sábado, 21 de março de 2026

HUMOR: MILLOR FERNANDES E O DIREITO AO FODA-SE

 O DIREITO AO FODA-SE

Millor Fernandes

Os palavrões não nasceram por acaso. São recursos extremamente válidos e criativos para prover nosso vocabulário de expressões que traduzam com a maior fidelidade nossos mais fortes e genuínos sentimentos. É o Povo fazendo sua língua. Como o Latim Vulgar, será esse Português Vulgar que vingará plenamente um dia. Sem que isso signifique a “vulgarização” do idioma, mas apenas sua maior aproximação com a gente simples das ruas e dos escritórios, seus sentimentos, suas emoções, seu jeito, sua índole.



“Pra caralho”, por exemplo. Qual expressão traduz ideia de maior quantidade do que “Pra caralho”? “Pra caralho” tende ao infinito, é quase uma expressão matemática, física. A Via-Láctea tem estrelas pra caralho, o Sol é quente pra caralho, o universo é antigo pra caralho, eu gosto dela pra caralho, entende?

No gênero do “Pra caralho”, mas no caso expressando a mais absoluta negação está o famoso e crescentemente utilizado “Nem fodendo!”. Que nem o “Não, não e não!” e nem tampouco o nada eficaz e já sem nenhuma credibilidade “Não, absolutamente não!” substituem. O “Nem fodendo” é irretorquível, liquida o assunto. Libera-te, com a consciência e o ego tranquilos, para outras atividades de maior interesse em sua vida.


Aquele filho pentelho de 17 anos te atormenta pedindo o carro pra ir surfar no litoral? Não perca tempo nem paciência. Solte logo um definitivo “Huguinho, presta atenção, filho querido, NEM FODENDO!”. O impertinente se manca na hora e vai pro Shopping se encontrar com a turma numa boa e você fecha os olhos e volta a curtir o novo CD do Lupicínio.

Por sua vez, o “porra nenhuma!” Atendeu tão plenamente as situações em que nosso ego exigia não só a definição de uma negação, mas também o justo escárnio contra descarados blefes, que hoje é totalmente impossível imaginar que possamos viver sem ele em nosso cotidiano profissional.


Como comentar a bravata daquele chefe idiota senão com um “é PhD porra nenhuma!”, ou “ele redigiu aquele relatório sozinho porra nenhuma!”. O “porra nenhuma”, como vocês veem, nos provê sensações de incrível bem estar interior. É como se estivéssemos fazendo a tardia e justa denúncia pública de um canalha. São dessa mesma gênese os clássicos “aspone”, “chepone”, “repone” e, mais recentemente, o “prepone” - presidente de porra nenhuma.


Há outros palavrões igualmente clássicos. Pense na sonoridade de um “Puta-que-pariu!”, ou seu correlato “Puta-que-o-pariu!”, falados assim, cadenciadamente, sílaba por sílaba...Diante de uma notícia irritante qualquer um Puta-que-o-pariu! Dito assim te coloca outra vez em seu eixo. Seus neurônios têm o devido tempo e clima para se reorganizar e sacar a atitude que lhe permitirá dar um merecido troco ou o safar de maiores dores de cabeça.


E o que dizer de nosso famoso “vai tomar no cu!”. E sua maravilhosa e reforçadora derivação “vai tomar no olho do seu cu!”. Você já imaginou o bem que alguém faz a si próprio e aos seus quando, passado o limite do suportável, se dirige ao canalha de seu interlocutor e solta: “Chega! Quer saber mesmo de uma coisa? Vai tomar no olho do seu cu! “. Pronto, você retomou as rédeas de sua vida, sua autoestima. Desabotoa a camisa e saia à rua, vento batendo na face, olhar firme, cabeça erguida, um delicioso sorriso de vitória e renovado amor-íntimo nos lábios.


Seria tremendamente injusto, em que pesem ainda inexplicáveis e preconceituosas resistências à sua palavra-raiz, não registrar aqui a expressão de maior poder de definição do PV (Português Vulgar): “ Embucetou!”. E sua derivação mais avassaladora ainda: “Embucetou de vez!”.

Você conhece definição mais exata, pungente e arrasadora para uma situação que atingiu o grau máximo imaginável de ameaçadora complicação? Expressão, inclusive, que uma vez proferida insere seu autor em todo um providencial contexto interior de alerta e autodefesa. Algo assim como o comentário de um vizinho para sua esposa ao sacar que no auge da violenta briga do casal da residência ao lado, chegam de súbito a amante, o filho espúrio e o cunhado bêbado com o resultado do exame de DNA: “Fecha a porta que embucetou de vez!”.


