segunda-feira, 27 de julho de 2026

RACISMO: SARAH BAARTMAN, AFRICANA QUE VIROU ATRAÇÃO DE CIRCO

 SARAH BAARTMAN


A CHOCANTE HISTÓRIA DA AFRICANA QUE VIROU ATRAÇÃO DE CIRCO

Em outubro de 1810, Sarah Baartman foi levada da África do Sul 
à Grã-Bretanha para aparecer em espetáculos. (Foto SPL)

Há dois séculos, Sarah Baartman morreu após passar anos sendo exibida em feiras europeias de "fenômenos bizarros humanos". Agora, rumores de que sua vida poderia ser transformada em um filme de Hollywood estão causando polêmica.

Sarah Baartman morreu em 29 de dezembro de 1815, mas o show, sob uma perspectiva ainda mais macabra, continuou.

Seu cérebro, esqueleto e órgãos sexuais continuaram sendo exibidos em um museu de Paris até 1974. Seus restos mortais só retornaram à África em 2002, após a França concordar com um pedido feito por Nelson Mandela.

Ela foi levada para a Europa, aparentemente, sob promessas falsas por um médico britânico. Recebeu o nome artístico de "A Vênus Hotentote" e foi transformada em uma atração de circo em Londres e Paris, onde multidões observavam seu traseiro.

Hoje em dia, ela é considerada por muitos como símbolo da exploração e do racismo colonial, bem como da ridicularização das pessoas negras muitas vezes representadas como objetos.


Boatos

Recentemente, começou a correr um rumor de que a cantora Beyoncé estaria planejando escrever e protagonizar um filme sobre Baartman.

Os representantes da artista negaram essa informação, mas o burburinho foi suficiente para provocar preocupação.

Jean Burgess, chefe do grupo khoikhoi – a etnia de Baartman – disse que Beyoncé não conta com "a dignidade humana básica para ser digna de escrever a história de Sarah, menos ainda para interpretá-la". Ela justificou que via com "arrogância" a suposta ideia de Beyoncé de "contar uma história que não pertence a ela" e sugeriu que a atriz fizesse um filme sobre indígenas americanos.

Boato de filme sobre vida de Baartman foi desmentido por equipe de Beyoncé

Já Jack Devnarain, presidente do Sindicato de Atores da África do Sul, disse que os cineastas têm "direito de contar a história de pessoas que as fascinam e não devemos nos opor a isso".

Ao negar qualquer vínculo com o filme, o representante de Beyoncé ponderou que "esta é uma história importante que deve ser contada".


História



A vida de Baartman foi marcada por penúrias.

Acredita-se que ela tenha nascido na Província Oriental do Cabo da África do Sul em 1789.

Sua mãe morreu quando ela tinha dois anos e seu pai, um criador de gado, morreu quando ela era adolescente.

Ela começou a trabalhar como empregada doméstica na Cidade do Cabo quando um colono holandês assassinou seu companheiro, com quem havia tido um bebê que também morreu.

Em outubro de 1810, apesar de ser analfabeta, ela supostamente assinou um contrato com o cirurgião inglês William Dunlop e o empresário Hendrik Cesars, dono da casa em que ela trabalhava, que disse que ela viajaria para a Inglaterra para aparecer em espetáculos.

Atração

Quando ela foi exibida em um estabelecimento em Piccadilly Circus, em Londres, causou fascinação.

"É preciso lembrar que, nesta época, nádegas grandes estavam na moda, e por isso muitas pessoas invejavam o que ela tinha naturalmente", diz Rachel Holmes, autora de A Vênus Hotentote: vida e morte de Saartjle Baartman.

O motivo para isso é que Baartman, também conhecida como Sara ou Saartjie, tinha esteatopigia, uma condição genética que faz com que a pessoa tenha nádegas protuberantes devido à acumulação de gordura. Essa condição é mais frequente em mulheres e principalmente entre aquelas de origem africana.

A Venus de nádegas "belas" e as curvas de uma mulher 'esteatopígica'

Mas a própria palavra é motivo de debate, porque, para muitos, seria racista o fato de ela sugerir que se uma mulher tem nádegas grandes e é negra, sofre de uma doença.

Já para as nádegas pequenas a palavra é "calipigia", em referência à famosa estátua romana Vênus Calipigia – que significa "a Vênus das nádegas belas".


