1940 e 1950 com filmes como “Sansão e Dalila”, antes de ver sua carreira declinar no final da década. Nos bastidores, sua vida pessoal tempestuosa resultou em seis casamentos, seis divórcios e três filhos. Lamarr tornou-se cidadã norte-americana em 1953.

Enquanto isso, a Marinha dos Estados Unidos mantinha engavetada a tecnologia que ela havia desenvolvido. Mas, justamente quando a estrela de Lamarr no cinema começou a declinar, a Guerra Fria levou autoridades governamentais a revisitar algumas de suas tecnologias rejeitadas da época da Segunda Guerra Mundial.

A Marinha começou a usar os conceitos de Lamarr e Antheil para desenvolver sistemas de comunicação seguros para uma variedade de usos, mas nunca creditou publicamente os inventores.

“A maior parte da tecnologia desenvolvida pelas ou para as forças armadas incorporava os conceitos de salto de frequência de Lamarr e Antheil” na década de 1960, escreveram Kenneth T. Klima e Adriana Klima no livro “História da Marinha”, em 2019. O conceito criado pela dupla permaneceu classificado até a década de 1980.

No entanto, poucos sabiam ou reconheciam quem havia inventado o salto de frequência depois que o conceito se tornou de domínio público. À medida que a estrela de Lamarr perdia o brilho, a sua contribuição para a tecnologia permanecia oculta à vista de todos, porém presente nos telefones, televisões e outras novas tecnologias que a cercavam.

Mas, escreveram Klima e Klima, “eles não receberam nenhuma atribuição, royalties ou crédito das forças armadas ou da indústria de comunicações”. Durante anos, houve pouco reconhecimento da invenção, exceto por uma coluna de jornal jocosa de 1946 que afirmava que a famosa beleza de Lamarr e sua participação no Conselho Nacional de Inventores haviam se provado uma ferramenta de recrutamento notável para aspirantes a inventores.

Sua invenção com Antheil formou a base para avanços nas telecomunicações como Wi-Fi usado na Internet, Bluetooth e GPS.

Na foto vemos algumas pessoas trabalhando em seus notebooks, 
usando a Internet via Wi-Fi - que foi criada graças ao invento 
de Lamarr e Antheil.
Foto de Michael Coghlan CC BY-SA 2.0


Uma mulher genial não reconhecida

Até recentemente, a inovação de Lamarr passou despercebida, mesmo seu projeto tendo se tornado praticamente onipresente nas telecomunicações. Enquanto isso, a ex-estrela de Hollywood cansou-se da vida pública e tornou-se quase reclusa, falecendo em 2000 aos 85 anos.

Naquela época, o mundo científico já havia começado a reconhecer suas contribuições, e Lamarr e Antheil foram homenageados com prêmios. Mas sua maior honraria, a inclusão no Hall da Fama dos Inventores Nacionais nos Estados Unidos, veio postumamente, reconhecendo que Lamarr e seu parceiro inventor “nunca lucraram com sua invenção durante suas vidas”.

Será que Lamarr tinha noção da importância que seu trabalho alcançaria — ou de como ele abriu novos caminhos para as mulheres nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática (STEM)?

“Ela nunca falou sobre essa parte da sua vida”, disse a diretora Alexandra Dean, cujo documentário “Bombshell: The Hedy Lamarr Story” explora a vida e o legado da inventora, em uma entrevista de 2018.

“O pior é que estou sempre muito à frente do meu tempo”, lamentou a própria Lamarr em sua autobiografia de 1966, chamado “Êxtase e Eu: Minha Vida como Mulher”. “E isso é uma desvantagem para mim.” Apesar de ser inovadora e criativa, escreveu Lamarr, ela teve poucas oportunidades de expressar esse lado de si mesma em um mundo obcecado por sua beleza e sensualidade.

“Se seus sonhos de retornar às telas já haviam ficado para trás, a paixão de Hedy pela invenção permaneceu com ela até o fim”, escreve Barton. Sua tecnologia sobreviveu a ela, e ela é lembrada como uma lenda do cinema e uma figura fundadora inesperada das telecomunicações modernas.



Fonte:

Por Erin Blakemore

Publicado 10 de fev. de 2026


segunda-feira, 30 de março de 2026

CITAÇÕES: USE COMO EPÍGRAFE ESTA FRASE DE HAN KANG

 


     “E ela muitas vezes esqueceu que seu corpo (o de todos nós) é uma casa de areia que se esfarelou e se esfarela que vai escorrendo entre os dedos.”

 – Han Kang, in “O livro branco”; tradução de Natália M. Okabayasshi

sexta-feira, 27 de março de 2026

HISTÓRIA: ABYA YALA

O QUE É ABYA YALA, O NOME DADO AO CONTINENTE AMERICANO?

Parque Nacional Chiribiquete na Colômbia.