O nível de stress de uma pessoa é inversamente proporcional à quantidade de “foda-se!” que ela fala. Existe algo mais libertário do que o conceito do ”foda-se!”? O "foda-se!” aumenta minha auto-estima, me torna uma pessoa melhor. Reorganiza as coisas. Liberta-me”. Não quer sair comigo? Então foda-se!.” “Vai querer decidir essa merda sozinho(a) mesmo? Então foda-se!” O direito ao “foda-se!” deveria estar assegurado na constituição brasileira. Ou como gostaria de dizer o FHC:

Liberdade, igualdade, fraternidade e foda-se.


quarta-feira, 18 de março de 2026

CITAÇÕES: USE COMO EPÍGRAFE ESTE TEXTO DE WLADIMIR SAFATLE, NELSON DA SILVA JÚNIOR E CHRISTIAN DUNKER

 


.     “Desde seu primeiro “laboratório”, o Chile, o neoliberalismo mostrou-se uma doutrina autoritária, ainda que seu arsenal teórico nem sempre revele isso de maneira explícita. Nos anos 1980, Tatcher e Reagan também impuseram à base da força sua agenda. As consequências da crise de 2008 para o programa neoliberal vigente ainda são de difícil apreensão. Golpes de Estado, enrijecimento das forças repressivas, ascensão de regimes protofascistas ultraliberais e desmonte dos direitos sociais são alguns elementos visíveis até agora. A face autoritária do neoliberalismo realmente existente, para além de todo aparato retórico, aparece macabra no horizonte.” 

– Wladimir Safatle, Nelson da Silva Junior, Christian Dunker (organizadores), in “Neoliberalismo como gestão do sofrimento psíquico”.



domingo, 15 de março de 2026

CINEMA: AS CIDADES DE STEPHEN KING: DERRY

 


Derry é uma cidade do estado do Maine, que se situa ao longo da interestadual 95, ao sul de Dexter e ao oeste de Bangor e Haven, outras duas cidades bem conhecidas pelos leitores de Stephen King. Aparentemente trata-se de uma típica cidade norte-americana interiorana… Possui uma praça central, que rodeada pelo prédio do Palácio da Justiça e por diversas lojas, compõe o centro das atividades e da vida da comunidade. Essas lojinhas locais populares são responsáveis por fornecerem as comodidades cotidianas da vida moderna e as fofocas que alimentam a cidade, assim como boa parte das cidadezinhas interioranas dos EUA que usam o boca-a-boca como combustível. A drogaria do Sr. Norbert Keene, localizada perto da praça, é o lugar onde a maioria dos cidadãos de Derry pegam suas receitas e onde as crianças ganham seus remédios disfarçados de balinha. Há também uma biblioteca pública que fica próxima do centro da cidade, onde ocorreram eventos importantes para a pequena cidade de Derry.

Mapa de Derry

Longe da praça central, Derry possui vários outros marcos famosos, que a maioria das pessoas da cidade conhece e alguns que elas decididamente preferem evitar. Um deles é um lugar conhecido como “Os Sertões” (The Barrens), o lugar onde a água do esgoto da cidade desemboca e que fica localizado no parque memorial de Derry. Derry também possui um observatório de pássaros, uma indústria abandonada, um lixão e um ferro velho.

A entrada para os esgotos de Derry no filme IT, 
Uma Obra Prima do Medo, de 1990

Apesar de aparentemente ser uma cidade comum, Derry possui, atrás de seus quintais com a grama bem aparada e a aparente tranquilidade dos moradores, um passado trágico e uma história que reflete toda a maldade que parece se esconder nas vielas obscuras dessa cidadezinha do interior dos Eua. Em 1741 a população inteira da cidade desapareceu. Algo bem semelhante ao que aconteceu com a Colônia de Roanoke (que hoje é a atual Carolina do Norte), cujos moradores desapareceram misteriosamente em 1587, sem deixar vestígios do que poderia ter acontecido. Mas esse foi só o início dos problemas de Derry. Quase cem anos depois, um morador chamado John Markson matou toda a sua família envenenada, se matando em seguida, comendo um cogumelo tóxico. Quase trinta anos depois, em 1879, um grupo de lenhadores encontraria os restos mortais de outro grupo, cobertos de neve e cortados em pedaços. Em 1906, durante uma caçada tradicional por ovos de páscoa, num domingo ensolarado e aparentemente comum, a velha indústria explodiu, matando cerca de 102 pessoas. Em 1930 a “Mancha Negra”, um clube social local para negros foi completamente destruído durante um incêndio, vitimando dezenas de pessoas. Em 1958 cerca de cento e vinte e sete crianças, entre 3 e 19 anos, foram dadas como desaparecidas na cidade. Em 1985 nove crianças foram assassinadas e o assassino nunca foi preso. Esse também foi o ano do que ficou conhecido como “O grande dilúvio”, uma chuva de vários dias que resultou em milhões de dólares de danos à cidade. Em 1994 a feminista Susan Day foi morta quando um morador de Derry, Ed Deepneay, avançou com um avião contra o Centro Cívico de Derry.

