quinta-feira, 2 de abril de 2026

FEMINISMO: HEDY LAMARR, ESTRELA DE HOLLYWOOD E CIENTISTA

 A INCRÍVEL HISTÓRIA DE HEDY LAMARR, A ESTRELA DE HOLLYWOOD QUE AJUDOU A INVENTAR O WI-FI E O BLUETHOOH


Bob Cranston e Hedy Lamarr trabalharam juntos no estúdio One and Three Color 
em 1940.  Lamarr era uma estrela em Hollywood na década de 1940
 e, simultaneamente, inventou a tecnologia de salto de frequência. 
Foto de NY Daily News Archive via Getty Images

Todos os anos, no dia 11 de fevereiro, é celebrado o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, data instituída em 2015, pela ONU (Organização das Nações Unidas) que visa destacar a necessidade de igualdade de gênero em diversas áreas da Ciência, como tecnologia, engenharia, biologia, matemática, entre outras.

Para comemorar essa data, e ressaltar a importância da presença feminina no universo científico, a National Geographic apresenta a história de uma mulher genial que teve ideias essenciais na década de 1940 para o futuro desenvolvimento tecnológico e não teve seu reconhecimento na época: Hedy Lamarr.

Enquanto o mundo caminhava para a catastrófica Segunda Guerra Mundial, a atriz que já era uma lenda do cinema, Hedy Lamarr, posava para fotos publicitárias e interpretava femmes fatales nas telas. Mas seu trabalho principal nem sempre era a prioridade da atriz, que foi um dos maiores nomes da Era de Ouro de Hollywood.

Lamarr era um gênio da tecnologia e, enquanto conquistava o coração de Hollywood na década de 1940, estava ao mesmo tempo ocupada idealizando uma invenção que esperava que pudesse ajudar sua nação adotiva, os Estados Unidos, a manter a Alemanha nazista sob controle.

A ideia de Lamarr era criar uma maneira simples, porém engenhosa, de impedir que navios de guerra do Eixo interferissem nas comunicações secretas dos Aliados — uma ideia tão boa que se tornou a base das telecomunicações modernas, conhecidas como Wi-Fi e GPS.

Mas o trabalho de Lamarr nos bastidores como inventora foi ofuscado tanto pelo glamour de Hollywood quanto pelos preconceitos de gênero da época, que muitos defendiam a incompatibilidade entre beleza e inteligência. Eis por que Lamarr era muito mais do que um rosto bonito — e como sua invenção do salto de frequência mudou o cotidiano para sempre.

Quem foi Hedy Lamarr?

Hedwig "Hedy" Kiesler nasceu em 9 de novembro de 1914, em Viena, na Áustria. Era filha de pais de ascendência judaica, embora sua mãe tenha se convertido ao cristianismo. Conhecida na época como Áustria-Hungria, a região era assolada pelo antissemitismo no início do século 20.

Historiadores observam que Lamarr manteve sua identidade judaica em segredo durante toda a vida, chegando a esconder sua herança judaica até mesmo de seus próprios filhos.

Filha de pais ricos, ela cresceu em uma sociedade privilegiada e frequentou escolas particulares junto com outras crianças abastadas. Era uma aluna curiosa, com já demonstrava talento para ciências e engenharia, mas esperava-se que ela se conformasse aos ideais femininos da época e priorizasse o romance e a família em detrimento da carreira. Lamarr era valorizada mais por sua aparência física do que por sua inteligência, ela se voltou para a atuação e estreou no cinema na Áustria em 1930.

Os primeiros papéis da jovem estrela a rotularam como uma "beleza vienense inocente, porém sedutora", escreve a historiadora Ruth Barton. Logo, a atriz iniciante se mudou para Berlim em busca de maior reconhecimento entre o público de língua alemã. Lá, fez aulas de atuação e conseguiu o papel principal no filme “Êxtase” (1933), um filme ousado dirigido por Gustav Machatý.

O filme imediatamente ganhou notoriedade como uma obra-prima erótica, chamando a atenção com suas representações de nudez e prazer sexual. Isso a catapultou para a fama instantânea, que ela transformou em uma carreira teatral e em um casamento com o rico negociante de armas Fritz Mandl em 1933.

O status de Mandl como um negociante de armas de confiança para fascistas italianos e alemães garantia à sua esposa uma vida social luxuosa. Mas ele era ciumento, possessivo e não tinha vergonha de seus laços estreitos com o fascismo. Os vastos negócios de armas de Mandl colocaram sua esposa em uma proximidade desconfortável com antissemitas, nazistas e fascistas.

Embora a esposa relutante se sentisse cada vez mais presa em seu relacionamento, ela gostava de acompanhar o marido em encontros com algumas das maiores mentes científicas e tecnológicas da Europa. Só que, por fim, ela fugiu do casamento — e, em 1937, também fugiu da Europa, onde o antissemitismo estava em ascensão.

Quando Hedy soube que o magnata do cinema Louis B. Mayer estava a caminho dos Estados Unidos em um transatlântico após suas férias, ela decidiu de última hora reservar uma passagem para o mesmo navio. A bordo, ela conseguiu conhecer e cativar Mayer, cujo estúdio MGM estava atingindo o auge de produtividade, popularidade e lucratividade. Juntos, eles idealizaram uma nova identidade sob medida para as lentes das câmeras: Hedy Lamarr, uma estrela da MGM bela, porém distante.

