terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

SERIAL KILLER: GIULIA TOFANA - UMA ENVENENADORA DO SÉCULO XVII

 GIULIA TOFANA, A COSMETOLOGISTA DO SÉCULO 17 QUE AJUDOU CENTENAS DE MULHERES A SE LIVRAREM DE SEUS MARIDOS ABUSIVOS


Esta pintura da artista Evelyn De Morgan parece ilustrar a história 
de Gulia Tofana, embora seu título seja 'Poção do Amor', 
também poderia servir para as mulheres que usaram água-tofana.


Em 1791, o compositor clássico Wolfang Amadeus Mozart jazia em seu leito de enfermo convencido de que havia sido envenenado e certo de que sabia por qual substância.

"Alguém me deu água-tofana e calculou o momento preciso da minha morte."

A água-tofana era um veneno lendário e ideal para levar a cabo crimes perfeitos, por ser insípido, inodoro e incolor, e assim, passava despercebido.

Seu efeito podia ser dosado por quem o administrava, permitindo calcular o momento da morte para uma semana, um mês ou até um ano à frente, e não deixava traços no corpo da vítima.

A história do misterioso líquido que atemorizava a Europa à época do compositor remonta a um século antes. E conta-se que mais de 600 homens teriam sido mortos sob seus efeitos pelas mãos de suas esposas antes que o segredo fosse revelado.

Os detalhes do que aconteceu, no entanto, são tão obscuros como os das melhores lendas.

Maná de São Nicolau

A versão mais conhecida conta que a água-tofana foi uma criação de uma nobre italiana chamada Giulia Tofana, que viveu durante a primeira metade do século 17.

Ela se dedicava à produção de cosméticos artesanais, entre eles, esse produto para mulheres que tinham um problema mais grave do que imperfeições faciais.

Segundo seus contemporâneos, a água-tofana era vendida disfarçada de "Maná de São Nicolau de Mira", um óleo medicinal que supostamente gotejava milagrosamente dos ossos do santo, e que era comumente encontrado nos lares da época.

Pouco depois que os restos mortais do santo foram enterrados no século 11 em Bari, 
garrafas do maná viajaram por todo o mundo cristão 
— e eram um artigo doméstico popular quando estourou o escândalo da Aqua Tofana

Conforme relatou a revista Chamber's Journal em 1890, poucas gotas bastavam para dar fim à vida do mais forte dos homens.

"Administrado no vinho, chá ou algum outro líquido pelo traidor, [produzia] um efeito quase imperceptível; o marido ficava um pouco mal-humorado, se sentia fraco e abatido, tão ligeiramente indisposto que dificilmente chamaria um médico. Após a segunda dose de veneno, essa fraqueza e abatimento se tornavam mais perceptíveis."

"A charmosa Medeia, que mostrava tanta preocupação pela indisposição do marido, dificilmente seria alvo de suspeita, e talvez até preparasse a comida do esposo, conforme recomendado pelo médico, com suas próprias mãos delicadas. Dessa maneira, administraria a terceira dose, prostrando até o mais vigoroso dos homens."

"O médico ficaria completamente perplexo ao ver que a doença aparentemente simples não respondia aos medicamentos, e enquanto ele ainda não sabia a natureza da enfermidade, outras doses eram dadas, até que a morte levava a vítima."

Por que tantas mulheres?

Conta a história que Giulia Tofana teria fornecido a substância venenosa a centenas de mulheres italianas, até que uma delas se acovardou antes de servir um prato de sopa envenenada ao marido e acabou revelando o que tantas haviam calado.

Se você se pergunta por que havia tantas mulheres dispostas a cometer tal crime nessa época, lembre-se que naquele tempo casar-se por amor era uma novidade. Os casamentos, inclusive de mulheres relativamente poderosas, eram arranjados sem levar em conta como seria o futuro dos envolvidos.

E dado que a ordem social condenava as mulheres sempre à subalternidade, não surpreende que muitas acabassem em becos sem saída em que, se o marido fosse violento, até suas próprias vidas poderiam estar em risco.

No entanto, algumas vezes, os motivos eram outros, como num caso encontrado pelo historiador Mike Dash.