Embora somente aqueles que realmente moram em Derry entendam de verdade a escuridão que cerca a cidade, até mesmo os visitantes possuem uma sensação estranha no ar, quando chegam à cidade. As pessoas que visitam Derry costumam ter a sensação de que “algo não está certo” e até mesmo os moradores de Haven, cidade mais próxima de Derry, relatam que ouvem e veem coisas estranhas nas proximidades da cidade. Além disso, a taxa de homicídios de Derry é seis vezes maior que qualquer outra cidade de tamanho semelhante na Nova Inglaterra, assim como a taxa de desaparecimento de crianças, que fica entre quarenta e sessenta por ano.

DESAPARECIDO: Richie Tozier, 13 anos. 
Data de Nascimento: 07/05/1976. 
Sexo: Masculino. Idade: 13 anos. Altura: 1,54. Peso: 40 Kg.

Um evento que merece um pouco mais de atenção abrange um período relativamente grande de tempo, entre os anos de 1958 e 1985. Em 1958 as crianças de Derry começaram a desaparecer ou serem mortas em um ritmo considerado alarmante pelas autoridades locais. Uma dessas vítimas foi Georgie Denbrough que foi morto enquanto brincava com um barco de papel feito pelo seu irmão, Bill, que provavelmente se salvou por estar de cama naquele dia. Posteriormente, Bill e seis de seus amigos criaram um clube chamado “O Clube dos Perdedores”. Convencidos de que um assassino estava à solta na cidade, eles começaram a tentar rastrear a criatura e acabaram chegando até os esgotos da cidade. O que aconteceu lá ainda permanece um mistério. O que se sabe é que em 1985 as crianças começaram novamente a desaparecer e serem assassinadas. Foi então que Mike Hanlon, o bibliotecário e ex-integrante do Clube dos Perdedores, começou a entrar em contato com seus amigos de infância avisando-os sobre os desaparecimentos e alertando-os sobre a promessa que tinham feito de que voltariam até a cidade para deter o assassino, caso ele voltasse.

O Clube dos Perdedores

Mas essa não foi, nem de longe, a última coisa estranha que aconteceu em Derry. Em 1994 um morador idoso chamado Ralph Roberts (mais detalhes em “Insônia”) começa a enlouquecer devido ao seu problema com a insônia e a perda de sua primeira esposa, Carolyn. Ralph começa a ter visões e acreditava ter desenvolvido um sexto sentido que o permitia enxergar a “aura” das pessoas ao seu redor, inclusive sendo capaz de ver a morte que pairava sobre suas cabeças, no que o próprio Robert descreveu como “um balão preto” flutuando sobre elas. Ralph decide agir quando descobre, graças a seus supostos poderes, que seu vizinho, Ed Deepneau, está planejando um ataque ao Centro Cívico de Derry, onde Susan Day, uma ativista feminista, está discursando.

Em 1998, Mike Noonan, um romancista de sucesso que viveu em Derry, vê sua vida mudar drasticamente quando sua mulher, Jo Noonan, morre em um acidente de carro (ela estava grávida do primeiro filho do casal). Isso faz com que Noonan se torne emocionalmente instável e acabe desenvolvendo o que ele chama de “bloqueio de escritor”, que o impede de fazer aquilo que dava sentido á sua vida; escrever. Ele decide deixar Derry por um tempo e se isolar em sua casa de verão às margens do lago conhecido como Cristal Lake. Durante o período em que se refugiou na casa, Noonan se envolve em uma série de eventos que envolvem o resgate de uma criança e uma batalha pela custódia dela entre a mãe da criança, Mattie Devore, e seu pai adotivo, o milionário Max Devore. Como se não bastasse, Noonan também acreditar que havia começado a receber mensagens de espíritos, um dos quais ele acredita ser sua falecida esposa.

Mike Noonan

Em 2001 Derry mais uma vez foi palco de terríveis acontecimentos. Um grupo de quatro amigos decidiu fazer uma viagem para caçar na floresta, numa espécie de ritual anual do grupo. Os quatro amigos haviam crescido juntos em Derry e tinham compartilhado muitas aventuras pelas ruas e jogando no Barrens. Quando crianças, os quatro tinham também ajudado Douglas “Duddits” Cavell, um garoto com Síndrome de Down que estava sendo assediado por um valentão local. Como resultado, Duddits acaba se tornando, meio que por acidente, o quinto membro do grupo de amigos. Muitos anos se passaram, mas eles permaneceram amigos pelo resto de suas vidas, até o dia do fatídico acampamento. Ao chegarem na cabana eles receberam a visita de um misterioso caçador chamado Richard McCarthy, que foi recepcionado por Jonesy, enquanto os outros tinham saído para buscar mantimentos. McCarthy estava sofrendo de uma doença desconhecida e acabou morrendo. Após uma série de eventos, eles descobriram que os militares tinham decretado quarentena nos arredores de Derry, devido a queda do que eles acreditavam ser uma nave alienígena. Para sobreviver eles chamaram seu amigo de infância Duddits para ajudar a recuperar a conexão psíquica que eles cinco tinham compartilhado no passado e que se perdera com o decorrer do tempo (para mais informações consulte o livro “O Apanhador de Sonhos”).

