terça-feira, 6 de outubro de 2026

AILUROFILIA: UMA PINTORA HOLANDESA DO SÉCULO XIX

 
OS GATOS DE HENRIËTTE RONNER-KNIP (1821–1909)


Henriëtte Ronner-Knip foi uma pintora holandesa mais conhecida por suas representações românticas de animais. As pinturas de Ronner-Knip são caracterizadas por suas pinceladas de penas e cores quentes, que emprestam um senso de emoção às suas representações de cães e gatos, representados brincando ou dormindo em cenas domésticas. Nascida em 31 de maio de 1821 em Amsterdã, Holanda, em uma família de pintores, seu pai deu a Ronner-Knip suas primeiras aulas. O artista também é conhecido por ter pintado vários retratos reais, incluindo os cachorros de colo de Marie Henriette da Áustria e a princesa Marie de Hohenzollern-Sigmaringen. O trabalho de Ronner-Knip está principalmente em coleções particulares, mas também pode ser encontrado no Rijksmuseum em Amsterdã e na National Gallery em Londres. A pintora ficou conhecida por transformar cenas simples do cotidiano dos felinos em pinturas extremamente detalhadas. No início da carreira, porém, seus principais temas eram animais rurais e cães. Com o tempo, os gatos passaram a ocupar um lugar central em sua obra. Para estudar seus movimentos, Ronner-Knip mantinha os animais por perto enquanto trabalhava, observando cuidadosamente como dormiam, brincavam e se limpavam. E isso aparece em suas pinturas. Seus gatinhos não ficam simplesmente parados posando. Eles derrubam objetos, brincam com tecidos, exploram móveis, descansam sobre almofadas e transformam ambientes elegantes em verdadeiros parques de diversão. A artista prestava atenção aos menores detalhes: os bigodes delicados, o brilho dos olhos, a textura dos pelos e, principalmente, as diferentes personalidades dos animais. Seu talento conquistou colecionadores e membros da realeza europeia, tornando-a uma das mais conhecidas pintoras de animais de sua época. Mais de um século depois, suas obras continuam familiares para qualquer pessoa que já tenha convivido com um gato. Porque os móveis e as roupas mudaram — mas a curiosidade dos gatos continua exatamente a mesma. Ela morreu em 28 de fevereiro de 1909 em Bruxelles, Bélgica. Uma galeria de gatos, para os ailurófilos (gateiros) se deliciarem:















Fontes (para o texto):


segunda-feira, 21 de setembro de 2026

FOTOGRAFIA: ROBERT DOISNEAU


UM OLHAR OBLÍQUO/UM OLHAR DE LADO: ROBERT DOISNEAU



Un Regard Oblique, também Le Regard Oblique, a fotografia acima, é do ffotógrafo francês Robert Doisneau, de 1948. Ela mostra um homem e uma mulher observando pinturas na vitrine de uma vitrine que pertencia à joja de antiguidades de Robert Miquel, conhecido como Romi, que também trabalhava como repórter para a Paris Match e era amigo de Robert Doisneau. A loja ficava no número 15 da Rue de Sein, no 6º arrodissement de Paris.

A fotografia foi publicada na edição de 23 de maio de 1949 da revista Life , na seção fixa "Falando de Imagens...", juntamente com outras oito fotografias de Doisneau. Sete delas mostram o mesmo tema, mas com pessoas diferentes olhando para a vitrine. A oitava fotografia mostra uma multidão em frente à loja. O título da série fotográfica é "Pintura provoca reações intensas na margem esquerda de Paris". " Um Olhar Oblíquo" é a última fotografia da seção e, além daquela da multidão, é a única com legenda. Ela é intitulada "A atenção de um casal que olha a vitrine está dividida. A esposa discute atentamente a pintura central, mas os olhos do marido já estão vagando". O texto que acompanha a matéria explica o contexto das fotografias. Afirma que o dono da loja de antiguidades havia colocado duas pinturas em sua vitrine. A pintura do meio retrata uma mulher nua entrando na banheira. A pintura na parede tem 50 anos e foi feita por um artista desconhecido chamado Wagner. No entanto, o dono da loja logo percebeu que o quadro colocado de forma menos visível na parede atraía muito mais atenção dos transeuntes. O fotógrafo Robert Doisneau observou isso e, portanto, posicionou sua câmera atrás da vitrine da loja para capturar a surpresa e a confusão de seus compatriotas ao verem o quadro.