Por amor

Santa Maria sopra Minerva-Cappella Aldobrandini: 
a capela funerária da família Aldobrandini, 
onde o duque de Cesi foi velado após ter sido envenenado por sua mulher

Maria Aldobrandini, parte de um dos clãs mais poderosos e influentes da nobreza de Roma, casou-se, aos 13 anos, com o duque Francesco Cesi, descendente de uma família muito distinta.

Seu pai fora um proeminente cientista, íntimo de Galileu, e ele próprio era sobrinho do futuro papa Inocêncio 11. O marido era pelo menos trinta anos mais velho do que ela.

O duque de Cesi morreu repentinamente nove anos depois do casamento, em 1657, e se tornou o mais rico e poderoso dos envolvidos no escândalo de envenenamento por água-tofana [*].

Umas poucas gotas eram suficientes

Segundo o relato de Alessandro Ademollo (1826-1891), que publicou os resultados de suas investigações baseadas em antigos registros judiciais do Arquivo do Estado de Roma, Giovanna de Grandis — que trabalhava para Tofana — confessou que Aldobrandini havia se apaixonado perdidamente por outro conde, Francesco Maria Santinelli, e isso a levou a querer se livrar do marido, que já estava doente.

Recorreu ao pároco que fornecia arsênico às mulheres do grupo de Tofana, o padre Girolamo de Sant'Agnese in Agone, uma igreja no centro de Roma.

O padre conseguiu para ela água-tofana e, alguns dias depois, o conde de Cesi jazia em seu caixão.

A condessa, no entanto, não conseguiu o que seu coração desejava. Sua própria família a trancou para evitar um segundo casamento escandaloso com seu amante.

E, anos depois, quando veio a público a verdade sobre os envenenamentos, tornou-se suspeita da morte do marido. Mas, para evitar o escândalo, ela nunca foi acusada.

Incongruências

Uma das pinturas que alegam ser de Giulia Tofana

O problema da história são os detalhes. Algumas versões garantem que Giulia Tofana operava na Sicília na década de 1630. Outras situam a história muito mais tarde e em outros lugares: em Palermo, Nápoles ou Roma.

Às vezes, conta-se que foi ela a inventora da poção. Outras, que herdou a receita de sua mãe. E não se conhece o ingrediente de tão eficiente elixir, embora quase todas as fontes mencionem arsênico.

"Os mistérios se multiplicam quando consideramos a controversa pergunta de quando e como Tofana morreu", diz Dash.

"Uma fonte diz que morreu de causas naturais em 1651, outra que encontrou refúgio em um convento e ali viveu durante muitos anos, sem deixar de produzir seu veneno e distribuí-lo através de uma rede de freiras e padres."

"Várias afirmam que foi presa, capturada e executada, embora divirjam quanto à data de sua morte, se foi em 1659, 1709 ou 1730."

"Em um relato especialmente detalhado, Tofana teria sido retirada de seu santuário, estrangulada, e depois seu corpo teria sido devolvido à noite à mesma área do convento de onde ela havia sido retirada."

E Mozart?

Henry Nelson O’Neil - The Last Hours of Mozart

Mozart de fato nunca se levantou de seu leito de enfermo. Morreu em 5 de dezembro de 1791, aos 35 anos.

Quase 230 anos e dezenas de estudos depois, ainda não se sabe qual foi a causa. Embora possa ter sido veneno, ninguém mais fala em água-tofana.

Fonte:

Author: Redação Role, BBC News Mundo

7 fevereiro 2021

Atualizado 8 fevereiro 2021



Nota:

[*]Anna Maria Caterina Aldobrandini (1630–1703): Duquesa de Cesi, ficou famosa pelo seu envolvimento no Processo Spana, um escândalo de envenenamentos em Roma. Suspeita de matar o marido para ficar com o amante, foi mantida em isolamento pela família para evitar um novo casamento "desonroso".

sábado, 7 de fevereiro de 2026

CITAÇÕES: USE COMO EPÍGRAFE ESTA FRASE DE YOKO OGAWA

 


   “O tempo não cumpre ordens, ele flui majestoso e incessante”. 

Yoko Ogawa, in “A polícia da memória”; tradução de Andrei Cunha.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

MEDICINA: DOUTOR TISSOT E A MASTURBAÇÃO

OS HOMENS DEVEM LUTAR CONTRA SEUS IMPULSOS NATURAIS.

Mihaly von Zichy - Boy Masturbating in a Toilet  - 1901

A masturbação causa infertilidade e doenças. Essa ideia, defendida por um médico de Lausanne, espalhou-se rapidamente no século XVIII e persistiu até o século XX.