Com a ajuda de uma transformação a bordo e muita publicidade, a atriz Hedy Lamarr tornou-se uma sensação imediata ao chegar a Nova York, nos Estados Unidos.

O arquivo de patente do Sistema Secreto de Comunicação 
criado por Hedy Lamarr e George Antheil. 
Foto de Reprodução/Arquivos Nacionais dos EUA


Hedwig Eva Maria Kiesler, conhecida como Hedy Lamarr,
 foi uma famosa atriz e inventora de Hollywood. 
Juntamente com o pianista e compositor George Antheil, 
ela desenvolveu o Sistema Secreto de Comunicação, 
uma invenção que estabeleceu a base para tecnologias 
como Bluetooth e Wi-Fi. 
Foto de UCLA Charles E. Young Research Library Department of Special Collections (CC BY 4.0)

O que Hedy Lamarr inventou?

Em 1938, o papel que alçou Lamarr ao estrelato em "Argel" a transformou em uma estrela de verdade no cinema, e ela passou a interpretar mulheres sedutoras em filmes como "A Dama dos Trópicos", "Boomtown" e "Ziegfeld Girl". Embora sua beleza cativasse o público, sua inteligência — e genialidade tecnológica — permaneciam estritamente nos bastidores.

Naquela época, a Segunda Guerra Mundial havia começado, e Lamarr considerava abandonar a carreira de atriz e oferecer suas habilidades tecnológicas aos Estados Unidos para ajudar no esforço de guerra. Seu conhecimento privilegiado sobre armamentos, adquirido ao observar seu ex-marido e seus clientes, também era inestimável.

Embora os Estados Unidos ainda não tivessem entrado na guerra, já forneciam suprimentos aos Aliados por via marítima, e tanto embarcações mercantes quanto militares enfrentavam ameaças constantes de torpedos alemães.

Lamarr estava a par das últimas novidades em tecnologia de torpedos europeia graças ao convívio com os clientes de seu ex-marido. Ela estava pensando em uma maneira de os navios Aliados impedirem que seus torpedos controlados por rádio fossem sabotados por navios alemães, que frequentemente interferiam com sucesso nos sinais de rádio Aliados e tornavam os torpedos inúteis.

E se, em vez disso, os torpedos e os operadores se comunicassem em mais de um sinal, "pulando" juntos para outra frequência com frequência para escapar dos bloqueadores alemães?

Em 1940, ela conheceu George Antheil, um compositor modernista apaixonado por tecnologia. Ele percebeu imediatamente que estava falando com a mulher mais inteligente da sala, como recordou em suas memórias de 1945. "Hedy é muito, muito inteligente", escreveu ele. "Comparada com a maioria das atrizes que conhecemos, Hedy é uma gigante intelectual."

Quando Lamarr contou a Antheil sobre sua teoria de "salto de frequência", ele ficou intrigado e conseguiu construir um protótipo do tipo de tecnologia que ela idealizava. Ele era mais conhecido por obras que apresentavam pianos mecânicos sincronizados com sinos, sirenes, hélices de avião e outros sons estrondosos — composições que quase causaram um tumulto durante sua estreia no Carnegie Hall em 1930.

Antheil ajudou a conceber uma invenção inspirada em pianos mecânicos que utilizava mecanismos de relojoaria e bobinas de pianola para alternar simultaneamente entre o operador e o receptor para uma frequência diferente.

Inspirados por relatos de crescentes baixas no Atlântico, eles decidiram submeter sua ideia ao recém-fundado Conselho Nacional de Inventores (National Inventors Council), um programa público-privado de aceleração criado para impulsionar invenções que pudessem contribuir para o esforço de guerra. Em 1942, receberam uma patente para seu "Sistema de Comunicações Secretas" — cujos direitos concederam à Marinha dos Estados Unidos.

O conceito fracassou "em grande parte porque a invenção estava muito além das capacidades técnicas da época", escreveu a historiadora Lisa A. Marovich no livro "Business and Economic History" em 1998. Por fim, a Marinha decidiu não prosseguir com o dispositivo, uma rejeição que Antheil sempre atribuiu à menção a pianos mecânicos na patente.

Acontece que a ideia era tecnicamente sólida — apenas décadas à frente de seu tempo.

O conceito de alta tecnologia de Hedy Lamarr

Lamarr continuou sua carreira cinematográfica, atingindo o auge nas décadas de 1940 e 1950 com filmes como “Sansão e Dalila”, antes de ver sua carreira declinar no final da década. Nos bastidores, sua vida pessoal tempestuosa resultou em seis casamentos, seis divórcios e três filhos. Lamarr tornou-se cidadã norte-americana em 1953.

Enquanto isso, a Marinha dos Estados Unidos mantinha engavetada a tecnologia que ela havia desenvolvido. Mas, justamente quando a estrela de Lamarr no cinema começou a declinar, a Guerra Fria levou autoridades governamentais a revisitar algumas de suas tecnologias rejeitadas da época da Segunda Guerra Mundial.

A Marinha começou a usar os conceitos de Lamarr e Antheil para desenvolver sistemas de comunicação seguros para uma variedade de usos, mas nunca creditou publicamente os inventores.

“A maior parte da tecnologia desenvolvida pelas ou para as forças armadas incorporava os conceitos de salto de frequência de Lamarr e Antheil” na década de 1960, escreveram Kenneth T. Klima e Adriana Klima no livro “História da Marinha”, em 2019. O conceito criado pela dupla permaneceu classificado até a década de 1980.