As demais fotos da série: 









Robert Doisneau ajudou a construir o imaginário romântico parisiense. “Le Baiser de l'Hôtel de Ville” (em tradução livre, “O Beijo do Hôtel de Ville”), uma das fotos mais reproduzidas do século 20, ilustra um beijo apaixonado, em 1950, porém ensaiado na capital da França, revelou Francine Deroudille, filha do fotojornalista. Ele passeava pelas ruas de Paris com uma câmera em mãos, sempre registrando os movimentos urbanos e as belezas corriqueiras do cotidiano. Apesar da imagem transbordar naturalidade e intimidade, como se os espectadores pudessem espiar um momento de conexão amorosa entre dois amantes, não é tão espontânea como parece .“A foto foi tirada na primavera de 1950. O agente do meu pai havia proposto uma série sobre 'os amantes de Paris' para publicações americanas, e a revista Life a encomendou”, relembrou Francine, em entrevista à BBC.

A fim de evitar problemas legais por direitos de imagem, ele fotografava amigos ou atores para as reportagens encomendadas. Para produzir essas fotos românticas, o parisiense saiu com os estudantes de teatro apaixonados Françoise Bornet (na época, com o sobrenome de solteira “Delbart”) e Jacques Carteaud e deixou-os à vontade. "Não posavam. Doisneau simplesmente os flagrava flertando e se beijando, de uma forma muito natural", descreveu. O clique perfeito veio em meio a um beijo apaixonado em frente à prefeitura da cidade. O contraste é curioso: parisienses caminham indiferentes ao gesto de carinho; carros trafegam pela rua e o movimento continua na capital da França. É um momento sensível apenas para os pombinhos "clicados", sugere a foto. A fotografia foi publicada na Life em 1950, porém caiu no esquecimento pelos 30 anos seguintes.

Professor de fotografia e fotojornalismo na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), Weiler Finamore Filho descreve que Doisneau já era um profissional de referência quando foi chamado para produzir o clique romântico. "Tinha fotos incríveis e era conhecido por ser um fotógrafo do cotidiano e da rua", reconhece.




quarta-feira, 16 de setembro de 2026

SOCIEDADE: A POLÊMICA RELAÇÃO ENTRE FRIDA KAHLO E DIEGO RIVERA

A APAIXONADA E ABERTA RELAÇÃO DE FRIDA E DIEGO


21 de agosto de 1929. Um casamento simples, após um curto namoro. Ela, Frida Kahlo, tem 22 anos. Ele, Diego Rivera, 43. Nas mesas, há sopa de ostras, arroz com banana, pimentões recheados, mole negro, pozole vermelho. Ao redor, decoração colorida e um punhado de amigos: artistas, fotógrafos e militantes do Partido Comunista.

De repente, surge a ex-mulher dele, Lupe Marín, para levantar a saia da noiva e mostrar suas pernas, uma mais magra que a outra, uma sequela da espinha bífida, de que ela padecia. “Olhe para esses dois pauzinhos. É o que Diego tem em vez de pernas”, grita bem alto. O episódio define o tom do que seria daquele dia em diante um relacionamento tempestuoso e fascinante entre os dois grandes artistas mexicanos.

As vidas do Elefante e da Paloma (pomba), como eram chamados por sua grande diferença de tamanho, se entrelaçaram por 25 anos. Durante todos eles, haveria dois casamentos, um divórcio e um sem-número de infidelidades e escândalos que deliciavam a imprensa da época. Em seu último livro, Heridas. Amores de Diego Rivera, a escritora Martha Zamora reconstrói a vida das mulheres que compartilharam a vida com o famoso pintor. Reconstruímos com Zamora a apaixonada relação de Frida e Diego a partir de cartas, depoimentos, fotografias e obras de arte.