No século XVIII, Samuel Auguste Tissot era um dos médicos mais conhecidos no território que hoje corresponde à Suíça. O médico de Lausanne devia sua notoriedade principalmente a um artigo que escreveu denunciando os perigos da masturbação masculina. Tissot acreditava que a masturbação minava a força do homem e, em última instância, o tornava infértil. Ele também associava a masturbação a uma série de outras doenças. Seu tratado " Von der Onanie " (Onanismo) foi publicado em latim em 1758, seguido por uma tradução para o francês dois anos depois. A obra do médico se espalhou rapidamente pela Europa, sendo revisada cerca de 60 vezes durante a vida do autor e traduzida para diversos outros idiomas. Não eram apenas os profissionais da área médica que se interessavam pelo tema.

ARGUMENTOS DA ANTIGUIDADE

Retrato de Samuel Auguste Tissot, pouco depois de ter sido 
nomeado professor honorário de medicina na Academia de Lausanne.
Universidade de Lausanne / fotografia: Claude Bornand

As ideias de Tissot eram um tanto audaciosas e baseavam-se principalmente na teoria médica dos "humores" – uma ideia que remonta à antiguidade, segundo a qual os fluidos corporais humanos devem ser mantidos em equilíbrio. Se você perde muitos dos seus "fluidos naturais", enfraquece o corpo e acaba adoecendo. Para o médico de Lausanne, a masturbação masculina era um desperdício de fluidos corporais. Samuel Auguste Tissot fundamentou sua teoria na antiga noção anatômica de que o fluido seminal se origina no cérebro e viaja até o pênis através da coluna vertebral. Assim, sempre que você se masturbasse, dizia o médico, estaria "sacrificando" uma porção do seu fluido cerebral. As consequências: inúmeras doenças e enfermidades, danos ao sistema nervoso e comprometimento da memória e da capacidade intelectual.

Cena do Handbuch der Sexualwissenschaften de Albert Moll 
(Manual de Ciências Sexuais), 1921.
Wikimedia

O tratado de Samuel Auguste Tissot deu início a um movimento global contra a masturbação, que influenciou a sociedade até o século XX. O médico suíço francófono conferiu uma aparência de credibilidade científica às ideias morais de inúmeros contemporâneos, apoiando assim os costumes sexuais predominantes na sociedade civil. Embora suas ideias não se opusessem ao sexo em si, a razão e a racionalidade eram prioridades absolutas. Satisfazer os instintos mais básicos e os desejos sexuais não tinha lugar nessa visão.

Foi somente na década de 1960, quando os jovens começaram a se rebelar contra os valores predominantes da classe média, que a masturbação finalmente se tornou socialmente aceitável. Ironicamente, profissionais da área médica agora acreditam que a masturbação regular reduz o risco de homens desenvolverem câncer de próstata.



Fonte:


Historiador e chefe de comunicação do Museu Nacional Suíço.

Publicado em: 10/06/2020

Modificado em: 17/12/2025


domingo, 1 de fevereiro de 2026

CITAÇÕES: USE COMO EPÍGRAFE ESTA FRASE DE MADELEINE L'ENGLE

 

Madeleine L'Engle - 1980

     “Um livro também pode ser uma estrela... um fogo para iluminar a escuridão, levando ao universo em expansão” 

– Madeleine L’Engle, apud Suzana Wiggs, in “A livraria dos achados e perdidos”, tradução de Flora Pinheiro.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

GRANDES PERSONALIDADES: MIGUEL DE CERVANTES

 MIGUEL DE CERVANTES 

(1547 - 1616)


Retrato de Cervantes pintado por Juan de Jáuregui

O homem que criou o cavaleiro da triste figura. Que o fez lutar contra os moinhos de vento, e que deu o tiro de misericórdia nos grandes romances de cavalaria, nasceu em Alcalá de Henares, Espanha, em 1547, filho de um modestíssimo cirurgião e de uma nobre empobrecida.

Recebeu o nome Miguel de Cervantes de seus pais e o imortalizou.

Este jovem, provavelmente, estudou em Madrid retórica e gramática com o famoso humanista espanhol, Juan Lópes de Hoyos. Foi também nesta mesma cidade e nesta mesma época que Cervantes compôs seus primeiros sonetos.