Toda uma Vênus

No espetáculo, Baartman usava roupa justa e da cor da sua pele, contas e plumas e fumava um cachimbo.

Clientes mais abastados podiam pagar por demonstrações privadas em suas casas, em que era permitido que os convidados a tocassem.

Os "empresários" de Baartman a apelidaram de "Vênus Hotentote" porque, nesta época, esse era o termo que os holandeses usavam para descrever os khoikhois e aos san, os principais membros de um importante grupo populacional africano, os khoisans.

Atualmente, o termo 'hotentote' é considerado pejorativo.

Livre ou assustada?

Nesta época, o império britânico já havia abolido o tráfico de escravos (em 1807), mas não a escravidão.

Mesmo assim, ativistas ficaram horrorizados com a forma como os empresários de Baartman a tratavam em Londres.

British Museum: Charges políticas foram feitas com figura de Baartman

Eles foram processados judicialmente por deter Baartman contra sua vontade, mas foram declarados inocentes. A própria Baartman testemunhou a favor deles.

"Ainda não se sabe se Baartman foi forçada, como os defensores da abolição e os ativistas humanitários alegavam, ou se atuou por livre arbítrio", diz o historiador Christer Petley, da Universidade de Southampton, na Inglaterra.

"Se eles a estavam obrigando a trabalhar, é possível que tenha se sentido intimidada demais para dizer a verdade no tribunal. Nunca saberemos."

"O caso é complexo e a relação entre Baartman e seus chefes definitivamente não era igualitária."

A caminho de Paris

Holmes destaca que o show de Baartman incluía dança e interpretação de vários instrumentos musicais, e diz que um público "sofisticado" em Londres – uma cidade em que as minorias étnicas não eram raras – não teriam se encantado por muito tempo com ela apenas pela sua cor.

De qualquer forma, com o tempo, o show da "Vênus" foi perdendo seu caráter de novidade e popularidade entre o público da capital, e por isso ela saiu em turnê pela Grã-Bretanha e Irlanda.

Em 1814, foi para Paris com seu empresário, Cesars, e outra vez virou uma celebridade, que tomava coquetéis no Café de Paris e ia às festas da alta sociedade.

Cesars voltou para a África do Sul e Baartman caiu nas mãos de um "exibidor de animais" cujo nome artístico era Reaux.

Baartman conquistou fama novamente em Paris

Ela bebia e fumava sem parar e, segundo Holmes, "provavelmente foi prostituída por ele".

'Grotesco'

Eventualmente, Baartman aceitou ser estudada e retratada por um grupo de cientistas e artistas, mas se recusou a aparecer completamente nua na frente deles.

Ela argumentava que isso estava além de sua dignidade: nunca havia feito isso em seus espetáculos.

Foi neste período que teve início o estudo que chegou a ser chamado de "ciência da raça", diz Holmes.

Baartman morreu aos 26 anos de idade.

A causa foi descrita como "uma doença inflamatória e eruptiva". Desde então, cogita-se que tenha sido resultado de uma pneumonia, sífilis ou alcoolismo.

O naturalista Georges Cuvier, que dançou com Baartman em um das festas de Reaux, fez um modelo de gesso de seu corpo antes de dissecá-lo.

Autoridades francesas e sul-africanas com o molde de gesso de Baartman antes da devolução

Além disso, preservou seu esqueleto, pôs seu cérebro e seus órgãos genitais em frascos, que permaneceram expostos no Museu do Homem de Paris até 1974, algo que Holmes descreve como "grotesco".

De volta para casa

"A dominação dos africanos foi explicada com ajuda da ciência, estabelecendo que os khoisan eram um grupo menos nobre no progresso da humanidade", escreveu Natasha Gordon-Chipembere, editora de Representação e feminilidade negra: o legado de Sarah Baartman.

Após sua eleição em 1994 como presidente da África do Sul, Nelson Mandela solicitou a repatriação dos restos mortais de Baartman e o modelo de gesso feito por Cuvier.

O governo francês acabou aceitando o pedido e fez a devolução, em 2002.

Em agosto do mesmo ano, seus restos mortais foram enterrado em Hankey, província onde Baartman nasceu, 192 anos após ela sair com destino à Europa.