“Diego é bom para mim e me ama (até agora) bastante”, dizia Frida Kahlo à mãe em uma carta enviada em 1931 dos Estados Unidos, onde os recém-casados moraram por alguns anos. Mas os casos de Rivera já haviam começado.

Quando Alberto Veraza Uthoff, enteado da irmã de Frida, foi visitar o casal em Nova York, encontrou a pintora furiosa. “Estava muito irritada, dizendo grosserias porque Diego tinha ido a Detroit com outra senhora e a havia deixado sozinha”, disse em uma entrevista à escritora Martha Zamora.

Ione Robinson, uma das assistentes norte-americanas nos murais de São Francisco em 1930, foi uma dessas muitas amantes que o teriam acompanhado – algumas por horas, outras por dias. Eram jovens pintoras de “talento sobrenatural”, dirá Frida em uma carta anos depois; talento que “está sempre em razão direta da temperatura de suas partes de baixo”, acrescentava. Enquanto isso, naqueles anos de casamento nos Estados Unidos, Frida teria o primeiro de seus abortos. A dor das traições e a infertilidade marcariam sua obra.

Para quem conhecia Diego, suas aventuras não eram uma surpresa: 20 anos mais velho que Frida, chegou a ela depois de viver dez anos em Paris com a artista Angelina Beloff, a quem traiu com a cubista Marevna Vorobev – com quem teve uma filha não reconhecida. “Depois, ele a abandonou para voltar ao México, onde se casou com Lupe Marín e teve duas filhas”, diz Zamora.

O triângulo amoroso, neste caso, se formou com a fotógrafa ítalo-americana Tina Modotti. Mas Frida era “a mais maravilhosa”, segundo Diego. “Tive a sorte de amar a mulher mais maravilhosa que já conheci. Ela era poesia e a própria genialidade”, disse Diego sobre Frida em uma entrevista a Elena Poniatowska. “Infelizmente, eu não soube amar somente a ela, porque sempre fui incapaz de amar uma única mulher”, confessou.

Frida pintou, em 1931, uma tela que retratava o casal: 
transposição da vida real para as artes era comum na obra da artista mexicana

De volta ao México, os Riveras se mudaram em 1934 para o bairro de San Ángel, para duas casas ligadas por uma ponte na altura do telhado, que ele havia encomendado ao arquiteto Juan O'Gorman. Era um símbolo da autonomia e codependência dos gênios criativos. Ali aconteceria a maior traição do mestre. Frida havia convencido Diego a contratar sua irmã Cristina Kahlo como secretária e que ela posasse nua para a obra O Conhecimento e a Pureza. A proximidade resultou em um caso. Frida deixou a casa-estúdio e Diego.

Unos cuantos piquetitos

Umas Facadinhas de Nada, obra com uma mulher com várias facadas, em uma cama, é o testemunho comovente da dor de Frida Kahlo pela traição do marido com sua irmã Cristina. Em 1935, Frida concorda em voltar para Rivera porque o quer “mais do que a própria pele” – confessa em uma carta. Há quem acredite que se iniciou então um pacto de aceitação de aventuras. Embora ele explodisse de ciúmes, por exemplo, quando descobre o romance dela com o escultor Isamu Noguchi (1936). Dizem que, com uma arma na mão, os obrigou a se separarem.


Leon Trótski, o político e revolucionário russo refugiado no México, foi outro dos amores de Frida (1937), que cartas apaixonadas comprovam. Mas a grande fraqueza de Frida por quase uma década foi um fotógrafo de origem húngara de Nova York, que faria seus melhores retratos em cores. “Oh, meu caro Nick, te amo muito. Preciso tanto de você, meu coração dói “, ela escreve em uma de suas muitas cartas a Nickolas Muray.