Era época de novas estéticas e novos ideais de vida. Época em que os ventos do Barroco já começavam a soprar sobre as cabeças dos artistas espanhóis. Passada essa doce época de estudos e sonetos, Cervantes alistou-se, em 1570, nas tropas pontifícais para lutar contra os turcos que ameaçavam a Europa.

Foi guerreiro de grande coragem e sua fama correu a Espanha, porém sua bravura acabou custando-lhe a perda da mão esquerda na famosa batalha de Lepanto.

Quando voltou à Espanha, em 1575, o barco em que viajava foi tomado pelos inimigos turcos. Cervantes foi feito prisioneiro e passou cinco anos de sua vida preso na Argélia.


Tanto tempo de prisão deveu-se aos poucos recursos que tinha seu pobre pai cirurgião, pois os turcos exigiam um resgate pelo qual a família Cervantes não tinha como pagar.

Desesperado, seu pai saiu pedindo aos amigos, parentes, fidalgos e padres compadecidos dinheiro para libertar os filhos, pois o irmão de Miguel, Rodrigo, também estava na embarcação e havia sido feito prisioneiro.

Em 1577, seu irmão Rodrigo é liberado depois de pago o resgate. Cervantes continua preso, tenta fugir por duas vezes, mas não consegue.


Em 1578, tenta fugir pela terceira vez e fracassa. Tenta pela quarta vez e fracassa novamente. Às vésperas de ser mandado para Constantinopla, é resgatado por frades trinitários, que pagam por ele a quantia de quinhentos ducados. Mora um mês em Valência. Depois, dirige-se a Madri em busca de emprego. Viaja a Portugal. Desempenha uma missão em Oran.

Muito desiludido com a vida militar, Cervantes passa agora a dedicar-se à vida literária. Estabelecido em Madrid, procurou concluir Galateia, obra começada no cárcere e que celebrava, em contraste à vida sem liberdade, uma visão plácida e repousante do mundo.

Em 1584, casou-se com Catalina de Palácios, da qual, após um ano de intensas brigas, se separaria. Depois de sua separação, Cervantes, para sobreviver, aceita o cargo de Comissário Real de Abastecimento da Invencível Armada, passando, em seguida, a coletor de impostos.


Este emprego acabou causando-lhe alguns problemas com a lei. Cervantes foi acusado injustamente de se beneficiar do desvio de verbas. Foi preso em Sevilha, onde se supõe que tenha começado sua obra prima: Dom Quixote de la Mancha, cuja primeira parte foi editada em 1605 e a segunda em 1615, época em que Cervantes atingiu o auge de seu talento em obras teatrais e muitas novelas, entre elas, Novelas Exemplares, O Amante Liberal, A Espanhola Inglesa e Senhora Cornélia; no teatro: O Cerco de Numância, A Viagem de Argel, Oito Comédias e Oito Prelúdios, e outras.

O brilho das peças de Cervantes, porém, seria ofuscado pela genialidade de outro escritor da época: Lope de Vega, cuja obra dominou todo o século XVII. Sua maior criação, O Dom Quixote, por sua vez, não teve rivais. Inspirada em um caso real de loucura, destinava-se claramente a combater a cavalaria andante. Opondo-se de forma contundente e irônica à irrealidade das novelas de cavalaria, as quais ainda eram muito lidas na Espanha daquela época. Cervantes encontra a morte em 1616.

A intenção de Cervantes era fazer uma sátira mordaz dessa "propaganda" cavaleiresca e dos tolos que se armavam cavaleiros às cegas, movidos por esta literatura de aventuras.

Nesse sentido, qualquer analogia feita em relação àquelas pessoas que saem pela Espanha fazendo o Caminho de San Tiago após ler o Alquimista de Paulo Coelho não é mera semelhança, mas prova inconsteste de que as tolices humanas se perpetuam até os dias de hoje.

O Dom Quixote, porém, não foi apenas uma crítica. Devido à genialidade de seu autor, a obra acabou por se tornar muito mais que a simples caricatura de um estilo. Acabou por retratar a aventura humana dividida entre sonho e realidade, entre a alienação e a práxis.

O cavaleiro da triste figura é uma da imagens mais criativas e mais realistas da realidade humana. Cervantes consegue dar total e completa noção do que a alienação pode causar.