Em 2011 Derry voltaria ser palco de estranhos acontecimentos, quando o Jake Epping, conhecido como George Amberson, descobriu uma característica única na cidade, uma espécie de “falha” que permitia que uma pessoa com coragem suficiente voltasse no tempo. Com o incentivo do homem que o apresentou à “falha”, Al Templeton (dono do restaurante onde fica a passagem), Jake volta ao passado com uma missão; evitar o assassinato de Kennedy e salvar o futuro (mais informações sobre esses acontecimentos podem ser encontradas no livro “Novembro de 63”).

Jake Epping

Curiosidades

Stephen King já deixou claro, várias vezes, que a cidade que o inspirou a criar Derry foi Bangor, uma cidade real que fica no Maine, no Condado de Penobscot e que foi fundada em fevereiro de 1834. Resumidamente, Derry é a maneira peculiar como Stephen King enxerga Bangor.

É lá, inclusive, que Stephen King possui sua mansão mais conhecida, a famosa casa com morcegos guardando os portões:

Casa de Stephen King na 47 West Broadway em Bangor, Maine

A primeira vez em que Derry apareceu nas histórias de King foi no conto “The Bird and the Album”, voltando a aparecer em seguida no livro “IT A Coisa”, onde teve seus alicerces definitivamente enraizados. Os interlúdios do livro mostram um pouco mais sobre a origem e o passado da cidade. Este livro foi inspirado no clássico conto de fadas norueguês “The Three Billy Goats Gruff”.

Ao lado de Castle Rock e Jerusalem’s Lot, Derry completa a tríade cidades fictícias mais famosas criadas por Stephen King. O autor criou várias outras cidades, porém nenhuma delas foi tão explorada quanto estas três que King já assumiu serem uma homenagens ao uso que o autor H.P. Lovecraft (uma das inspirações de King) fez de Arkham, Dunwich e Innsmouth, três cidades fictícias do estado de Massachusetts, criadas por ele.

Derry também é mencionada no livro “One on One” da esposa de Steve, Tabitha King, em um posfácio onde ela agradece “a um outro autor” por permiti-la usar o nome da cidade.

Na Minissérie de televisão “Haven”, vaga adaptação do romance “The Colorado Kid” (inédito no Brasil), a cidade é mencionada.

No romance NOSFA2, do filho de Steve, Joe Hill, Derry foi incluída em um mapa na lista de locais sobrenaturais.

No seriado “Criminal Minds”, no episódio “Mr. Scratch”, de abril de 2015, Derry é mencionada como a cena de um crime anterior.

No quarto episódio da 14º temporada de “Love Boat”, série do canal NCIS, Derry foi mencionada como a cidade natal de um dos personagens não-regulares.

Alguns moradores de Derry:

William “Stuttering Bill” Denbrough
George Denbrough
Mike Hanlon
William Hanlon
Benjamin Hanscom
Eddie Kaspbrak
Beverly Marsh
Alvin Marsh
Richie Tozier
Stan Uris
Henry Bowers
Victor Criss
Reginald “Belch” Huggins
Patrick Hockstetter
Eddie Corcoran
Peter Gordon
Moose Sadler
Gard Jagermeyer
Richard “Dick” Halloran
Jim Sullivan
Norbert Keene

Derry foi palco dos livros “IT A Coisa”, “Insônia”, “Saco de Ossos”, “O Apanhador de Sonhos” e “Novembro de 63”. Também apareceu no conto “Extensão Curta” do livro “Escuridão Total Sem Estrelas”. Várias outras histórias de Steve se referem de alguma forma à cidade, são elas:

O Corpo (conto do livro “Quatro Estações”)
O Concorrente (escrito sob o pseudônimo de Richard Bachman)
O Cemitério
O Caminhão do Tio Otto (conto do livro “Tripulação de Esqueletos”)
O Atalho da Sra Todd (conto do livro “Tripulação de Esqueletos”)
Os Estranhos
O Piloto da Noite
Janela Secreta, Jardim Secreto (conto do livro “Depois da Meia Noite”)
Trocas Macabras
Sala de Autopsia Quatro (conto do livro “Tudo é Eventual”)
O Vírus da Estrada vai para o norte (conto do livro “Tudo é Eventual”)
Hearts in Atlantis (livro inédito no Brasil)
A Torre Negra VII: A Torre Negra
A História de Lisey
Sob a Redoma



Fonte:

Autor: Edilton Nunes

Professor de Língua Portuguesa e Literatura, graduado em Letras pela UEG (Universidade Estadual de Goiás), pós-graduado em arte/educação pela UFG, viciado em literatura de terror/suspense, amante incondicional de séries e Hq´s e fã de carteirinha do mestre Stephen King desde 1996.

quinta-feira, 12 de março de 2026

CITAÇÕES: USE COMO EPÍGRAFE ESTA FRASE DE UMBERTO ECO

 


  “Nenhum verdadeiro cafajeste se assemelha a um cafajeste”. 