No entanto, poucos sabiam ou reconheciam quem havia inventado o salto de frequência depois que o conceito se tornou de domínio público. À medida que a estrela de Lamarr perdia o brilho, a sua contribuição para a tecnologia permanecia oculta à vista de todos, porém presente nos telefones, televisões e outras novas tecnologias que a cercavam.

Mas, escreveram Klima e Klima, “eles não receberam nenhuma atribuição, royalties ou crédito das forças armadas ou da indústria de comunicações”. Durante anos, houve pouco reconhecimento da invenção, exceto por uma coluna de jornal jocosa de 1946 que afirmava que a famosa beleza de Lamarr e sua participação no Conselho Nacional de Inventores haviam se provado uma ferramenta de recrutamento notável para aspirantes a inventores.

Sua invenção com Antheil formou a base para avanços nas telecomunicações como Wi-Fi usado na Internet, Bluetooth e GPS.

Na foto vemos algumas pessoas trabalhando em seus notebooks, 
usando a Internet via Wi-Fi - que foi criada graças ao invento 
de Lamarr e Antheil.
Foto de Michael Coghlan CC BY-SA 2.0


Uma mulher genial não reconhecida

Até recentemente, a inovação de Lamarr passou despercebida, mesmo seu projeto tendo se tornado praticamente onipresente nas telecomunicações. Enquanto isso, a ex-estrela de Hollywood cansou-se da vida pública e tornou-se quase reclusa, falecendo em 2000 aos 85 anos.

Naquela época, o mundo científico já havia começado a reconhecer suas contribuições, e Lamarr e Antheil foram homenageados com prêmios. Mas sua maior honraria, a inclusão no Hall da Fama dos Inventores Nacionais nos Estados Unidos, veio postumamente, reconhecendo que Lamarr e seu parceiro inventor “nunca lucraram com sua invenção durante suas vidas”.

Será que Lamarr tinha noção da importância que seu trabalho alcançaria — ou de como ele abriu novos caminhos para as mulheres nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática (STEM)?

“Ela nunca falou sobre essa parte da sua vida”, disse a diretora Alexandra Dean, cujo documentário “Bombshell: The Hedy Lamarr Story” explora a vida e o legado da inventora, em uma entrevista de 2018.

“O pior é que estou sempre muito à frente do meu tempo”, lamentou a própria Lamarr em sua autobiografia de 1966, chamado “Êxtase e Eu: Minha Vida como Mulher”. “E isso é uma desvantagem para mim.” Apesar de ser inovadora e criativa, escreveu Lamarr, ela teve poucas oportunidades de expressar esse lado de si mesma em um mundo obcecado por sua beleza e sensualidade.

“Se seus sonhos de retornar às telas já haviam ficado para trás, a paixão de Hedy pela invenção permaneceu com ela até o fim”, escreve Barton. Sua tecnologia sobreviveu a ela, e ela é lembrada como uma lenda do cinema e uma figura fundadora inesperada das telecomunicações modernas.



Fonte:

Por Erin Blakemore

Publicado 10 de fev. de 2026


segunda-feira, 30 de março de 2026

CITAÇÕES: USE COMO EPÍGRAFE ESTA FRASE DE HAN KANG

 


     “E ela muitas vezes esqueceu que seu corpo (o de todos nós) é uma casa de areia que se esfarelou e se esfarela que vai escorrendo entre os dedos.”

 – Han Kang, in “O livro branco”; tradução de Natália M. Okabayasshi

sexta-feira, 27 de março de 2026

HISTÓRIA: ABYA YALA

O QUE É ABYA YALA, O NOME DADO AO CONTINENTE AMERICANO?

Parque Nacional Chiribiquete na Colômbia.


O termo vem do povo kuna, oriundo do Panamá e da Colômbia.

Abya Yala é o termo que as organizações e instituições de povos indígenas adotaram para se referir ao continente americano, de acordo com o documento Povos Indígenas nas Américas (Abya Yala), publicado em 2017 pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal).

De acordo com o documento, "Abya Yala" é o nome dado ao continente pelo povo kuna (também conhecido como guna ou cuna), originário do Panamá e da Colômbia, antes da chegada de Cristóvão Colombo e dos europeus no século 15.

O que significa Abya Yala

Na língua kuna, Abya Yala significa "terra madura", "terra viva" ou "terra que floresce", e é sinônimo de América, acrescenta o capítulo “Abya Yala, el descubrimiento de América”, escrito pelo geógrafo e pesquisador brasileiro Carlos Walter Porto-Gonçalves, e publicado no livro Bicentenarios (otros): transiciones y resistencias, publicado em 2011.

Especificamente, o povo kuna é originário da Serra Nevada, no norte da Colômbia. Eles habitavam a região do Golfo de Urabá e as montanhas de Darién. Atualmente, vivem na costa caribenha do Panamá, na Comarca de Guna Yala (San Blas).

Cloe Saint-Denis documentando a cultura 
e a vida tradicional dos Kuna Yala
Foto de CHLOE SAINT DENIS

Embora cada um dos povos originais do continente tenha atribuído nomes diferentes às regiões que ocupavam (por exemplo, Tawantinsuyu, Anahuac ou Pindorama), a expressão Abya Yala é cada vez mais usada em uma tentativa de construir um senso de unidade e pertencimento, de acordo com o artigo de 2011.