Seu Quixote divide-se entre uma realidade que vai aos poucos o desfigurando e uma loucura que demonstra o quanto uma perversão social - no caso a idéia de que a causa cavaleiresca se dava na vida real da mesma forma que nos inverossímeis romances de cavalaria - pode ser destruidora e imbecilizante.

O nazismo é um caso no qual se demonstra o quanto uma perversão social pode ser destruidora. Outro caso atualíssimo dessa divisão representada pelo Quixote é o da propaganda que induz em nós falsos desejos através da multiplicação das imagens do prazer.

Nós não somos os homens de Malboro, nem as maravilhosas mulheres que fumam Free, muito menos os saudabilíssimos consumidores de cerveja que a televisão, os outdoors e adjacências insistem em mostrar.


Fugimos à nossa realidade, da mesma forma que o Quixote, quanto tentamos viver no mundo inverossímel que a propaganda nos oferece comprando os produtos que ela divulga.

Ninguém será um homem ou uma mulher resolvida se comprar o último modelo de carro de luxo, da mesma forma que no tempo de Cervantes não havia cavaleiros andantes que lutavam, em nome de Deus, contra todo o mal existente na terra. Por essa e por outras razões que o livro de Miguel de Cervantes tornou-se uma das maiores obras da literatura mundial.


(ILUSTRAÇÕES: CÂNDIDO PORTINARI)


Fonte:

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

CITAÇÕES: USE COMO EPÍGRAFE ESTA FRASE DE ALBERTO MANGUEL

  


   

“A relação entre uma civilização e sua linguagem é simbiótica: certo tipo de sociedade dá origem a certo tipo de linguagem; por sua vez, essa linguagem dita histórias que inspiram, moldam e mais tarde transmitem a imaginação e o pensamento daquela sociedade.” 

– Alberto Manguel, in A cidade das palavras; tradução de Samuel Titam Jr.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

ARTES PLÁTICAS: IMPRESSIONISMO


Claude Monet -impression soleil levant-1872


O Impressionismo foi um movimento que se manifestou, especialmente nas artes plásticas no fim do século XIX na França. Os impressionistas rejeitavam as convenções da arte acadêmica vigente na época. As pinturas do Impressionismo captavam as impressões perceptivas de luminosidade, cor e sombra das paisagens, por isso pintavam o mesmo quadro em diferentes horários do dia.

O termo “impressionista” deriva de uma das obras mais significativas obras desse movimento - Impressão: Nascer do Sol, de Monet. Outra explicação diz que o termo foi usado pela primeira vez pelos caluniadores do movimento, que consideravam as obras inacabadas e o nome foi aceito e adotado pelos artistas desse estilo.

Paul Cézanne -Couple in a Garden

Paul Cézanne (1839-1906), Edgar Degas (1834-1917), Claude Monet (1840-1926), Camille Pissarro (1830-1903), Pierre-Auguste Renoir (1841-1919) estão entre os principais expoentes do Impressionismo.

Camille Pissarro - The Pond at Montfoucault

Esses artistas estavam interessados em confinar com a tinta as impressões sensoriais de cor, luz, som e de movimento, por meio de cores claras e brilhantes bem como pinceladas mais livres e distintas. Assim como é do conhecimento de todos, as cores da natureza mudam conforme a luz incidente em determinado horário do dia, e eram essas impressões que os impressionistas queriam capturar. Os impressionistas estudavam muito sobre os efeitos ópticos, para isso usavam com frequência recursos fotográficos. Em função disso preferiam trabalhar ao ar livre, bem como, não se prenderam ao uso da perspectiva e ao uso de modelos. As figuras representadas não possuíam contornos nítidos, as sombras deveriam ser coloridas e as cores deveriam ser usadas puras, evitando a mistura de tonalidades.

Claude Monet - Rouen Cathedral, 
Facade (Sunset)

Claude Monet, principal expoente do Impressionismo, costumava afirmar que só é possível conhecer um objeto plenamente se for possível experenciar toda gama de possibilidades e impressões que ele provoca. Ao pintar a tela Catedral de Rouen, Harmonia em azul, de 1893, o artista pintou a catedral trinta vezes, tentando capturar os as variações de cores em sua fachada.

Eliseu Visconti - As duas irmãs ou No verão

No Brasil, alguns pintores se destacaram nesse estilo como Eliseu Visconti, Almeida Júnior, Timótheo da Costa, Henrique Cavaleiro, Vicente do Rego Monteiro e Alfredo Andersen.