O termo vem do povo kuna, oriundo do Panamá e da Colômbia.

Abya Yala é o termo que as organizações e instituições de povos indígenas adotaram para se referir ao continente americano, de acordo com o documento Povos Indígenas nas Américas (Abya Yala), publicado em 2017 pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal).

De acordo com o documento, "Abya Yala" é o nome dado ao continente pelo povo kuna (também conhecido como guna ou cuna), originário do Panamá e da Colômbia, antes da chegada de Cristóvão Colombo e dos europeus no século 15.

O que significa Abya Yala

Na língua kuna, Abya Yala significa "terra madura", "terra viva" ou "terra que floresce", e é sinônimo de América, acrescenta o capítulo “Abya Yala, el descubrimiento de América”, escrito pelo geógrafo e pesquisador brasileiro Carlos Walter Porto-Gonçalves, e publicado no livro Bicentenarios (otros): transiciones y resistencias, publicado em 2011.

Especificamente, o povo kuna é originário da Serra Nevada, no norte da Colômbia. Eles habitavam a região do Golfo de Urabá e as montanhas de Darién. Atualmente, vivem na costa caribenha do Panamá, na Comarca de Guna Yala (San Blas).

Cloe Saint-Denis documentando a cultura 
e a vida tradicional dos Kuna Yala
Foto de CHLOE SAINT DENIS

Embora cada um dos povos originais do continente tenha atribuído nomes diferentes às regiões que ocupavam (por exemplo, Tawantinsuyu, Anahuac ou Pindorama), a expressão Abya Yala é cada vez mais usada em uma tentativa de construir um senso de unidade e pertencimento, de acordo com o artigo de 2011.

No mesmo sentido, o documento da Cepal reconhece que o nome Abya Yala é um símbolo de identidade e respeito pela terra que se habita.

De acordo com Porto-Gonçalves, a primeira vez que "Abya Yala" foi usada em um sentido político foi na Segunda Cúpula Continental de Povos e Nacionalidades Indígenas de Abya Yala, realizada em Quito, no Equador, em 2004.

Ritual ancestral durante o primeiro encontro continental 
de povos e grupos étnicos de Aby Yala 
– La Paz/ 2008 (foto de Alzar Rodes)

No entanto, em 2007, na 3ª Cúpula Continental dos Povos e Nacionalidades Indígenas de Abya Yala, realizada em Iximche, na Guatemala, decidiu-se criar uma Coordenação Continental das Nacionalidades e Povos Indígenas de Abya Yala como um espaço permanente de ligação e intercâmbio, para compartilhar experiências e propostas, e para se autodenominarem Abya Yala.

América Latina



Fonte:

Redação National Geographic Brasil

terça-feira, 24 de março de 2026

CITAÇÕES: USE COMO EPÍGRAFE ESTA FRASE DE HÉLIO PELLEGRINO

 


Se o trabalhador for desprezado e agredido pela sociedade, tenderá a desprezá-la e agredi-la até atingir um ponto de ruptura”. 

Hélio Pellegrino - Pacto edípico, pacto social. Folha de S.Paulo, 11 set. 1983. Folhetim. – Apud Wladimir Safatle, Nelson da Silva Junior, Christian Dunker (organizadores), in “Neoliberalismo como gestão do sofrimento psíquico”.     

sábado, 21 de março de 2026

HUMOR: MILLOR FERNANDES E O DIREITO AO FODA-SE

 O DIREITO AO FODA-SE

Millor Fernandes

Os palavrões não nasceram por acaso. São recursos extremamente válidos e criativos para prover nosso vocabulário de expressões que traduzam com a maior fidelidade nossos mais fortes e genuínos sentimentos. É o Povo fazendo sua língua. Como o Latim Vulgar, será esse Português Vulgar que vingará plenamente um dia. Sem que isso signifique a “vulgarização” do idioma, mas apenas sua maior aproximação com a gente simples das ruas e dos escritórios, seus sentimentos, suas emoções, seu jeito, sua índole.



“Pra caralho”, por exemplo. Qual expressão traduz ideia de maior quantidade do que “Pra caralho”? “Pra caralho” tende ao infinito, é quase uma expressão matemática, física. A Via-Láctea tem estrelas pra caralho, o Sol é quente pra caralho, o universo é antigo pra caralho, eu gosto dela pra caralho, entende?

No gênero do “Pra caralho”, mas no caso expressando a mais absoluta negação está o famoso e crescentemente utilizado “Nem fodendo!”. Que nem o “Não, não e não!” e nem tampouco o nada eficaz e já sem nenhuma credibilidade “Não, absolutamente não!” substituem. O “Nem fodendo” é irretorquível, liquida o assunto. Libera-te, com a consciência e o ego tranquilos, para outras atividades de maior interesse em sua vida.