No mesmo sentido, o documento da Cepal reconhece que o nome Abya Yala é um símbolo de identidade e respeito pela terra que se habita.

De acordo com Porto-Gonçalves, a primeira vez que "Abya Yala" foi usada em um sentido político foi na Segunda Cúpula Continental de Povos e Nacionalidades Indígenas de Abya Yala, realizada em Quito, no Equador, em 2004.

Ritual ancestral durante o primeiro encontro continental 
de povos e grupos étnicos de Aby Yala 
– La Paz/ 2008 (foto de Alzar Rodes)

No entanto, em 2007, na 3ª Cúpula Continental dos Povos e Nacionalidades Indígenas de Abya Yala, realizada em Iximche, na Guatemala, decidiu-se criar uma Coordenação Continental das Nacionalidades e Povos Indígenas de Abya Yala como um espaço permanente de ligação e intercâmbio, para compartilhar experiências e propostas, e para se autodenominarem Abya Yala.

América Latina



Fonte:

Redação National Geographic Brasil

terça-feira, 24 de março de 2026

CITAÇÕES: USE COMO EPÍGRAFE ESTA FRASE DE HÉLIO PELLEGRINO

 


Se o trabalhador for desprezado e agredido pela sociedade, tenderá a desprezá-la e agredi-la até atingir um ponto de ruptura”. 

Hélio Pellegrino - Pacto edípico, pacto social. Folha de S.Paulo, 11 set. 1983. Folhetim. – Apud Wladimir Safatle, Nelson da Silva Junior, Christian Dunker (organizadores), in “Neoliberalismo como gestão do sofrimento psíquico”.     

sábado, 21 de março de 2026

HUMOR: MILLOR FERNANDES E O DIREITO AO FODA-SE

 O DIREITO AO FODA-SE

Millor Fernandes

Os palavrões não nasceram por acaso. São recursos extremamente válidos e criativos para prover nosso vocabulário de expressões que traduzam com a maior fidelidade nossos mais fortes e genuínos sentimentos. É o Povo fazendo sua língua. Como o Latim Vulgar, será esse Português Vulgar que vingará plenamente um dia. Sem que isso signifique a “vulgarização” do idioma, mas apenas sua maior aproximação com a gente simples das ruas e dos escritórios, seus sentimentos, suas emoções, seu jeito, sua índole.



“Pra caralho”, por exemplo. Qual expressão traduz ideia de maior quantidade do que “Pra caralho”? “Pra caralho” tende ao infinito, é quase uma expressão matemática, física. A Via-Láctea tem estrelas pra caralho, o Sol é quente pra caralho, o universo é antigo pra caralho, eu gosto dela pra caralho, entende?

No gênero do “Pra caralho”, mas no caso expressando a mais absoluta negação está o famoso e crescentemente utilizado “Nem fodendo!”. Que nem o “Não, não e não!” e nem tampouco o nada eficaz e já sem nenhuma credibilidade “Não, absolutamente não!” substituem. O “Nem fodendo” é irretorquível, liquida o assunto. Libera-te, com a consciência e o ego tranquilos, para outras atividades de maior interesse em sua vida.


Aquele filho pentelho de 17 anos te atormenta pedindo o carro pra ir surfar no litoral? Não perca tempo nem paciência. Solte logo um definitivo “Huguinho, presta atenção, filho querido, NEM FODENDO!”. O impertinente se manca na hora e vai pro Shopping se encontrar com a turma numa boa e você fecha os olhos e volta a curtir o novo CD do Lupicínio.

Por sua vez, o “porra nenhuma!” Atendeu tão plenamente as situações em que nosso ego exigia não só a definição de uma negação, mas também o justo escárnio contra descarados blefes, que hoje é totalmente impossível imaginar que possamos viver sem ele em nosso cotidiano profissional.


Como comentar a bravata daquele chefe idiota senão com um “é PhD porra nenhuma!”, ou “ele redigiu aquele relatório sozinho porra nenhuma!”. O “porra nenhuma”, como vocês veem, nos provê sensações de incrível bem estar interior. É como se estivéssemos fazendo a tardia e justa denúncia pública de um canalha. São dessa mesma gênese os clássicos “aspone”, “chepone”, “repone” e, mais recentemente, o “prepone” - presidente de porra nenhuma.


Há outros palavrões igualmente clássicos. Pense na sonoridade de um “Puta-que-pariu!”, ou seu correlato “Puta-que-o-pariu!”, falados assim, cadenciadamente, sílaba por sílaba...Diante de uma notícia irritante qualquer um Puta-que-o-pariu! Dito assim te coloca outra vez em seu eixo. Seus neurônios têm o devido tempo e clima para se reorganizar e sacar a atitude que lhe permitirá dar um merecido troco ou o safar de maiores dores de cabeça.


E o que dizer de nosso famoso “vai tomar no cu!”. E sua maravilhosa e reforçadora derivação “vai tomar no olho do seu cu!”. Você já imaginou o bem que alguém faz a si próprio e aos seus quando, passado o limite do suportável, se dirige ao canalha de seu interlocutor e solta: “Chega! Quer saber mesmo de uma coisa? Vai tomar no olho do seu cu! “. Pronto, você retomou as rédeas de sua vida, sua autoestima. Desabotoa a camisa e saia à rua, vento batendo na face, olhar firme, cabeça erguida, um delicioso sorriso de vitória e renovado amor-íntimo nos lábios.