Claude Debussy

O Impressionismo também teve suas manifestações na música e na literatura. Na música seus nomes mais marcantes foram Debussy e Ravel. Na literatura destacam-se os escritores Marcel Proust, Graça Aranha e Raul Pompeia.


Claude Monet e sua esposa Alice, 1908




Referências:


LITTLE, Stephen. ...ismos: para entender a arte. Brasil, Ed. Globo, 2011.


Fonte:

Autora: Liane Carvalho Oleques

Mestre em Artes Visuais (UDESC, 2010)

Graduada em Licenciatura em Desenho e Plástica (UFSM, 2008)

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

CITAÇÕES: USE COMO EPÍGRAFE ESTA FRASE DO PADRE LUÍS BRANDÃO

      


“Na América, todo escrúpulo é fora de propósito”. 

– Padre Luís Brandão, reitor do colégio jesuíta em Luanda, 1611; 

in Escravidão volume 1 – Do primeiro leilão de cativos, em Portugal, até a morte de Zumbi dos Palmares – Laurentino Gomes; Globo Livros.


(Nota: não há registro de qualquer imagem do Padre Luís Brandão, por isso, como provocação, essa charge de autor não identificado.)

sábado, 17 de janeiro de 2026

ÁRVORE: O BAOBÁ




O Baobá vive de três a seis mil anos. Originou-se na África, é árvore sagrada. O Baobá representa também preservação e é objeto de culto, com velas, fitas, ex-votos como se fosse santo. Conhecido nos meios científicos com o nome de Adansonia Digitata, o baobá, quando adulto, é considerada a árvore que tem o tronco mais grosso do mundo, chegando em alguns casos, a medir 20 metros de diâmetro. São árvores seculares, testemunhas vivas da história, que chegam até aos 6.000 anos de idade.


O Baobá é uma das árvores mais antigas da terra. Modernos métodos de avaliação, tal como o do carbono radioativo, revelam que uma árvore de 5 metros de diâmetro (a média é de 10 metros) tem 1.010 anos de idade. Antes da utilização de técnicas avançadas, a idade dessas árvores era avaliada pela leitura de datas inscritas no tronco pelos primeiros exploradores alguns deles do século XV.


Poderemos apreciar o sistema de polinização dessa planta, onde os "espíritos mágicos", os macacos que se escondem no oco e gigantesco tronco, durante o dia, e seus vizinhos, os morcegos, que percorrem longas distâncias, á noite, vêm sugar o doce néctar das flores. Essas flores têm 20 cm de diâmetro e parecem estar penduradas de cabeça para baixo, em forma de sino. Elas têm apenas 24 horas de vida O odor forte de almíscar atrai moscas varejeiras e outras agentes polinizadoras. O odor parece de carniça devido a presença de escatol, e sai rapidamente qualquer sentimento romântico em relação a árvore. Os animais sugam o néctar, e assim atuam como vectores para o pólen que adere aos seus pelos faciais. Essa árvore é um hotel para lagartas, muitas espécies de pássaros e insetos, tais como o louva-a-deus gigante capaz de devorar uma lagartixa viva. A mariposa fecha as asas e parece um espinho de acácia. Parece que o galho está coberto de espinhos. Na base do tronco no chão vivem o bicho-pau. A maior parte do ano o baobá está sempre desfolhado. O baobá é lugar de caça.


O poeta Diogenes da Cunha Lima, comprou um terreno em Natal, Rio Grande do Norte para salvar uma árvore, um gigantesco baobá. São conhecidas apenas 20 árvores no país. Em Pernambuco estão dezesseis, 3 no Rio Grande do Norte 1 no Ceará e 1 no Rio de Janeiro. O Baobá se transformou num dos principais personagens do livro O Pequeno Principe, de Saint-Exupéry, editado pela primeira vêz, em Nova York, em 1943. Diogenes da Cunha Lima garante que antes de ser famoso na década de 30, Saint-Exupéry pousou seu avião em Natal, e foi na cidade do Sol que êle conheceu o baobá.



"O solo do planeta estava infestado. E um baobá, se a gente custa a descobri-lo, nunca mais se livra dele. Atravanca todo o planeta, é pequeno e os baobás numerosos, o planeta acaba rachando. Meninos! Cuidado com os baobás!" (Antoine de Saint-Exupéry, em O Pequeno Principe.)