Aquele filho pentelho de 17 anos te atormenta pedindo o carro pra ir surfar no litoral? Não perca tempo nem paciência. Solte logo um definitivo “Huguinho, presta atenção, filho querido, NEM FODENDO!”. O impertinente se manca na hora e vai pro Shopping se encontrar com a turma numa boa e você fecha os olhos e volta a curtir o novo CD do Lupicínio.

Por sua vez, o “porra nenhuma!” Atendeu tão plenamente as situações em que nosso ego exigia não só a definição de uma negação, mas também o justo escárnio contra descarados blefes, que hoje é totalmente impossível imaginar que possamos viver sem ele em nosso cotidiano profissional.


Como comentar a bravata daquele chefe idiota senão com um “é PhD porra nenhuma!”, ou “ele redigiu aquele relatório sozinho porra nenhuma!”. O “porra nenhuma”, como vocês veem, nos provê sensações de incrível bem estar interior. É como se estivéssemos fazendo a tardia e justa denúncia pública de um canalha. São dessa mesma gênese os clássicos “aspone”, “chepone”, “repone” e, mais recentemente, o “prepone” - presidente de porra nenhuma.


Há outros palavrões igualmente clássicos. Pense na sonoridade de um “Puta-que-pariu!”, ou seu correlato “Puta-que-o-pariu!”, falados assim, cadenciadamente, sílaba por sílaba...Diante de uma notícia irritante qualquer um Puta-que-o-pariu! Dito assim te coloca outra vez em seu eixo. Seus neurônios têm o devido tempo e clima para se reorganizar e sacar a atitude que lhe permitirá dar um merecido troco ou o safar de maiores dores de cabeça.


E o que dizer de nosso famoso “vai tomar no cu!”. E sua maravilhosa e reforçadora derivação “vai tomar no olho do seu cu!”. Você já imaginou o bem que alguém faz a si próprio e aos seus quando, passado o limite do suportável, se dirige ao canalha de seu interlocutor e solta: “Chega! Quer saber mesmo de uma coisa? Vai tomar no olho do seu cu! “. Pronto, você retomou as rédeas de sua vida, sua autoestima. Desabotoa a camisa e saia à rua, vento batendo na face, olhar firme, cabeça erguida, um delicioso sorriso de vitória e renovado amor-íntimo nos lábios.


Seria tremendamente injusto, em que pesem ainda inexplicáveis e preconceituosas resistências à sua palavra-raiz, não registrar aqui a expressão de maior poder de definição do PV (Português Vulgar): “ Embucetou!”. E sua derivação mais avassaladora ainda: “Embucetou de vez!”.

Você conhece definição mais exata, pungente e arrasadora para uma situação que atingiu o grau máximo imaginável de ameaçadora complicação? Expressão, inclusive, que uma vez proferida insere seu autor em todo um providencial contexto interior de alerta e autodefesa. Algo assim como o comentário de um vizinho para sua esposa ao sacar que no auge da violenta briga do casal da residência ao lado, chegam de súbito a amante, o filho espúrio e o cunhado bêbado com o resultado do exame de DNA: “Fecha a porta que embucetou de vez!”.


O nível de stress de uma pessoa é inversamente proporcional à quantidade de “foda-se!” que ela fala. Existe algo mais libertário do que o conceito do ”foda-se!”? O "foda-se!” aumenta minha auto-estima, me torna uma pessoa melhor. Reorganiza as coisas. Liberta-me”. Não quer sair comigo? Então foda-se!.” “Vai querer decidir essa merda sozinho(a) mesmo? Então foda-se!” O direito ao “foda-se!” deveria estar assegurado na constituição brasileira. Ou como gostaria de dizer o FHC:

Liberdade, igualdade, fraternidade e foda-se.


quarta-feira, 18 de março de 2026

CITAÇÕES: USE COMO EPÍGRAFE ESTE TEXTO DE WLADIMIR SAFATLE, NELSON DA SILVA JÚNIOR E CHRISTIAN DUNKER

 


.     “Desde seu primeiro “laboratório”, o Chile, o neoliberalismo mostrou-se uma doutrina autoritária, ainda que seu arsenal teórico nem sempre revele isso de maneira explícita. Nos anos 1980, Tatcher e Reagan também impuseram à base da força sua agenda. As consequências da crise de 2008 para o programa neoliberal vigente ainda são de difícil apreensão. Golpes de Estado, enrijecimento das forças repressivas, ascensão de regimes protofascistas ultraliberais e desmonte dos direitos sociais são alguns elementos visíveis até agora. A face autoritária do neoliberalismo realmente existente, para além de todo aparato retórico, aparece macabra no horizonte.” 

– Wladimir Safatle, Nelson da Silva Junior, Christian Dunker (organizadores), in “Neoliberalismo como gestão do sofrimento psíquico”.