Vários livros já foram publicados sobre a maneira como ela foi tratada e sua transcendência cultural.

"Ela acabou se tornando um molde sobre o qual se desenvolvem múltiplas narrativas de exploração e sofrimento da mulher negra", escreveu Gordon-Chipembere, que acha que, em meio à tudo isso, Baartman, "a mulher, permanece invisível".

Restos mortais foram enterrados em província em que ela nasceu

Em 2010, o filme Black Venus e o documentário The Life and Times of Sara Baartman contaram a história dela. Em 2014, a revista americana Paper botou na capa uma foto da celebridade americana Kim Kardashian balançando um copo de champanhe sobre suas nádegas avantajadas. Vários críticos reclamaram que a imagem lembrava desenhos retratando Baartman.

No ano passado, uma placa no local em que ela está enterrada em Hankey foi vandalizada com tinta branca. Isso ocorreu na mesma semana em que a Universidade da Cidade do Cabo retirou, após protestos, a estátua de Cecil Rhodes, um empresário e político do século 19, que declarou notoriamente que os britânicos seriam "a primeira raça no mundo".


"As pessoas estão resolvendo sobre como querem lidar com essas questões", diz Petley. "Muitas vezes elas foram ocultadas, e chegou a hora de reavaliá-las."



Fonte:


11 janeiro 2016

quinta-feira, 23 de julho de 2026

FAKE NEWS: O DIA EM QUE CHARLIE CHAPLIN PERDEU UM CONCURSO DE SÓSIAS

 

CHARLIE CHAPLIN JÁ PERDEU UM CONCURSO DE SÓSIAS?

Um concurso de sósias em um cinema em Dublin, Irlanda, durante a febre de Chaplin.

A imensa popularidade de Charlie Chaplin em meados da década de 1910 foi apelidada de "Chaplinite" pela imprensa. O crítico de cinema David Robinson descreveu o fenômeno em sua obra definitiva , Chaplin: Sua Vida e Arte :

“Os bailes de máscaras estavam em voga em 1917, mas jornalistas constantemente reclamavam que eles estavam sendo estragados, pois a maioria das moças se vestia de Annette Kellerman, a estrela da natação, e nove em cada dez homens se vestiam de Charlie Chaplin. Em fevereiro de 1917, uma fantasia de Charlie Chaplin foi usada como disfarce por um assaltante em Cincinnati. Quase na mesma época, a Sociedade de Pesquisa Psíquica de Boston investigava 'certos fenômenos relacionados ao anúncio simultâneo do Sr. Charles Chaplin, comediante de cinema, em mais de 800 grandes hotéis dos Estados Unidos'. Esse surpreendente fenômeno psicopatológico teria sido observado em 12 de novembro de 1916 em todo o país, do Atlântico ao Pacífico, e da fronteira canadense ao Golfo do México. O professor Bamfylde More Carew, membro da sociedade e autor do artigo sobre o fenômeno, destacou que Chaplin, com seu 'humor singular', havia se tornado uma obsessão americana e que, entre as mentes jovens e ativas do país, Chaplin era um tema de constante reflexão. …
Havia evidências mais concretas do apelo único de Chaplin no Photo-play News de 3 de março de 1917: várias administrações de cinema relataram que, após duas semanas de exibição de comédias de Chaplin, foi necessário apertar os parafusos das poltronas, pois o público havia rido tanto que a vibração os afrouxara.” (Robinson, 2001, p. 223-224. Obra original publicada em 1985)

Uma fotografia de 1916 de meninos vestidos como Chaplin, publicada em 1936.

A febre Chaplin também trouxe uma onda de produtos licenciados de Charlie Chaplin, partituras, canções – assim como imitadores, filmes falsificados de "Charlie Chaplin" e concursos de sósias.

Um cartão-postal retratando Chaplin enlouquecido por inúmeros imitadores.

Um anúncio de um concurso em Londres.

Segundo recortes de imprensa de 1918 nos Arquivos Chaplin, quando Mary Pickford estava em Londres para um jantar do Anglo Saxon Club, ela contou uma história a Lord Desborough, que a repetiu à imprensa: Charles Chaplin participou de um concurso de imitações de Chaplin em uma feira nos EUA e ficou em 20º lugar.

A primeira menção da história nos Arquivos Chaplin encontra-se em um álbum de recortes de imprensa de 1918.