(Baobá do Recife)

O famoso Baobá da Praça da República, em frente ao Palácio do Governo Estadual, é uma árvore originária da África, cuja exuberância e robustez de seu tronco é peculiar, tendo este magnífico exemplar sido tombado pelo Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal em 1986.



Fonte:

Autora: Maria Luiza Lacerda Soares


Textos transcritos do artigo do Dr. Diogenes da Cunha Lima e Claire Dellatola
Colaboração do Professor Mauricio Wieler

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

CITAÇÕES: USE COMO EPÍGRAFE ESTA FRASE DE ARTHUR SCHOPENHAUER

     


Se um Deus fez este mundo, eu não gostaria de ser esse Deus: a miséria do mundo esfacelar-me-ia o coração”. 

– Arthur Schopenhauer, in “As dores do mundo”; 

tradução de José Souza de Oliveira

domingo, 11 de janeiro de 2026

COMPORTAMENTO: SEXO NA ROMA ANTIGA

 

NA CAMA COM OS ROMANOS: COMO O SEXO MUDOU A HISTÓRIA DA ROMA ANTIGA

Ilustração na parede da Casa do Fauno, na cidade de Pompeia
Crédito,Getty Images


O sexo teve uma importância política e histórica extraordinária na Roma antiga desde a sua fundação em 753 a.C., segundo o historiador romado Tito Livio Patavino, lembrado como Livio.

Desde o princípio, o sexo esteve vinculado a alguns dos principais acontecimentos romanos. A violência sexual contra mulheres sabinas, no ano de 740 a.C. foi uma estratégia cuidadosamente executada na construção nacional. Para repor a "escassa" população de mulheres férteis, os romanos raptaram as esposas e filhas dos povos sabinos, num episódio que ficou conhecido como o Rapto das Sabinas.

Pouco depois, o sexo teve papel importante no fim da monarquia e na fundação da república e, depois, na restauração dessa república tão fundamental para a democracia romana.

Lucrécia e Virgínia

O suicídio da virtuosa Lucrécia em 510 a.C., após ser estuprada por Sexto Tarquínio, significaria o fim da monarquia romana.

A morte dela provocou uma rebelião que faria de Tarquínio o último rei de Roma. O destino da legendária nobre romana teve um papel-chave na transição do Reino Romano para a República Romana.

Depois, em 449 a.C., o sexo também esteve presente na defesa da república, quando os governantes começaram a se comportar como monarcas. No contexto da luta entre patrícios e plebeus, foi criada uma instituição chamada decenvirato, composta por 10 homens cuja missão era regular as relações entre os cidadãos.


Lucrécia e Tarquínio, em pintura de 1560, do pintor italiano Ticiano

O primeiro decenvirato era controlado por patrícios, e os romanos estavam descontentes com a corrupção e os abusos cometidos por eles - e pelo fato de não convocarem eleições.

Na época, Ápio Claudio Crasso, que presidia o primeiro decenvirato, ficou obcecado com uma bela plebeia chamada Virginia, filha de Lúcio Virgínio, um respeitado centurião romano (sexto na cadeia militar romana no comando de uma legião). Mas Virgínia estava comprometida com Lúcio Icílio, um antigo tribuno da plebe.

Quando o patrício Crasso usou seu poder para ficar com a moça, o pai a assassinou para evitar que fosse estuprada. O que se seguiu foi uma revolta que derrubou o decenvirato e restaurou os valores da república.

O puritanismo

O puritanismo, ou preservação da "virtude sexual", era um conceito central da ética sexual dos antigos romanos. Foi o que custou a vida de Lucrécia e Virgínia, que se tornaram lendas que serviram de exemplo de comportamento para as mulheres romanas.

Uma vez casadas, as mulheres daquela época e região não deviam esperar nenhum prazer do ato sexual, pois seu papel era simplesmente procriar. Além disso, as mulheres precisavam aceitar a infidelidade dos maridos. No caso dos homens, trair era uma prova de virilidade e destreza sexual.

Solteiros ou casados, eles tinham liberdade para fazer sexo com prostitutas, dançarinas e até com outros homens, com a condição crucial de que eles penetrassem o outro, e não o contrário. Os homens que se deixavam penetrar eram considerados deficientes em virilidade e virtude. Poderiam ser denunciados e vilipendiados como afeminados.