Seria tremendamente injusto, em que pesem ainda inexplicáveis e preconceituosas resistências à sua palavra-raiz, não registrar aqui a expressão de maior poder de definição do PV (Português Vulgar): “ Embucetou!”. E sua derivação mais avassaladora ainda: “Embucetou de vez!”.

Você conhece definição mais exata, pungente e arrasadora para uma situação que atingiu o grau máximo imaginável de ameaçadora complicação? Expressão, inclusive, que uma vez proferida insere seu autor em todo um providencial contexto interior de alerta e autodefesa. Algo assim como o comentário de um vizinho para sua esposa ao sacar que no auge da violenta briga do casal da residência ao lado, chegam de súbito a amante, o filho espúrio e o cunhado bêbado com o resultado do exame de DNA: “Fecha a porta que embucetou de vez!”.


O nível de stress de uma pessoa é inversamente proporcional à quantidade de “foda-se!” que ela fala. Existe algo mais libertário do que o conceito do ”foda-se!”? O "foda-se!” aumenta minha auto-estima, me torna uma pessoa melhor. Reorganiza as coisas. Liberta-me”. Não quer sair comigo? Então foda-se!.” “Vai querer decidir essa merda sozinho(a) mesmo? Então foda-se!” O direito ao “foda-se!” deveria estar assegurado na constituição brasileira. Ou como gostaria de dizer o FHC:

Liberdade, igualdade, fraternidade e foda-se.


quarta-feira, 18 de março de 2026

CITAÇÕES: USE COMO EPÍGRAFE ESTE TEXTO DE WLADIMIR SAFATLE, NELSON DA SILVA JÚNIOR E CHRISTIAN DUNKER

 


.     “Desde seu primeiro “laboratório”, o Chile, o neoliberalismo mostrou-se uma doutrina autoritária, ainda que seu arsenal teórico nem sempre revele isso de maneira explícita. Nos anos 1980, Tatcher e Reagan também impuseram à base da força sua agenda. As consequências da crise de 2008 para o programa neoliberal vigente ainda são de difícil apreensão. Golpes de Estado, enrijecimento das forças repressivas, ascensão de regimes protofascistas ultraliberais e desmonte dos direitos sociais são alguns elementos visíveis até agora. A face autoritária do neoliberalismo realmente existente, para além de todo aparato retórico, aparece macabra no horizonte.” 

– Wladimir Safatle, Nelson da Silva Junior, Christian Dunker (organizadores), in “Neoliberalismo como gestão do sofrimento psíquico”.



domingo, 15 de março de 2026

CINEMA: AS CIDADES DE STEPHEN KING: DERRY

 


Derry é uma cidade do estado do Maine, que se situa ao longo da interestadual 95, ao sul de Dexter e ao oeste de Bangor e Haven, outras duas cidades bem conhecidas pelos leitores de Stephen King. Aparentemente trata-se de uma típica cidade norte-americana interiorana… Possui uma praça central, que rodeada pelo prédio do Palácio da Justiça e por diversas lojas, compõe o centro das atividades e da vida da comunidade. Essas lojinhas locais populares são responsáveis por fornecerem as comodidades cotidianas da vida moderna e as fofocas que alimentam a cidade, assim como boa parte das cidadezinhas interioranas dos EUA que usam o boca-a-boca como combustível. A drogaria do Sr. Norbert Keene, localizada perto da praça, é o lugar onde a maioria dos cidadãos de Derry pegam suas receitas e onde as crianças ganham seus remédios disfarçados de balinha. Há também uma biblioteca pública que fica próxima do centro da cidade, onde ocorreram eventos importantes para a pequena cidade de Derry.

Mapa de Derry

Longe da praça central, Derry possui vários outros marcos famosos, que a maioria das pessoas da cidade conhece e alguns que elas decididamente preferem evitar. Um deles é um lugar conhecido como “Os Sertões” (The Barrens), o lugar onde a água do esgoto da cidade desemboca e que fica localizado no parque memorial de Derry. Derry também possui um observatório de pássaros, uma indústria abandonada, um lixão e um ferro velho.

A entrada para os esgotos de Derry no filme IT, 
Uma Obra Prima do Medo, de 1990

Apesar de aparentemente ser uma cidade comum, Derry possui, atrás de seus quintais com a grama bem aparada e a aparente tranquilidade dos moradores, um passado trágico e uma história que reflete toda a maldade que parece se esconder nas vielas obscuras dessa cidadezinha do interior dos Eua. Em 1741 a população inteira da cidade desapareceu. Algo bem semelhante ao que aconteceu com a Colônia de Roanoke (que hoje é a atual Carolina do Norte), cujos moradores desapareceram misteriosamente em 1587, sem deixar vestígios do que poderia ter acontecido. Mas esse foi só o início dos problemas de Derry. Quase cem anos depois, um morador chamado John Markson matou toda a sua família envenenada, se matando em seguida, comendo um cogumelo tóxico. Quase trinta anos depois, em 1879, um grupo de lenhadores encontraria os restos mortais de outro grupo, cobertos de neve e cortados em pedaços. Em 1906, durante uma caçada tradicional por ovos de páscoa, num domingo ensolarado e aparentemente comum, a velha indústria explodiu, matando cerca de 102 pessoas. Em 1930 a “Mancha Negra”, um clube social local para negros foi completamente destruído durante um incêndio, vitimando dezenas de pessoas. Em 1958 cerca de cento e vinte e sete crianças, entre 3 e 19 anos, foram dadas como desaparecidas na cidade. Em 1985 nove crianças foram assassinadas e o assassino nunca foi preso. Esse também foi o ano do que ficou conhecido como “O grande dilúvio”, uma chuva de vários dias que resultou em milhões de dólares de danos à cidade. Em 1994 a feminista Susan Day foi morta quando um morador de Derry, Ed Deepneay, avançou com um avião contra o Centro Cívico de Derry.