- Umberto Eco, in “O cemitério de Praga; tradução de Joana Angélica Dávila.

segunda-feira, 9 de março de 2026

HISTÓRIA: AS BARRICADAS DE PARIS

AS BARRICADAS DE PARIS

(texto da IA do google)

Horace Vernet - Barricade Rue Soufflot -24 de junho de 1848

As barricadas de Paris são símbolos históricos de insurreição popular e luta urbana, erguidas com paralelepípedos, móveis e carroças (barricas) para proteger insurgentes contra forças estatais. Desde o século XVI, destacando-se em 1830, 1848, na Comuna de Paris (1871) e maio de 1968, representam a resistência popular, a luta de classes e a reinvindicação do direito à cidade.

1588 - O Primeiro Dia das Barricadas: Em 12 de maio, parisienses católicos bloquearam ruas contra Henrique III, utilizando barricas (tonéis) para conter as tropas reais.

1830 - Três Gloriosos: Cerca de 4 mil barricadas foram levantadas, derrubando Carlos X e consolidando o poder da burguesia.

1848 - Primavera dos Povos: Revolta operária e socialista contra a crise econômica e a monarquia de Luís Filipe, com barricadas cobrindo a cidade.

Andre Devambez - Barricade; the Paris commune: may 1871


1871 - Comuna de Paris: Movimento popular de camadas baixas contra a crise social, levantando barricadas entre 18 de março e 21 de maio, resultando em intensa repressão.

1968 - Maio Francês: Estudantes e trabalhadores ergueram barricadas, especialmente em 10-11 de maio, usando paralelepípedos, simbolizando a revolta contra a sociedade de consumo.

Significado Cultural: Mais que obstáculos militares, as barricadas representam um espaço de fraternização e disputa contra a ordem estabelecida, muitas vezes imortalizadas na arte e fotografia.

Esses movimentos refletem um descontentamento contínuo com desigualdade social, alto custo de vida e falta de representatividade, tácticas que continuam influenciando protestos modernos.


A PRIMEIRA FOTO DE UMA BARRICADA

 Rue du Faubourg du Temple na manhã de domingo 
 25 de junho de 1848 

Paris ocupa um lugar especial na história da fotografia e, de forma mais geral, na história das artes visuais. Foi na capital que se tirou a primeira fotografia de um ser humano (1838) e, também lá, ocorreu a primeira exibição pública de cinema (1895). Entre essas duas datas marcantes, um jovem fotógrafo fez história ao tirar a primeira fotografia de uma barricada.

A revolução de 1848

Em fevereiro de 1848, a terceira – e última – revolução francesa pôs fim à monarquia. O rei Luís Filipe abdicou e a Segunda República foi proclamada em 24 de fevereiro. Mas Paris permaneceu uma capital turbulenta, profundamente marcada pelas crescentes desigualdades geradas pela Revolução Industrial. Em junho de 1848, uma nova revolta operária eclodiu após a decisão do governo de fechar as Oficinas Nacionais, uma organização estatal que deveria fornecer trabalho aos desempregados.

O Faubourg-du-Temple, onde operários, camponeses e trabalhadores estrangeiros buscavam fortuna nas novas indústrias, foi um dos bastiões dessa revolta. Dezenas de barricadas foram erguidas no bairro, incluindo as que podemos ver na foto: a primeira no cruzamento da rua Saint-Maur e a segunda perto do cruzamento da rua Bichat. Esses "Dias de Junho" (de 22 a 26 de junho de 1848) foram duramente reprimidos, e a jovem República não hesitou em fuzilar seus oponentes. Entre os milhares de mortos (cerca de 6.000), uma centena, ou até mais, eram moradores do Faubourg-du-Temple.

É um instantâneo desses eventos que esta fotografia nos oferece, de excepcional valor histórico, cuja história completa conhecemos hoje graças ao notável trabalho do sociólogo da história Olivier Ilh (La Barricade reversed, history of a photograph, Paris 1848, Editions du Croquant, 2016).

A primeira foto de uma barricada insurrecional

Esta foto foi tirada por um jovem fotógrafo chamado Charles-François Thibault, no número 92 da atual rue du Faubourg-du-Temple, na manhã de domingo, 25 de junho de 1848. A insurreição está chegando ao fim, e apenas as últimas defesas dos bairros operários da zona leste de Paris resistem.

 Rue du Faubourg du Temple na manhã de domingo 
 25 de junho de 1848 

Thibault utilizou seu daguerreótipo duas vezes, provavelmente entre 7h e 8h da manhã. O daguerreótipo era um processo fotográfico primitivo que fixava a imagem em uma placa de metal. Essas duas fotografias estão em museus parisienses: a primeira no Museu Carnavalet e a segunda (imagem em destaque) no Museu d'Orsay. Nela, destaca-se uma bandeira hasteada no eixo de uma roda da primeira barricada (que, segundo as pesquisas de Olivier, trazia a inscrição "República Democrática e Social"), além de silhuetas de pessoas de costas.