Enquanto era exigido um comportamento puritano das mulheres romanas, 
aos homens era permitido trair suas esposas como prova de virilidade

Valores familiares

Nos últimos tempos da república romana, no entanto, o sexo fora do casamento passou a ser questionado socialmente.

Augusto, como primeiro líder do Império Romano, tentou restabelecer "valores familiares" por meio de leis.

No entanto, as intenções dele foram ofuscadas pelo comportamento de sua única filha biológica, Júlia, que, segundo diziam, fez sexo até no púlpito de onde Augusto apresentou sua legislação moralista.

O imperador a exilou em Pandataria (hoje ilha Ventotene, na Itália), uma remota ilha, naquela época, livre de homens, em frente à costa da Campania.

Júlia, a Grande, foi a única filha biológica do primeiro imperador romano, 
além de segunda esposa e meia-irmã do imperador Tibério

O marido de Júlia, seu meio-irmão Tibério, que sucedeu Augusto como imperador, seguia a moda do travestismo popularizada por Júlio César, que, anos antes, quando tinha 20 anos, viveu como mulher na corte do rei Nicomedes IV.

O imperador Tibério se vestia de mulher durante suas desenfreadas celebrações em Capri, enquanto seu sucessor, Calígula, às vezes aparecia em banquetes fantasiado de deusa Vênus.

Já o imperador Nero, atormentado por ter matado sua esposa grávida Poppaea Sabina, quis substituí-la por alguém que se parecesse com ela e encontrou Sporus, um jovem escravo a quem mandou castrar antes da boda.

Nero, que teria tido uma relação incestuosa com a mãe, Agripina, a Jovem, também protagonizou os notórios banquetes de Tigelino: envolto em pele de animais selvagens, ele era liberado de uma jaula para "mutilar" com a boca as genitálias de homens e mulheres presos a uma estaca.

A rainha das prostitutas imperiais

Dizia-se que Messalina, imperatriz de Cláudio, escapava discretamente da cama do marido enquanto ele dormia para visitar um fétido bordel, o que lhe rendeu o título de "rainha das prostitutas imperiais".

O autor romano Plínio diz que, em uma orgia épica, Messalina desafiou uma prostituta veterana a uma maratona sexual de 24 horas. A imperatriz ganhou o desafio após 25 homens.

O sexo também ocupou lugar de destaque na curta "vida indescritivelmente repugnante" do imperador Heliogábalo (AD c 203-222).

A imperatriz romana Messalina nua no bordel Lupanar com um soldado. 
A ilustração é de Auguste Leroux, 1903

De acordo com a História Augusta, uma coleção de biografias de imperadores romanos, de Adriano a Numeriano: "Com cada orifício de seu corpo tomado de luxúria, ele enviou agentes em busca de homens com pênis grandes para satisfazer suas paixões. (...) O tamanho do órgão de um homem determinava o cargo que ele ocupava na administração."

De acordo com essa coleção de livros, Heliogábalo ofereceu uma fortuna a qualquer médico que pudesse dar a ele genitais femininos permanentes. O comportamento dele provocou reação da Guarda Pretoriana e do Senado romano. E, em um complô tramado por sua avó, Heliogábalo foi assassinado quando tinha apenas 18 anos.

'As rosas de Heliogábalo', do pintor holandês Lawrence Alma-Tadema, 
inspirado num episódio da História Augusta, que conta que 
Heliogábalo lançou de surpresa uma quantidade tão grande 
de pétalos de rosas sobre os convidados 
de uma de suas festas que alguns morreram sufocados​

Em 525 d.C, o sexo continuava a ser um aspecto importante da vida romana. A imperatriz Teodora era 20 anos mais jovem que seu marido, Justiniano I. Ela havia trabalhado num bordel de Constantinopla antes do casamento, onde era protagonista de teatro burlesco obsceno. Em uma das peças, Teodora convidava os demais atores a fazerem sexo com ela no palco.

Quando assumiu o posto de imperatriz, ela empreendeu uma série de reformas sociais para proteger as mulheres de abusos físicos, sexuais e de discriminação.


Fonte:

Author : Paul Chrystal, autor de "Na cama com romanos", publicado pela editora Amberley

Role,BBC History Extra

21 novembro 2018