Embora somente aqueles que realmente moram em Derry entendam de verdade a escuridão que cerca a cidade, até mesmo os visitantes possuem uma sensação estranha no ar, quando chegam à cidade. As pessoas que visitam Derry costumam ter a sensação de que “algo não está certo” e até mesmo os moradores de Haven, cidade mais próxima de Derry, relatam que ouvem e veem coisas estranhas nas proximidades da cidade. Além disso, a taxa de homicídios de Derry é seis vezes maior que qualquer outra cidade de tamanho semelhante na Nova Inglaterra, assim como a taxa de desaparecimento de crianças, que fica entre quarenta e sessenta por ano.

DESAPARECIDO: Richie Tozier, 13 anos. 
Data de Nascimento: 07/05/1976. 
Sexo: Masculino. Idade: 13 anos. Altura: 1,54. Peso: 40 Kg.

Um evento que merece um pouco mais de atenção abrange um período relativamente grande de tempo, entre os anos de 1958 e 1985. Em 1958 as crianças de Derry começaram a desaparecer ou serem mortas em um ritmo considerado alarmante pelas autoridades locais. Uma dessas vítimas foi Georgie Denbrough que foi morto enquanto brincava com um barco de papel feito pelo seu irmão, Bill, que provavelmente se salvou por estar de cama naquele dia. Posteriormente, Bill e seis de seus amigos criaram um clube chamado “O Clube dos Perdedores”. Convencidos de que um assassino estava à solta na cidade, eles começaram a tentar rastrear a criatura e acabaram chegando até os esgotos da cidade. O que aconteceu lá ainda permanece um mistério. O que se sabe é que em 1985 as crianças começaram novamente a desaparecer e serem assassinadas. Foi então que Mike Hanlon, o bibliotecário e ex-integrante do Clube dos Perdedores, começou a entrar em contato com seus amigos de infância avisando-os sobre os desaparecimentos e alertando-os sobre a promessa que tinham feito de que voltariam até a cidade para deter o assassino, caso ele voltasse.

O Clube dos Perdedores

Mas essa não foi, nem de longe, a última coisa estranha que aconteceu em Derry. Em 1994 um morador idoso chamado Ralph Roberts (mais detalhes em “Insônia”) começa a enlouquecer devido ao seu problema com a insônia e a perda de sua primeira esposa, Carolyn. Ralph começa a ter visões e acreditava ter desenvolvido um sexto sentido que o permitia enxergar a “aura” das pessoas ao seu redor, inclusive sendo capaz de ver a morte que pairava sobre suas cabeças, no que o próprio Robert descreveu como “um balão preto” flutuando sobre elas. Ralph decide agir quando descobre, graças a seus supostos poderes, que seu vizinho, Ed Deepneau, está planejando um ataque ao Centro Cívico de Derry, onde Susan Day, uma ativista feminista, está discursando.

Em 1998, Mike Noonan, um romancista de sucesso que viveu em Derry, vê sua vida mudar drasticamente quando sua mulher, Jo Noonan, morre em um acidente de carro (ela estava grávida do primeiro filho do casal). Isso faz com que Noonan se torne emocionalmente instável e acabe desenvolvendo o que ele chama de “bloqueio de escritor”, que o impede de fazer aquilo que dava sentido á sua vida; escrever. Ele decide deixar Derry por um tempo e se isolar em sua casa de verão às margens do lago conhecido como Cristal Lake. Durante o período em que se refugiou na casa, Noonan se envolve em uma série de eventos que envolvem o resgate de uma criança e uma batalha pela custódia dela entre a mãe da criança, Mattie Devore, e seu pai adotivo, o milionário Max Devore. Como se não bastasse, Noonan também acreditar que havia começado a receber mensagens de espíritos, um dos quais ele acredita ser sua falecida esposa.

Mike Noonan

Em 2001 Derry mais uma vez foi palco de terríveis acontecimentos. Um grupo de quatro amigos decidiu fazer uma viagem para caçar na floresta, numa espécie de ritual anual do grupo. Os quatro amigos haviam crescido juntos em Derry e tinham compartilhado muitas aventuras pelas ruas e jogando no Barrens. Quando crianças, os quatro tinham também ajudado Douglas “Duddits” Cavell, um garoto com Síndrome de Down que estava sendo assediado por um valentão local. Como resultado, Duddits acaba se tornando, meio que por acidente, o quinto membro do grupo de amigos. Muitos anos se passaram, mas eles permaneceram amigos pelo resto de suas vidas, até o dia do fatídico acampamento. Ao chegarem na cabana eles receberam a visita de um misterioso caçador chamado Richard McCarthy, que foi recepcionado por Jonesy, enquanto os outros tinham saído para buscar mantimentos. McCarthy estava sofrendo de uma doença desconhecida e acabou morrendo. Após uma série de eventos, eles descobriram que os militares tinham decretado quarentena nos arredores de Derry, devido a queda do que eles acreditavam ser uma nave alienígena. Para sobreviver eles chamaram seu amigo de infância Duddits para ajudar a recuperar a conexão psíquica que eles cinco tinham compartilhado no passado e que se perdera com o decorrer do tempo (para mais informações consulte o livro “O Apanhador de Sonhos”).