Estas são as primeiras imagens que mostram uma insurreição e barricadas completas. Esta cena é também considerada a primeira ilustração fotográfica de uma reportagem jornalística, visto que foi publicada alguns dias depois em forma de gravura (na época não era possível reproduzir diretamente o daguerreótipo em um documento impresso) no jornal L'Illustration, com a legenda "A barricada na rua Saint-Maur Popincourt na manhã de domingo, a partir de uma placa daguerreotipada por M. Thibault".

Em 26 de junho, ao amanhecer, as tropas do General Lamoricière lançaram o ataque final. Thibault também imortalizou esse momento. A revolta havia terminado.

Rue du Faubourg du Temple na manhã de domingo 
 25 de junho de 1848 2



Fonte:

sexta-feira, 6 de março de 2026

CITAÇÕES: USE COMO EPÍGRAFE ESTA FRASE DE BEATRICE SALVIANE

 


     "Per pinina cha la sia, la supresa el diavul in furbaria" 

 "Por menor que seja a pena, a surpresa é o diabo na esperteza"*) 

in “A malnascida”, de Beatrice Salviane; tradução do livro: Ana Cláudia Santos. 


(*Tradução do chat GPT. Outras informações do chat GPT: O texto parece estar em um dialeto da Lombardia, possivelmente brianzolo, falado na região de Monza e arredores. A frase, dentro do contexto do livro A Malnascida, de Beatrice Salviane, que se passa em Monza em 1936, pode refletir um ditado popular ou uma expressão regional usada na época. Se traduzirmos de maneira mais livre, algo como "Por menor que seja a pena, a surpresa é o diabo na esperteza" sugere um tom de advertência, possivelmente ligado a astúcia, armadilhas ou reviravoltas inesperadas – algo que pode ter peso na narrativa do livro. O fato de a história se passar em 1936, durante o período fascista na Itália, pode dar um significado ainda mais profundo à frase, talvez sugerindo a imprevisibilidade dos tempos, a malícia escondida em situações aparentemente inofensivas ou a ideia de que o perigo pode surgir de onde menos se espera.)

terça-feira, 3 de março de 2026

AILUROFILIA: LÁPIDE CONTA A HISTÓRIA EMOCIONANTE DE ROOM 8, UM GATO ESCOLAR

‘SALA 8’, COMO ERA CHAMADO, MARCOU SUA HISTÓRIA AO APARECER EM UMA SALA DE AULA ALEATÓRIA EM 1952


A incrível história de um gato chamado Room 8

Em meio ao gramado do Los Angeles Pet Memorial Park em Calabasas, Califórnia, Estados Unidos, está uma curiosa lápide de um gato chamado Room 8 (Sala 8, em tradução livre). Ao observar mais de perto, se nota que se trata de muito mais do que apenas uma lápide comum dedicada a um gatinho de estimação.

Em uma manhã de 1952, um gato entrou em uma sala de aula da Escola Primária Elysian Heights em Echo Park, Califórnia. O felino rapidamente se tornou amigo dos alunos e professores e decidiu ficar pelo local durante um tempo. Ele recebeu o nome de “Room 8” em homenagem à sua sala de aula favorita na escola, e não demorou muito para que todos na escola o conhecessem.

Room 8, o gato, entre estudantes de escola primária na década de 1950. 
Foto: Reprodução/Los Angeles Historic

Room 8 morava na escola durante todo o ano letivo, então durante o verão ele desaparecia. Todos os anos, como um relógio, ele voltava no primeiro dia de aula, pronto para fazer companhia aos seus amigos estudantes. Equipes de imprensa apareciam para filmar o gato voltando todo mês de setembro (data em que se inicia o ano letivo nos EUA), e ele se tornou conhecido em todo o país, recebendo cerca de 100 cartas de fãs todos os dias.

3-1-1962: uma soneca ao lado dos estudantes 
enquanto desenham em Elysian Heights

“Eu frequentei esta escola primária e o Room 8 costumava dormir em nossas carteiras”, escreveu Hiroshi Omori em um post sobre o gato no Facebook. “Costumávamos responder às cartas dos fãs do Room 8.”

O gato ficou tão famoso que apareceu em um documentário, em uma sessão de fotos para uma revista e até teve um livro infantil escrito sobre ele. Quando ele entrou na escola naquele dia em 1952, ele encontrou uma verdadeira família e todos se certificaram de que o mundo inteiro o amasse tanto quanto eles.

À medida que o gato escolar envelhecia, uma família que morava perto da escola se ofereceu para acolhê-lo. Mesmo adotado por uma nova família, o gato continuou visitando seus amigos diariamente na escola e o zelador o carregava de volta para o outro lado da rua ao final das aulas.