Essa anedota, contada por Lord Desborough, quem quer que ele tenha sido, foi amplamente divulgada na imprensa britânica da época. Um jornalista observou com precisão em um artigo que essa história "teria vida longa". Diversas versões dessa suposta "história perfeita" foram disseminadas nas décadas de 1920 e 30 e continuam sendo propagadas até hoje, mais de um século depois.

Não há menção anterior à participação de Chaplin em tal competição em nenhum outro álbum de recortes de imprensa nos Arquivos Chaplin, portanto, presume-se que esta seja a fonte original da história.

Um recorte de imprensa de 1920 nos Arquivos Chaplin.

Décadas mais tarde, Charles Chaplin Jr. escreveu em seu livro, Meu Pai, Charlie Chaplin, que seu pai participou de uma competição e ficou em terceiro lugar, não em vigésimo. Ele escreveu que pessoas do mundo todo “iam assistir aos seus filmes. Elas acorriam para vê-lo quando ele viajava. Realizavam inúmeros concursos de imitação do Charlie Chaplin. Meu pai me contou sobre um desses concursos que aconteceu antes de eu nascer. Foi no Teatro Chinês de Grauman, em Hollywood, e havia trinta ou quarenta pessoas no palco fazendo o possível para imitar meu pai. Meu pai era uma delas. Ele subiu incógnito para ver como se sairia. Ele ficou em terceiro lugar. Meu pai sempre achou essa uma das piadas mais engraçadas que se possa imaginar — se sobre ele, sobre os jurados ou sobre ambos, eu não sei.” (Chaplin, 1960, p. 202-203)

Um recorte de jornal de 1931 afirma que Chaplin ganhou o terceiro prêmio em um concurso de sósias.

Cabe ressaltar que o Teatro Chinês de Grauman foi inaugurado em 1927, após o nascimento de Charlie Chaplin Jr. em 1925, e quase uma década depois da primeira menção à participação de Chaplin em um concurso de sósias nos recortes de imprensa de nossos arquivos. Além disso, o relato de Charlie Chaplin Jr. foi escrito décadas depois da suposta realização do concurso.

Sósias japoneses na década de 1930

Em 1966, seis anos após a publicação do livro de Charlie Chaplin Jr., o próprio Chaplin desmentiu a história em uma entrevista com Richard Meryman. Quando questionado sobre outro boato de que teria cometido um erro ao criar seu famoso figurino e maquiagem, cortando um bigode grande "pequeno demais", Chaplin explicou: "Isso não é verdade. Como diz a lenda, participei de uma competição – toda semana havia uma competição para ver quem era o melhor Charlie Chaplin – e ela acontecia na Main Street – com prêmios de 25 dólares, e a lenda diz que eu participei e fiquei em terceiro lugar... Em primeiro lugar", continuou ele, "eu trabalho duro o dia todo. Certamente não quero fazer isso."



Trecho da transcrição da entrevista com Meryman

Parece, portanto, que a “história perfeita” era boa demais para ser verdade.

Sósias de Charlie Chaplin e Jackie Coogan em frente ao Teatro Rialto em Butte, Montana, 1921.



Fonte:


segunda-feira, 20 de julho de 2026

HUMOR: CARTAZES ABSURDOS

CARTAZES ABSURDOS

Sabemos que o analfabetismo funcional carrega um estigma para milhares de brasileiros. Não saber interpretar um texto ou não saber escrever coisas simples constitui um desafio para as políticas educacionais de qualquer governo. E é preciso que tenhamos para com essas pessoas o respeito que olha com olhos de busca de solução e de ajuda, sempre que possível. Portanto, as redações absurdas dos cartazes abaixo não têm o escopo de crítica aos redatores: devemos vê-los como descuido, simples descuido, ou o viés de pessoas que interpretam as palavras de seu jeito e não têm nenhum senso de autocrítica para publicá-las assim:













quinta-feira, 16 de julho de 2026

HUMOR: CARTAZES DIVERTIDOS

Divulgar uma promoção, comunicar algo ao público ou, simplesmente, promover um serviço: usam-se cartazes. Mas, o redatores nem sempre tomam o devido cuidado com amibiguidades ou com o fato de se tornarem divertidos. Eis alguns exemplos:


 





quinta-feira, 9 de julho de 2026

CULINÁRIA: PASTA ASCIUTTA

 PASTA ASCIUTTA: POR QUE SE CHAMA ASSIM?