Em 2011 Derry voltaria ser palco de estranhos acontecimentos, quando o Jake Epping, conhecido como George Amberson, descobriu uma característica única na cidade, uma espécie de “falha” que permitia que uma pessoa com coragem suficiente voltasse no tempo. Com o incentivo do homem que o apresentou à “falha”, Al Templeton (dono do restaurante onde fica a passagem), Jake volta ao passado com uma missão; evitar o assassinato de Kennedy e salvar o futuro (mais informações sobre esses acontecimentos podem ser encontradas no livro “Novembro de 63”).

Jake Epping

Curiosidades

Stephen King já deixou claro, várias vezes, que a cidade que o inspirou a criar Derry foi Bangor, uma cidade real que fica no Maine, no Condado de Penobscot e que foi fundada em fevereiro de 1834. Resumidamente, Derry é a maneira peculiar como Stephen King enxerga Bangor.

É lá, inclusive, que Stephen King possui sua mansão mais conhecida, a famosa casa com morcegos guardando os portões:

Casa de Stephen King na 47 West Broadway em Bangor, Maine

A primeira vez em que Derry apareceu nas histórias de King foi no conto “The Bird and the Album”, voltando a aparecer em seguida no livro “IT A Coisa”, onde teve seus alicerces definitivamente enraizados. Os interlúdios do livro mostram um pouco mais sobre a origem e o passado da cidade. Este livro foi inspirado no clássico conto de fadas norueguês “The Three Billy Goats Gruff”.

Ao lado de Castle Rock e Jerusalem’s Lot, Derry completa a tríade cidades fictícias mais famosas criadas por Stephen King. O autor criou várias outras cidades, porém nenhuma delas foi tão explorada quanto estas três que King já assumiu serem uma homenagens ao uso que o autor H.P. Lovecraft (uma das inspirações de King) fez de Arkham, Dunwich e Innsmouth, três cidades fictícias do estado de Massachusetts, criadas por ele.

Derry também é mencionada no livro “One on One” da esposa de Steve, Tabitha King, em um posfácio onde ela agradece “a um outro autor” por permiti-la usar o nome da cidade.

Na Minissérie de televisão “Haven”, vaga adaptação do romance “The Colorado Kid” (inédito no Brasil), a cidade é mencionada.

No romance NOSFA2, do filho de Steve, Joe Hill, Derry foi incluída em um mapa na lista de locais sobrenaturais.

No seriado “Criminal Minds”, no episódio “Mr. Scratch”, de abril de 2015, Derry é mencionada como a cena de um crime anterior.

No quarto episódio da 14º temporada de “Love Boat”, série do canal NCIS, Derry foi mencionada como a cidade natal de um dos personagens não-regulares.

Alguns moradores de Derry:

William “Stuttering Bill” Denbrough
George Denbrough
Mike Hanlon
William Hanlon
Benjamin Hanscom
Eddie Kaspbrak
Beverly Marsh
Alvin Marsh
Richie Tozier
Stan Uris
Henry Bowers
Victor Criss
Reginald “Belch” Huggins
Patrick Hockstetter
Eddie Corcoran
Peter Gordon
Moose Sadler
Gard Jagermeyer
Richard “Dick” Halloran
Jim Sullivan
Norbert Keene

Derry foi palco dos livros “IT A Coisa”, “Insônia”, “Saco de Ossos”, “O Apanhador de Sonhos” e “Novembro de 63”. Também apareceu no conto “Extensão Curta” do livro “Escuridão Total Sem Estrelas”. Várias outras histórias de Steve se referem de alguma forma à cidade, são elas:

O Corpo (conto do livro “Quatro Estações”)
O Concorrente (escrito sob o pseudônimo de Richard Bachman)
O Cemitério
O Caminhão do Tio Otto (conto do livro “Tripulação de Esqueletos”)
O Atalho da Sra Todd (conto do livro “Tripulação de Esqueletos”)
Os Estranhos
O Piloto da Noite
Janela Secreta, Jardim Secreto (conto do livro “Depois da Meia Noite”)
Trocas Macabras
Sala de Autopsia Quatro (conto do livro “Tudo é Eventual”)
O Vírus da Estrada vai para o norte (conto do livro “Tudo é Eventual”)
Hearts in Atlantis (livro inédito no Brasil)
A Torre Negra VII: A Torre Negra
A História de Lisey
Sob a Redoma



Fonte:

Autor: Edilton Nunes

Professor de Língua Portuguesa e Literatura, graduado em Letras pela UEG (Universidade Estadual de Goiás), pós-graduado em arte/educação pela UFG, viciado em literatura de terror/suspense, amante incondicional de séries e Hq´s e fã de carteirinha do mestre Stephen King desde 1996.

quinta-feira, 12 de março de 2026

CITAÇÕES: USE COMO EPÍGRAFE ESTA FRASE DE UMBERTO ECO

 


  “Nenhum verdadeiro cafajeste se assemelha a um cafajeste”. 