Room 8 morreu em 1968, aos 21 anos. Mas ele nunca foi esquecido. Há um mural dedicado a ele na escola onde morava, e os professores de lá leem seu livro a cada nova turma que passa. Também há mensagens escritas para ele em concreto do lado de fora da escola. Ele ainda tem um abrigo de resgate de animais em sua homenagem, chamado “ Room 8 Memorial Cat Foundation ”.

Uma publicação dedicada a ele no Facebook diz: “ Room 8 foi um gato da vizinhança que vagou em uma sala de aula em 1952 na Elysian Heights Elementary School em Echo Park, Califórnia. Ele morou na escola durante o ano letivo e depois desapareceu no verão, retornando quando as aulas recomeçaram. Esse padrão continuou ininterruptamente até meados da década de 1960.


As câmeras de notícias chegavam à escola no início do ano esperando o retorno do gato; Tornou-se famoso e recebia até 100 cartas por dia endereçadas a ele na escola. Eventualmente, ele foi apresentado em um documentário chamado ‘Big Cat, Little Cat’ e um livro infantil, ‘A Cat Called Room 8’. A revista Look publicou uma reportagem de três páginas sobre o Room 8 do fotógrafo Richard Hewett em novembro de 1962, intitulada "Room 8: The School Cat". Leo Kottke escreveu um instrumental chamado "Room 8" que foi incluído em seu álbum de 1971, Mudlark.

Quando ele ficou mais velho, o Room 8 foi ferido em uma briga de gatos e sofreu de pneumonia felina, então uma família perto da escola se ofereceu para recebê-lo. O zelador da escola o encontrava no final do dia escolar e o levava para o outro lado da rua.


Seu obituário no Los Angeles Times rivalizava com o de grandes figuras políticas, com três colunas com uma fotografia. O gato era tão famoso que seu obituário corria em jornais tão distantes quanto Hartford, Connecticut. Os alunos arrecadaram os fundos para sua lápide. Ele está enterrado no Los Angeles Pet Memorial Park em Calabasas, Califórnia. ”



FONTE:

Canal do Pet


01/05/2023

sábado, 28 de fevereiro de 2026

CITAÇÕES: USE COMO EPÍGRAFE ESTA FRASE DE ALBERTO MANGUEL

 


Olhamos para as telas de nossas engenhocas eletrônicas com a intensidade e a constância com que Narciso olha para o espelho d’água, esperando sermos restaurados ou afirmados em nossa identidade não pelo mundo a nossa volta, não nos processos de nosso mundo interior, mas por meio da quase sempre inane mensagem de outros que, virtualmente, reconhecem nossa existência e cuja existência nós virtualmente reconhecemos. 

– Alberto Manguel, in “Uma história natural da curiosidade”; tradução de Paulo Geiger.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

ARTES PLÁSTICAS: EXPRESSIONISMO

 

EXPRESSIONISMO

(August Macke - landscape with cows and a camel)


O expressionismo foi um movimento cultural surgido na Alemanha no inicio do século XX, alcançou seu auge entre 1910 e 1920 e manifestou-se nas artes plásticas, literatura, música, teatro e cinema.

Este movimento artístico caracterizou-se pela expressão de intensas emoções. As obras não têm preocupação com o padrão de beleza tradicional e exibem enfoque pessimista da vida, marcado por angústia, dor, inadequação do artista diante da realidade e, muitas vezes, necessidade de denunciar problemas sociais.

(Edvard Munch, 1893, The Scream)


Os expressionistas defendiam uma arte mais pessoal e intuitiva, onde predominasse a visão interior do artista – a "expressão".

Em um conceito mais amplo, a palavra “expressionismo” se refere a qualquer manifestação subjetiva e psicológica da criação humana.

Artes Plásticas

(Vincent van Gogh - The Sower)

O principal precursor do movimento é o pintor holandês Vincent van Gogh, criador de obras de pinceladas marcadas, cores fortes, traços expressivos, formas contorcidas e dramáticas. Em 1911, numa referência de um crítico à sua obra, o movimento ganha o nome de expressionismo.

As principais características são distanciamento da pintura acadêmica, ruptura com a ilusão de tridimensionalidade, resgate das artes primitivas e uso de cores fortes. Muitas obras possuem textura áspera devido à grande quantidade de tinta nas telas. Com a intenção de captar estados mentais, vários quadros exibem personagens deformados.

(Emil Nolde - landscape)

O expressionismo vive seu auge a partir da fundação de dois grupos alemães: Os artistas do primeiro grupo, como os alemães Ernst Kirchner e Emil Nold, são mais agressivos e politizados. Os do segundo grupo, entre eles o russo Vassíli Kandínski, o alemão August Macke e o suíço Paul Klee voltam-se para a espiritualidade.

Cinema

(O Gabinete do Dr. Caligari (Robert Wiene, 1920)


Os filmes produzidos na Alemanha após a I Guerra Mundial são sombrios e pessimistas, com cenários fantasmagóricos, exagero na interpretação dos atores e nos contrastes de luz e sombra.