A pasta asciutta, também conhecida como pastasciutta, sempre esteve presente nas mesas dos italianos. No entanto, muitos não sabem o motivo de esse prato delicioso ser chamado dessa forma. Na verdade, a razão por trás da escolha desse nome é muito simples e deriva justamente do tipo de preparo ao qual essa refeição é submetida.

Origem do termo “pastasciutta”

A pastasciutta ou pasta asciutta é um tipo de preparo típico da culinária italiana, presente em todas as mesas do "Bel Paese" (Belo País) desde sempre. O termo tornou-se de uso comum na Itália no início dos anos 1900, junto com "spaghetti" – antes disso, o termo mais utilizado era simplesmente "maccheroni" (macarrão), como podemos ler em vários documentos históricos.

O motivo pelo qual esse preparo leva esse nome específico é muito simples. A denominação "pastasciutta" (massa seca, em tradução livre) refere-se, de fato, à maneira clássica como nós, italianos, preparamos a massa: cozinhando-a primeiro em água fervente com sal e, depois, eliminando a água com o auxílio de um escorredor de macarrão.

Portanto, se você pensava que a pasta asciutta indicava apenas um prato específico, estava muito enganado. O termo pastasciutta refere-se, na verdade, à maioria dos primeiros pratos italianos à base de massa e indica apenas o preparo inicial. São o molho e/ou as etapas seguintes ao escorrimento que dão nome à refeição.

A história da pasta asciutta

A massa é uma invenção muito antiga, embora chamá-la de "invenção" seja quase pretensioso; seria certamente mais correto referir-se a ela como uma maneira inteligente de aproveitar os recursos naturais para fins de nutrição. Preparos semelhantes à massa remontam a 100 a.C., século em que Horácio e Cícero consumiam habitualmente a "làgana", composta por tiras finas de farinha, sem fermento e cozidas em água (antepassadas da nossa lasanha).

A pasta asciutta e os antigos romanos

As informações históricas sobre o assunto são muito escassas, e volta-se a falar de massa mais de 1000 anos depois, quando em Trabia, na Sicília (perto de Palermo), começa a fabricação de um alimento à base de farinha, em formato de fios, chamado "itryah".

Posteriormente, o nome comum daquilo que hoje chamamos de massa passa a ser "maccheroni". Inicialmente, esse nome era dado aos tipos de massa recheada e, depois, aos nhoques de sêmola. A etimologia desse nome é incerta e pode se referir ao termo grego macaria (mistura de cevada e caldo) ou a macar, que significa alegre, bem-aventurado.

Filippo Tommaso Marinetti (1876–1944) foi um escritor, poeta, editor, ideólogo, jornalista e ativista político italiano. Foi o fundador do movimento futurista, cujo manifesto foi publicado no jornal parisiense Le Figaro, em 20 de fevereiro de 1909.

Em Nápoles, por volta dos anos 1600, a popularidade do maccheroni cresce vertiginosamente e, da mesma forma, começam a surgir várias versões de preparo para ele. Em 1900, o termo maccheroni começa a ser acompanhado e substituído por "pasta, pastasciutta e spaghetti". Em um Manifesto da Cozinha Futurista, Filippo Tommaso Marinetti pede "a abolição da pastasciutta", mas é flagrado logo em seguida comendo-a com gosto em um restaurante.

O molho da pasta asciutta

Para temperar a pastasciutta não existem regras, apenas receitas. É possível, obviamente, seguir simplesmente a própria imaginação – tendo o cuidado de manter o bom gosto nas combinações –, mas não existem molhos objetivamente melhores que outros.

Podemos, no entanto, identificar duas maneiras diferentes de temperar e servir a pastasciutta de forma saudável: como prato único ou como primeiro prato. Se você pretende preparar um prato único, pode abusar de molhos substanciosos de carne, vegetais e peixe. Se, por outro lado, preferir comer também um segundo prato (com carne ou outra proteína), tempere a pastasciutta com um molho leve e simples, como o de tomate.


De acordo com a experiência dos mestres chefs, de qualquer forma, é preferível combinar massas curtas e massas de ovo com molhos delicados como creme de leite, bechamel e molhos cremosos; enquanto a massa longa se expressará melhor temperada com molhos marcantes à base de azeite.

Fonte:

Written by Ufficio stampa

http://blog.pastamaltagliati.it/pasta-asciutta-perche-si-chiama-cosi/

 (Tradução do blog, com ajuda da IA do Google)

domingo, 28 de junho de 2026

ARTES PLÁSTICAS: CAMILLE CLAUDEL, UMA ARTISTA NO PATRIARCADO

CAMILLE CLAUDEL, A PENITÊNCIA DO TALENTO EM UM MUNDO PATRIARCAL

(Camille Claudel - 1884)


“Após se apoderarem da obra realizada ao longo de toda a minha vida, me obrigam a cumprir os anos de prisão que eles tanto mereciam...”, escreve Camille no manicômio quando se cumprem sete anos do que ela chamava de sua “penitência”.

(Camille Claudel, atelier - antes de 1930)

Hoje apresentamos o caso de uma artista mulher que enfrentou as adversidades de uma época, combateu os convencionalismos, a academia, a instituição familiar, sua própria família para converter seu fazer artístico em uma escolha determinante, em um modo de vida: Camille Claudel.

A história da arte segue negando parte de sua vida, ocultando alguns acontecimentos, inclusive questionando sua autoria em suas maiores criações, motivo pelo qual muitas das fontes consultadas se contrapõem.

Camille nasceu em Villeneuve-Sur-Fere, ao norte da França, em 8 de dezembro de 1864.

Desde pequena mostrou interesse e aptidão para a escultura e inclusive brincava com o barro que encontrava nos jardins e esculpia pessoas próximas. Para uma jovem mulher de uma família conservadora era muito difícil o caminho que escolheu tomar: mulher e escultora. Chegou a ter problemas de saúde mental, fez pelo menos um aborto e foi amante do “grande gênio”, Rodin, que por sua vez tinha uma relação estável com Rose Beurte. Assim, batalhou contra sua família para que aceitassem sua vocação artística, já que a escultura não era atividade para as mulheres nessa época e não se encaixava nos bons costumes da sociedade burguesa. Com seu irmão, Paul Claudel, escritor, compartilhava sua sensibilidade pela arte, e foi em quem encontrou apoio. “Uma fronte esplêndida sobre uns magníficos olhos de um azul tão raro que dificilmente se encontra fora das capas dos romances”, descrevia o irmão de Camille em relação ao encanto que lhe provocava a sua beleza.

Em 1881 vão viver em Paris com sua família, que nessa época era a região da boemia, onde confluía uma infinidade de artistas e estudantes de arte. Camille se inscreve na Academia Colarossi e é Alfred Boucher quem consegue com que seja aceita. A academia Colarossi admitia mulheres como estudantes, tal como a Academia Julian. No entanto, a Academia Superior de Belas Artes, que hegemonizava os mandatos acadêmicos sobre o que devia ser exposto como obra e o que não, não admitia mulheres entre suas fileiras de formação.

(August Rodin, 1898)

Em 1883, Camille conhece Auguste Rodin, que já era um escultor de renome. Auguste lhe propôs que trabalhasse em seu ateliê. A partir dali entraram em uma tempestuosa relação, tanto amorosa como profissional, de profunda admiração. “Te beijo as mãos, minha amiga, a ti que me presenteia com prazeres tão elevados, tão ardentes, junto de ti minha alma vive cheia de força e, em sua loucura de amor, o respeito por ti está sempre acima de tudo.” Escrevia Rodin a Camille no começo de uma carta.

A obra de Camille foi muito próxima a de seu professor, trabalhou ao lado dele em muitas de suas obras mais importantes, que depois Rodin assinava sozinho. Essa relaão que os unia tanto no amor como no artístico os fez manter durante cerca de dez anos uma relação conflitiva e cheia de ciúmes.


“Sakountala”


Em 1888 Camille realiza um de seus melhores trabalhos, “Sakountala”, que está baseada em um drama hindu. Le Clos Payen foi a casa que Rodin alugou para que ambos usassem como ateliê. Mas nunca chegou a ser uma casa conjunta, já que Rodin tinha sua companheira Rose, da qual nunca se separou. No ateliê, ambos trabalhavam lado a lado, mas fora do espaço privado Camille era considerada pela sociedade apenas como aluna de Rodin ou sua amante.

 (Camille Claudel - a onda, 1903)

A jovem artista sofreu uma enorme subestimação. Suas obras não eram vendidas, nem recebia encomendas porque circulavam rumores de que suas produções eram feitas por Rodin. Em uma sociedade na qual se glorificava “o gênio masculino criador”, não acreditavam que fosse capaz de criar por si mesma. Suas obras eram extraordinárias, de desempenho técnico igual às de seu mestre e mentor, com uma enorme sensibilidade expressiva, mas era ele que era reconhecido e valorizado. Em um mundo patriarcal e conservador, onde os homens se beneficiavam (e continua sendo assim hoje em dia apesar do avanço na luta pelo fim da opressão às mulheres) dos benefícios desse sistema, demonstrar ter paixão, constância e aptidões artísticas desenvolvidas parecia ser impossível.

Nós, mulheres, sempre temos que fazer um esforço maior e, inclusive no caso de Camille, essa tentativa de virar o jogo e se fazer visível terminou com sua própria vida.

Camille se distancia de Rodin, a situação se complica quando, em 1892, ela engravidou e ele, que não estava disposto a assumir, a convenceu que fizesse um aborto, prometendo, uma vez mais, um casamento que nunca chegaria.

No final de 1898 têm uma ruptura definitiva. Nesse ano Camille realiza o conjunto de esculturas de três figuras, “A idade madura”, no qual se vê ela suplicando a Rodin pelo seu amor, enquanto ele se vai com outra mulher, Rose Beuret. O escultor havia a conhecido no teatro Gobelins enquanto ela trabalhava como costureira. E praticamente se pode dizer que a escravizou; usava-a como modelo, criada, enfermeira e dormia com ela à noite, mas era com Camille que se mostrava na sociedade e com quem compartilhava as viagens.

La Edad Madura


Camille Claudel afirma sua própria identidade criadora, experimenta com cenas intimistas, nas quais capta momentos da vida cotidiana. Em 1905 expõe pela última vez seu trabalho em um salão de Paris. Adoecida, começa a ter os primeiros sintomas de demência e é assediada por problemas econômicos e materiais, já que sua família não a ajudava economicamente. Alguns anos depois, em 1914, morre seu pai, com quem ela tinha uma boa relação e que se negava a interna-la, como queria sua mãe. Nesse mesmo ano, sua mãe, contrariamente aos desejos de seu pai, assina os papéis para interna-la no sanatório Ville Evrard.

(Camille Claudel - la valse)

Lamentavelmente, Camille viveu na mais extrema solidão a última parte de sua vida. Por ordem de sua mãe, que se sentia desonrada, não era permitido que ela recebesse visitas onde estava internada.

(Auguste Rodin par Camille Claudel)

A maior parte de sua obra foi destruída por suas próprias mãos quando passava por profundas crises nervosas, e assim muitas de suas produções foram esquecidas. Morreu em 1943, depois de 30 anos da maior penitência à qual foi condenada: viver dentro do manicômio sozinha, sem amigos, sem sua arte.

 (Camille Claudel - L’Abandon)

Camille sofreu o desprezo por querer ser livre e artista, por não se dedicar ao cuidado dos filhos e das tarefas domésticas, algo impensado para uma mulher nesse momento. Sofreu os duros tormentos de Rodin e de sua própria família. Que mais podia ser uma mulher tão diferente dos estereótipos burgueses dessa época senão uma “louca”? Na Idade Média a teriam queimado em uma fogueira, hoje poderia ser uma das mulher vítimas de feminícidio por não ser propriedade privada de um homem.

(Camille Claudel - a tocadora de flauta, 1905)

Por ser tudo o que foi, e tudo o que hoje podemos saber dela remexendo arduamente os meandros da história oculta: uma grande escultora que enfrentou a sua época com paixão e determinação.

(Camille Claudel - La Valse, 1905)

Suas obras, ironicamente, as que foram reconhecidas e as que tornaram reconhecido o artista de “O Beijo”, hoje se encontram no Museu Rodin.

(Camille Claudel - reflexão profunda, 1898)


Fonte:

Autoras: Natalia Rizzo e Carmela Torres

27 de março de 2015