Em 1939, Frida viaja para Nova York, cidade onde Muray está, e depois para a Europa. Enquanto isso, no México, Diego cai aos pés da pintora húngara Irene Bohus e da bela atriz norte-americana Paulette Goddard. É ele quem pede o divórcio, que se concretiza em 6 de novembro de 1939.

O médico Heinz Berggruen, com quem Frida viveu um mês de romance no Hotel Barbizon Plaza, em Nova York, conta que ela logo quis voltar para Diego. “Quanto mais tempo passávamos juntos, mais perceptível ficava o seu vínculo com ele. Tive que reconhecer que para ela nosso relacionamento não passava de um episódio”, diz Berggruen (Frida Kahlo, por Linde Salber).

Frida produz dezenas de pinturas após o divórcio, mas não consegue vendê-las. Cai em depressão e no álcool. “Diego me fez sofrer tanto que não pude perdoá-lo facilmente, mas ainda o amo, mais do que a minha vida, e ele sabe disso, e por isso age assim”, confessa Frida à atriz Dolores del Río em uma carta.

Frida e Diego se casam novamente em 8 de dezembro de 1940, após o assassinato de Trótski. Em seu segundo casamento com Rivera, Frida impõe regras: não haverá sexo. Serão cúmplices e amigos. “Está claro que Diego precisava de Frida tanto como Frida precisava dele”, diz a escritora e biógrafa Linde Saber.

A lista de rumores de amantes de ambos os lados se torna extensa. Diego sairá com a artista Rina Lazo. Frida vive um romance intenso e secreto com o pintor espanhol Josep Bartoli. E acredita-se que também com mulheres, como Chavela Vargas. “Extraordinária, lésbica, além do mais, a desejei eroticamente.” É assim que a artista a descreve em uma carta ao poeta Carlos Pellicer. Mas suas obras mostram dor diante das aventuras do marido.

Quando se prepara uma exposição em homenagem a Diego Rivera em 1949 no Instituto Nacional de Belas Artes, o mestre apronta outra das suas: “Dei outro desgosto a Frida. Eu me apaixonei pela atriz de cinema María Félix “, conta ele mesmo. Frida “sofreu inutilmente”, diz Diego: a exuberante María Félix nunca quis se casar com ele. A própria Frida enviará a ela uma carta decorada com desenhos de pombos pedindo que aceite a proposta de casamento do marido”, diz Martha Zamora.

Ele a esperaria no aeroporto da Cidade do México com um buquê de flores, em cada visita. Há quem diga que houve um triângulo entre Frida, Diego e María, que ficava na Casa Azul com os dois por longas temporadas. E que a artista oscilava entre os carinhos e o ciúme com as mulheres do marido. Ela pintou no quarto ao lado do estúdio: “Quarto de María Félix, Frida Kahlo e Diego Rivera”, com outros nomes de mulheres próximas ao mestre.

Diego trabalhava, como sempre, sete dias por semana, dezenas de horas por dia, em murais, desenhos e cavaletes. E visitava todos os dias a comerciante Emma Hurtado, que mais tarde se tornaria sua última mulher. Frida Kahlo morreu em 13 de julho de 1954, sozinha, na Casa Azul. “Espero alegre a saída e espero nunca mais voltar” foi seu último escrito. “Foi o dia mais trágico da minha vida. Perdi minha amada Frida para sempre”, recordaria Diego Rivera em uma entrevista a Gladys March.

Diego reconhece os tormentos de Frida em um relato despojado a March, e ensaia um mea culpa. “Tarde demais percebi que a parte mais maravilhosa da minha vida tinha sido meu amor por Frida, embora realmente não pudesse dizer que, se tivesse outra oportunidade, eu me comportaria com ela de maneira diferente. Todo homem é um produto da atmosfera social em que cresce e eu sou quem sou. Não tive nunca moral alguma e vivi apenas para o prazer, onde quer que o encontrasse […] Se amava uma mulher, quanto mais a amava, mais desejava magoá-la. Frida foi apenas a vítima mais óbvia desta desagradável característica da minha personalidade.”

























Fonte:

Autora: Pamela Subizar

Publicado em 27/08/2019; Editado em 13/12/2019