O nazismo, que domina a Alemanha a partir de 1933, acaba com o cinema expressionista.

Teatro

(As Massas e o Homem, de Ernst Toller, com direção de Diana Ramos)

Observa-se tendência para o extremo e o exagero, as peças defendem as transformações sociais.

Expressionismo no Brasil

(Anita Malfatti - o homem amarelo)


Nas artes plásticas, os artistas mais importantes são Cândido Portinari (que retrata o êxodo do Nordeste), Anita Malfatti, Lasar Segall. No teatro, a obra de Nelson Rodrigues tem características expressionistas.



Fonte:


domingo, 22 de fevereiro de 2026

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

CINEMA: BACURAU

 



BACURAU


No filme Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles (2019), [...] o tratamento da agressividade é ilustrado em diferentes formas de pacto social. A cidade de Bacurau representa assim comunidades humanas locais, sem valor produtivo, que só entram no mapa neoliberal como alvos de pilhagem. As formas de expressão da agressividade sem álibi segundo as formas de pacto social que a metabolizam, a saber, o local comunitário, e o global, neoliberal, podem ser lidas nos diferentes regimes de visibilidade pelos quais a agressividade é tematizada no filme.

Foto: Udo Kier

Por exemplo, a agressividade dos norte-americanos e do coordenador alemão do safári humano a ser realizado em Bacurau é transmitida por câmeras em drones, dispositivos que podem ir a qualquer lugar e mostrar a destruição para a tela do espectador, enquanto este permanece bem fixado em seu ponto de vista, apesar da extrema mobilidade das perspectivas que tem à mão. Metáfora de uma visibilidade que poupa o espectador de se colocar no lugar do outro, sendo assim possível matá-lo com a consciência tranquila, sem empatia nem pudor diante de seu olhar. Não é um acaso que essa forma de visibilidade seja a forma geral do olhar em nosso tempo, olhar em perfeita continuidade com a ideia de liberdade neoliberal como autonomia sem submissão moral à lei, cuja obediência se reduz ao cálculo entre os benefícios da transgressão e os riscos da exposição. O filme mostra a fraqueza dessa forma de pacto social contratual em dois momentos. No primeiro, quando os sulistas brasileiros evocam sua semelhança com os norte-americanos: “O sul do país é rico, industrializado, dizem. Somos iguais a vocês, brancos, descendentes de italianos, alemães”. A resposta a essa demanda de reconhecimento que o colonizado faz ao colonizador é simplesmente uma gargalhada e uma rajada de tiros. O segundo momento que mostra a fragilidade desse pacto social se passa entre o próprio grupo dos participantes norte-americanos e o líder e organizador alemão do safári humano. Não encontrando ninguém de Bacurau em sua mira, o líder começa atirando num cachorro e depois passa a alvejar seus próprios clientes. Quando todos estes estão mortos, e nada mais tendo para matar, resolve enfiar o cano da arma em sua própria boca. Ilustração da lógica da pulsão de morte em ação livre, resumível na equação simples: ou eu te mato, ou eu me mato.


Temos também um tratamento da agressividade como experiência catártica, presente na repetição dos 10 mais do personagem Pacote. Nessa experiência, incessantemente repetida pela mídia local, a saber, a grande tela ambulante da camionete que circula pela cidade e os celulares, o povo de Bacurau submerge em horas mortas. Retrato da absorção hipnótica do homem comum pela indústria cultural no cinema, na televisão, nas telas de computador e nos celulares e metáfora da imobilização política do espectador, através da exposição repetida da violência sobre os corpos.


Finalmente, é importante lembrar que temos, do início ao fim do filme, a presença do museu de Bacurau, espaço que mostra e lembra àquela comunidade o seu próprio passado. Museu que mantém na lembrança a violência do cangaço. Pelo museu, esse tempo é narrado e rememorado, mas não revivido. Nesse sentido, uma das cenas mais importantes no lme é aquela em que a mulher encarregada da limpeza do museu, após a chacina, diz à sua ajudante: “Limpe o chão, mas deixe as marcas de sangue nas paredes”. Forma de inscrever na história a barbárie presente ao lado das barbáries do passado e assim lembrar que ela sempre estará ali onde estivermos. Barbárie que, inscrita, localiza cada visitante do museu como seu possível autor. Estratégia análoga àquela dos vidros que Francis Bacon colocou sobre algumas de suas telas mais fortes: com o seu reflexo, tais vidros mostram o gozo que as imagens de corpos deformados produzem no olhar do próprio espectador. Talvez assim ele recupere seu pudor.

Francis Bacon - study for a portrait - 1952


FONTE:

BACURAU. Direção: Kleber Mendonça Filho, Juliano Dornelles. Brasil; França, 2019. 2h10min.

Wladimir Safatle, Nelson da Silva Junior, Christian Dunker (organizadores), in “Neoliberalismo como gestão do sofrimento psíquico”.