- Umberto Eco, in “O cemitério de Praga; tradução de Joana Angélica Dávila.

segunda-feira, 9 de março de 2026

HISTÓRIA: AS BARRICADAS DE PARIS

AS BARRICADAS DE PARIS

(texto da IA do google)

Horace Vernet - Barricade Rue Soufflot -24 de junho de 1848

As barricadas de Paris são símbolos históricos de insurreição popular e luta urbana, erguidas com paralelepípedos, móveis e carroças (barricas) para proteger insurgentes contra forças estatais. Desde o século XVI, destacando-se em 1830, 1848, na Comuna de Paris (1871) e maio de 1968, representam a resistência popular, a luta de classes e a reinvindicação do direito à cidade.

1588 - O Primeiro Dia das Barricadas: Em 12 de maio, parisienses católicos bloquearam ruas contra Henrique III, utilizando barricas (tonéis) para conter as tropas reais.

1830 - Três Gloriosos: Cerca de 4 mil barricadas foram levantadas, derrubando Carlos X e consolidando o poder da burguesia.

1848 - Primavera dos Povos: Revolta operária e socialista contra a crise econômica e a monarquia de Luís Filipe, com barricadas cobrindo a cidade.

Andre Devambez - Barricade; the Paris commune: may 1871


1871 - Comuna de Paris: Movimento popular de camadas baixas contra a crise social, levantando barricadas entre 18 de março e 21 de maio, resultando em intensa repressão.

1968 - Maio Francês: Estudantes e trabalhadores ergueram barricadas, especialmente em 10-11 de maio, usando paralelepípedos, simbolizando a revolta contra a sociedade de consumo.

Significado Cultural: Mais que obstáculos militares, as barricadas representam um espaço de fraternização e disputa contra a ordem estabelecida, muitas vezes imortalizadas na arte e fotografia.

Esses movimentos refletem um descontentamento contínuo com desigualdade social, alto custo de vida e falta de representatividade, tácticas que continuam influenciando protestos modernos.


A PRIMEIRA FOTO DE UMA BARRICADA

 Rue du Faubourg du Temple na manhã de domingo 
 25 de junho de 1848 

Paris ocupa um lugar especial na história da fotografia e, de forma mais geral, na história das artes visuais. Foi na capital que se tirou a primeira fotografia de um ser humano (1838) e, também lá, ocorreu a primeira exibição pública de cinema (1895). Entre essas duas datas marcantes, um jovem fotógrafo fez história ao tirar a primeira fotografia de uma barricada.

A revolução de 1848

Em fevereiro de 1848, a terceira – e última – revolução francesa pôs fim à monarquia. O rei Luís Filipe abdicou e a Segunda República foi proclamada em 24 de fevereiro. Mas Paris permaneceu uma capital turbulenta, profundamente marcada pelas crescentes desigualdades geradas pela Revolução Industrial. Em junho de 1848, uma nova revolta operária eclodiu após a decisão do governo de fechar as Oficinas Nacionais, uma organização estatal que deveria fornecer trabalho aos desempregados.

O Faubourg-du-Temple, onde operários, camponeses e trabalhadores estrangeiros buscavam fortuna nas novas indústrias, foi um dos bastiões dessa revolta. Dezenas de barricadas foram erguidas no bairro, incluindo as que podemos ver na foto: a primeira no cruzamento da rua Saint-Maur e a segunda perto do cruzamento da rua Bichat. Esses "Dias de Junho" (de 22 a 26 de junho de 1848) foram duramente reprimidos, e a jovem República não hesitou em fuzilar seus oponentes. Entre os milhares de mortos (cerca de 6.000), uma centena, ou até mais, eram moradores do Faubourg-du-Temple.

É um instantâneo desses eventos que esta fotografia nos oferece, de excepcional valor histórico, cuja história completa conhecemos hoje graças ao notável trabalho do sociólogo da história Olivier Ilh (La Barricade reversed, history of a photograph, Paris 1848, Editions du Croquant, 2016).

A primeira foto de uma barricada insurrecional

Esta foto foi tirada por um jovem fotógrafo chamado Charles-François Thibault, no número 92 da atual rue du Faubourg-du-Temple, na manhã de domingo, 25 de junho de 1848. A insurreição está chegando ao fim, e apenas as últimas defesas dos bairros operários da zona leste de Paris resistem.

 Rue du Faubourg du Temple na manhã de domingo 
 25 de junho de 1848 

Thibault utilizou seu daguerreótipo duas vezes, provavelmente entre 7h e 8h da manhã. O daguerreótipo era um processo fotográfico primitivo que fixava a imagem em uma placa de metal. Essas duas fotografias estão em museus parisienses: a primeira no Museu Carnavalet e a segunda (imagem em destaque) no Museu d'Orsay. Nela, destaca-se uma bandeira hasteada no eixo de uma roda da primeira barricada (que, segundo as pesquisas de Olivier, trazia a inscrição "República Democrática e Social"), além de silhuetas de pessoas de costas.

Estas são as primeiras imagens que mostram uma insurreição e barricadas completas. Esta cena é também considerada a primeira ilustração fotográfica de uma reportagem jornalística, visto que foi publicada alguns dias depois em forma de gravura (na época não era possível reproduzir diretamente o daguerreótipo em um documento impresso) no jornal L'Illustration, com a legenda "A barricada na rua Saint-Maur Popincourt na manhã de domingo, a partir de uma placa daguerreotipada por M. Thibault".

Em 26 de junho, ao amanhecer, as tropas do General Lamoricière lançaram o ataque final. Thibault também imortalizou esse momento. A revolta havia terminado.

Rue du Faubourg du Temple na manhã de domingo 
 25 de junho de 1848 2



Fonte: