domingo, 24 de maio de 2026

MÚSICA: O "CORTA-JACA" DE CHIQUINHA GONZAGA

 “ESCÂNDALO DO CORTA-JACA”, 

DE CHIQUINHA GONZAGA E NAIR DE TEFFÉ



“Remexe, assim…assim…”Nair de Teffé e Hermes da Fonseca 
dançando o Corta-jaca / A Rua, 4 de novembro de 1914


Ninguém nega a importância de Ruy Barbosa, como grande jurista, advogado, escritor e político. Mas ele também tinha suas quizilas e preconceitos. Um deles se refere ao episódio chamado “Escândalo do Corta-Jaca”, em 1914, quando foram revelados alguns dos seus preconceitos musicais, tudo isso motivado por Nair de Teffé, esposa do presidente Hermes da Fonseca, o qual derrotara Ruy Barbosa na eleição de 1910.

Nair de Teffé, 1913. Rio de Janeiro, RJ 
 Acervo Museu da República

Nair de Teffé, caricaturista e tida como “moderninha”, casou-se com Hermes da Fonseca em 1913, após ele ficar viúvo em 1912 de sua primeira esposa, Orsina da Fonseca.

Casamento de Hermes da Fonseca e Nair de Teffé, 
8 de dezembro de 1913. Petrópolis, 
RJ / Acervo Museu da República

Nair, de uma família aristocrática (era filha do Barão de Teffé, sobrinha de Jorge João Dodsworth, Baão de Javari e Neta do Conde von Hoonholtz, era caricaturista, tendo estudado em Paris e Nice, na França, onde passou a infância e adolescência.

Tendo regressado ao Brasil com 19 anos, entre 1905-6, Nair volta ao Brasil influenciada pela Bella Époque, cheia de ideias na cabeça e inspirada nos cartunistas europeus. Assim, começa a desenhar caricaturas para várias revistas como O Malho e a Fon-Fon e os periódicos O Binóculo e A Careta.

No começo ela assinava como o pseudônimo Rian (seu nome ao contrário). Ela foi responsável, entre outras coisas, por lançar a moda de calças compridas para mulheres e montar a cavalos “como homens” (antes, as mulheres montavam a cavalos sentadas de lado.

Entusiasta da Música popular, promovia saraus no Palácio do Catete (então palácio presidencial), sendo entusiasta da música brasileira e amigo de Catulo da Paixão Cearense (músico, poeta e compositor que, apesar do nome, é de São Luiz do Maranhão).

Nair de Teffé um dia ouviu de Catulo que nas festas palacianas nunca se executava música nacional. Intrigada, ela resolveu consultar Emilio Pereira, seu ex-professor de violão, no momento morando em Petrópolis. Foi ele quem lhe apresentou o tango Corta-Jaca de Chiquinha Gonzaga.

O Corta-jaca é o nome popular pelo qual se tornou conhecido a canção “Gaúcho”. Nasceu nos palcos dos teatros musicados, onde foi dançado na cena final da opereta burlesca Zizinha Maxixe, imitada do francês por autor anônimo, representada no Teatro Éden Lavradio, em agosto de 1895.

Em 1914, era uma música conhecida nas ruas do Rio de Janeiro…

A última recepção do presidente. 
Aspecto de um dos salões do Palácio Presidencial do Catete 
durante a última recepção de S. Ex. o sr. Marechal Hermes da Fonseca 
e sua senhora na noite de 26 de outubro
 Revista da Semana, 7 de novembro de 1914

Na noite de 26 de outubro de 1914, houve um desses saraus, nos quais foram apresentados números musicais de música erudita, tendo na programação músicas de compositores como Arthur Napoleão, Gottschalk, e Franz Liszt,

Ao final do sarau, Nair pegou o violão (instrumento que então era considerado “menor”, associado à malandragem) e executou o Corta-Jaca, acompanhado de Catulo ….
Chiquinha Gonzaga aos 29 anos, 
c. 1877. Rio de Janeiro, RJ / Acervo IMS

Pela primeira vez na história do Brasil a música eminentemente popular fora executada na sede do governo, diante do corpo diplomático

O fato gerou muito disse-me-disse, havendo muitas críticas nos jornais e nos meios acadêmicos, pois havia quem considerasse inadequado música popular no Palácio do Catete, sede da Presidência da República.

O que aconteceu naquela noite de 26 de outubro de 1914 vem relatado e documentado no jornal A Rua do dia 6 de novembro às vésperas da transmissão do cargo de presidente de Hermes da Fonseca para Venceslau Brás, que ocorreria no dia 15 de novembro.

“Nos salões do palácio do Catete houve no dia 26 do mês passado, uma ‘soirée’ muita fina a que compareceram os representantes do nosso corpo diplomático e da ‘elite’ carioca. Na ‘soirée’, que era a última recepção dada pelo sr. presidente da República, ‘fez-se música’, como costumam dizer os cronistas mundanos.

“‘Fez-se música’ e em grande escala. Houve piano, bandurra e até violão…

“Ao som deste último instrumento tocou-se a festejada e dengosa produção da maestrina Francisca Gonzaga — ‘Corta-Jaca’. Os jornais desde esse dia não têm cessado de criticar, de muitos e diferentes modos, a inclusão do tango magnífico no programa de uma festa diplomática no Catete.

“O ‘Corta-Jaca’ andou tanto tempo pelos arraiais da pândega e da populaça que se desmoralizou por completo, tornando-se indigno do Palácio das Águias… por muito que as produções de D. Chiquinha Gonzaga sejam tidas como a essência da música genuinamente indígena.

“E tão mal estão a considerar o pobre tango que muita gente acredita ser toda essa crítica uma simples intriga de oposição.

“O ‘Corta-Jaca’ no Catete?

“Pode lá ser isso, dizia ontem no Senado o velho Sr. Glicério ao sr. Raimundo de Miranda.

“— Esses jornais são medonhos. Pois V. não viu a maneira por que está sendo atacado o Lalau… V. conhece o Lalau e sabe que ele é incapaz dessas coisas…

Catulo da Paixão Cearense

“Pois se tocou sim. Tocou-se ao violão o ‘Corta-Jaca’, no dia 26, no Catete. E querem provas? A melhor prova que podemos dar é a publicação do programa da festa. Vêde. Ele encima esta notícia.

“Esta, tenham paciência, não foi obra da oposição, não, foi obra e talvez a última dele…”

Ruy Barbosa, 1907

Em sessão do Senado Federal, Ruy Barbosa, como dito, opositor de Hermes, solta sua verve contra a atitude da polícia, que reprimia os estudantes das Faculdades de Direito, Engenharia e Medicina, os quais colavam inúmeros cartazes com caricaturas do presidente, ridicularizando o episódio. Vejam as críticas de Ruy:

“Por que, Sr. Presidente, quem é o culpado, se os jornais, as caricaturas e os moços acadêmicos aludem ao Corta-Jaca?

“Uma das folhas de ontem estampou em fac-símile o programa da recepção presidencial em que, diante do corpo diplomático, da mais fina sociedade do Rio de Janeiro, aqueles que deviam dar ao pais o exemplo das maneiras mais distintas e dos costumes mais reservados elevaram o corta-jaca à altura de uma instituição social. Mas o corta-jaca de que eu ouvira falar há muito tempo, que vem a ser ele, Sr. Presidente? A mais baixa, a mais chula, a mais grosseira de todas as danças selvagens, a irmã gêmea do batuque do cateretê e do samba. Mas nas recepções presidenciais o corta-jaca é executado com todas as honras de música de Wagner, e não se quer que a consciência deste país se revolte, que as nossas faces se enrubesçam e que a mocidade se ria!”(5. Diário do Congresso Nacional, 8/11/1914, p. 2789. Refere-se á 147ª sessão do Senado Federal, em 7 de novembro de 1914.)

Careta, 7 de novembro de 1914

Ou seja, o batuque, o cateretê e o samba eram, segundo Ruy, as mais vulgares manifestações populares, que deveriam ser afastadas das solenidades e eventos oficiais. De fato, ainda bem que Ruy Barbosa não se notabilizou por ser crítico musical…



Fonte:

Autor: Sebastian Borges de Albuquerque Mello


17 de fevereiro de 2020



Fontes do autor:







quinta-feira, 21 de maio de 2026

FOTOGRAFIA: O POVO HADZA POR MARTIN SCHOELLER

 



Os hadzas (ou hadzabe) são um povo indígena nômade do norte da Tanzânia, na região do Lago Eyasi e do Vale do Rift. Com uma população estimada em cerca de 1.300 pessoas, são um dos últimos caçadores-coletores remanescentes do mundo, sobrevivendo exclusivamente de caça, coleta de frutos e mel, sem praticar agricultura ou criação de animais.

Martin Schoeller é um fotógrafo alemão famoso por seus retratos, tendo trabalhado para várias revistas como The New Yorker, Rolling Stone e GQ. Para a National Geographic realizou uma série de fotos sobre o povo Hadza. São algumas dessas fotos que apresentamos abaixo:


















Fontes:



quinta-feira, 14 de maio de 2026

SOCIEDADE: O CASAL MAIS ALTO DO MUNDO

 

A CURIOSA HISTÓRIA DO CASAL MAIS ALTO DO MUNDO

Anna Haining Swan conheceu seu marido 
enquanto excursionava com o circo. 
 (Fonte: Yeahpot / Reprodução)

Anna Haining Swan e Martin Van Buren Bates entraram para a história por um motivo inusitado: ambos formaram o casal mais alto do mundo, posto que mantêm até hoje.

Eles viveram no século XIX, e possuíam gigantismo: cada um tinha mais de 2,4 metros de altura. Por isso, eles viveram em uma casa totalmente adaptada para eles.

Nascida em 6 de agosto de 1846, na Nova Escócia, no Canadá, Anna Haining Swan tinha pais com alturas normais. Mas, com apenas 4 anos, ela já era enorme. Com onze, Anna já estava mais alta que seu pai, e media 2,11 metros.

Seu ápice chegaria aos 19 anos, quando ela contabilizava nada menos que 2,28 metros. Ela era versada em literatura e música, considerada muito inteligente e dava aulas de teatro. Desde os 17 anos, Anna também trabalhava em circos, onde se apresentava ao lado de um famoso anão chamado Tom Thumb. Ao lado dele, sua altura ficava ainda mais ressaltada.

Mas a alta estatura quase causou sua morte. Em 1865, ocorreu um incêndio dentro do local em que trabalhava. A maioria das pessoas conseguiu escapar saindo pelas janelas ou descendo as escadas, mas Anna não conseguia passar pelas janelas. Por sorte, um guindaste foi trazido para derrubar uma parte da parede e ela conseguiu escapar.

Depois de um tempo, o dono do circo, um homem chamado PT Barnum, a convidou para fazer parte de uma excursão pelos Estados Unidos. Anna topou, sem ter ideia de que aquela viagem mudaria a sua vida.

Foi nela que conheceu Martin Van Buren Bates, um capitão confederado do Kentucky. Charmoso e eloquente, Bates media 2,25 metros de altura, e os dois se apaixonaram perdidamente.

Um ano depois, em 1871, eles se casaram em Londres. A dupla logo ficou conhecida como o "Casal Mais Alto do Mundo", o que fez com que recebessem presentes de casamento do mundo inteiro. A própria Rainha Vitória enviou a eles um par de relógios de ouro extragrandes cravejados de diamantes.

Anna Haining Swan e Martin Van Buren Bates 
tiveram dois filhos juntos, mas eles não sobreviveram. 
(Fonte: Pinterest / Reprodução)

Após terem se casado, os dois resolveram se aposentar e foram para Seville, Ohio, nos Estados Unidos. Era lá que Martin havia construído uma casa personalizada para duas pessoas muito altas: os tetos, portas e móveis eram todos enormes para que eles ficassem confortáveis. No fundo, havia uma casa de tamanho normal para os convidados.

Mas como eles haviam se tornado celebridades, novamente foram chamados para excursionar pelo país com PT Barnum. Durante a viagem, Anna engravidou do primeiro filho do casal. Infelizmente, a criança morreu durante o parto.

O segundo filho nasceu no ano seguinte e foi registrado como o maior recém-nascido que se conhecia, tornando-se um recorde mundial no Guinness. O bebê, no entanto, viveu apenas 11 horas. Depois disso, o casal continuou fazendo turnês com o circo.

Anna faleceu em 1888, aos 41 anos. Martin a enterrou na cidade de Seville. Ele encomendou da Europa uma estátua gigante de uma deusa grega para adornar o seu túmulo. O marido faleceu em 1919 e foi enterrado ao lado de sua amada esposa.



Fonte

Imagem:



Autora: Maura Martins

17/05/2025



terça-feira, 12 de maio de 2026

CITAÇÕES: USE COMO EPÍGRAFE ESTE TEXTO DE CAROLINA MARIA DE JESUS:

      


“... O que eu aviso aos pretendentes a política, é que o povo não tolera fome. É preciso conhecer a fome para descrevê-la. [...] O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que passou fome.” 

– Carolina Maria de Jesus, in “Quarto de despejo – diário de uma favelada”.

sexta-feira, 8 de maio de 2026

RELIGIÃO: AS RELIGIÕES MAIS ANTIGAS DO MUNDO


QUAIS SÃO AS RELIGIÕES MAIS ANTIGAS DO MUNDO?

A religião se fez presente de alguma forma na história da humanidade por meio de diferentes crenças e deuses e existe desde as mais antigas culturas conhecidas.

A estátua gigante do deus hindu Murugan 
(um dos diversos deuses do Hinduísmo) 
em Batu Caves, ao norte de Kuala Lumpur.

A relação dos seres humanos com o que eles consideram sagrado, oculto, divino e espiritual é algo que atravessa muitos séculos e acompanha a evolução da própria história da humanidade. Esse fenômeno é conhecido como religião – e vem se manifestando das mais diferentes formas, como explica a Encyclopaedia Britannica (plataforma de conhecimento e educação do Reino Unido).

Há diversas religiões que se desenvolveram já na história moderna, mas a conexão do homem com o sagrado é mais antiga do que muitos imaginam. A palavra religião vem do latim e pode ter se originado de religio, que significa “restrição”, ou de religionem, que é “mostrar respeito pelo que é sagrado”, diz a World History Encyclopedia (plataforma de conhecimento sobre história mundial).

Porém, não é possível identificar com certeza onde e quando esse conceito começou. Há uma discussão entre historiadores e arqueólogos sobre se a religião da Mesopotâmia inspirou a do Egito. Mas é provável que cada cultura tenha desenvolvido as suas próprias crenças para explicar fenômenos naturais e para ajudar a dar sentido à vida, como afirma a enciclopédia de história.

Entre mitos e antigas divindades, desde cerca de 3500 a.C. há registros reais de práticas religiosas. Sendo que a maioria das pessoas da Antiguidade, de acordo com os registros escritos e arqueológicos, acreditava em muitos deuses, cada um com uma esfera de influência. Assim, as mais antigas crenças se desenvolveram sendo politeístas.

Confira, a seguir, algumas das mais antigas religiões do mundo.

Uma escultura em terracota da deusa Inanna, 
também conhecida como Ishtar, da época da Mesopotâmia, 
datada de cerca de 2000 a.C. 
Atualmente a peça faz parte da Coleção Phil Berg, 
do Museu de Arte do Condado de Los Angeles, 
nos Estados Unidos. Foto de domírio público.

A religião da antiga Mesopotâmia era politeísta


O local em que se desenvolveu a civilização Mesopotâmica é hoje compreendida por Iraque, parte do Irã, Jordânia e arredores. Como já citado acima, não se sabe exatamente quando a primeira religião foi criada, mas os registros iniciais ligados à religião na Mesopotâmia são de 3500 a.C. na Suméria (parte mais ao sul dessa região), diz a WHE.

Segundo a WHE, as crenças religiosas da Mesopotâmia sustentavam que os seres humanos eram colaboradores dos deuses para conter as forças do caos. A ordem do início dos tempos foi criada a partir do caos pelos deuses e um dos mitos populares fala do grande deus Marduk, que derrotou Tiamat e as forças do caos para criar o mundo.

Além de Marduk, outra imporante divindade era Inanna, reverenciada como a deusa do amor, do sexo e da guerra. Ela era tão popular que sua adoração se espalhou para além da Mesopotâmia, se perpetuando por séculos em outros locais e com outros nomes.

Ela se tornou Ishtar para os acádios, Astarte para os fenícios, e foi associada à Afrodite dos gregos, à Ísis dos egípcios e à Vênus dos romanos.


No Egito Antigo, a religião trazia deuses, magia e vida após a morte


As crenças e práticas religiosas egípcias faziam parte da sociedade desde aproximadamente 3000 a.C., como afirma a Britannica. A prática religiosa dos egípcios era bastante ampla e sofisticada, englobava muitas áreas e combinava magia, oráculos, mitologia, ciência, espiritualismo, além da crença em um poder superior e na vida após a morte.

O rei tinha um status único entre a humanidade e as divindades, pois ele participava do mundo dos deuses e, por isso, mandava construir grandes monumentos funerários para a vida após a morte.

Para os egípcios antigos, as divindades mais importantes eram o Deus do Sol (que possuía vários nomes) e Osíris, o Deus dos Mortos e do submundo. Com sua esposa Ísis, Osíris tornou-se o principal deus egípcio no primeiro milênio a.C., quando a adoração solar estava em declínio, revela a Britannica.

Um painel esculpido nas cavernas de Udayagiri, 
em Madhya Pradesh, na Índia, do período Gupta (séculos 4 a 6 d.C.). 
As cavernas são santuários hindus escavados na rocha 
e esse painel mostra Vishnu como a encarnação de Varaha, 
com uma cabeça de javali. Na representação, 
o deus se ergue das águas cósmicas, derrotando o monstro-serpente 
e resgatando a deusa Bhudevi (terra), 
que se pendura em sua presa. 
Foto de Jean-Pierre Dalbãcra CC BY-SA 4.0

O Hinduísmo é uma das religiões mais antigas ainda presente na atualidade


Entre as religiões da Antiguidade que ainda são praticadas até os dias de hoje, o Hinduísmo é a mais antiga, afinal a Sanatana Dharma, como é chamada por seus adeptos, tem registros de fundação por volta de 2300 a.C., como explica a enciclopédia de história.

O Hinduísmo muitas vezes é visto como uma fé politeísta, mas na verdade, ele é henoteísta: ou seja, possui um deus supremo, Brahma, e todas as outras divindades são seus aspectos e reflexos, como Vishnu e Shiva.

Praticado inicialmente na Índia, essa religião possui milhões de deuses, desde aqueles muito conhecidos (como Krishna) até divindades locais menos populares, de acordo com a World History Encyclopedia. Seus muitos textos sagrados em sânscrito e em idiomas vernáculos serviram como veículo para difundir a religião em outras partes do mundo.

Um símbolo Faravahar em um Templo do Fogo do Zoroastriano em Yazd, no Irã. 
Esse é um dos símbolos adotados pelo Zoroastrismo e representa um guardião alado 
ou fravashi, um ser angelical dessa religião. Foto de Ninara CC BY-NC-SA 4.0

Os antigos persas praticavam o Zoroastrismo


Onde hoje está localizado o Irã, no antigo Império Persa, há cerca de 3 mil anos a.C. a população acreditava em uma crença politeísta com um deus supremo, Ahura Mazda, que comandava divindades menores, como Atar (deus do fogo), Mithra (deus do sol nascente), Hvar Khshaita (deus do sol pleno) e Anahita (deusa da fertilidade, da cura e da sabedoria).

Entre 1700-1000 a.C. o profeta Zaratustra (também conhecido como Zoroastro) teve uma revelação de Ahura Mazda após uma imersão em um rio na qual ele entendeu que esse deus era o ser supremo, criador do universo e que não precisava de outros deuses. A visão de Zoroastro se tornaria a religião do Zoroastrismo – uma das mais antigas que ainda é praticada atualmente, como explica o texto do site da National Geographic norte-americana intitulado “Heard ofzoroastrianism? The ancient religion still has fervent followers” (“Já ouviu falar do zoroastrismo? A antiga religião ainda tem seguidores fervorosos", em tradução livre).

De acordo com a Britannica, o zoroastrismo contém características monoteístas e dualistas (do bem e do mal) e é provável que tenha influenciado as outras principais religiões ocidentais que foram criadas muito depois, como o Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo.

Acima vemos o Yum Caax, um deus maia do milho. 
A escultura em relevo é moderna e foi inspirada 
nas descrições de um antigo hieróglifo maia. 
A peça está atualmente no Jardim Botânico de Teplice, 
na República Tcheca. Foto de SJu CC BY-SA 4.0

Maias e astecas: os povos mesoamericanos também tinham crenças seculares


Do outro lado do mundo, e descobertos séculos depois, na América Latina da Antiguidade, diferentes povos e impérios tinham suas próprias religiões desenvolvidas em cerca de 700 d.C. Os povos originários dessa região são milhares e com diversas crenças, mas os maias tinham sua fé bem definida, como conta a enciclopédia de história.

Para os maias, os deuses estavam presentes em todos os aspectos da vida. Como em outras culturas antigas, eles possuiam mais de 250 divindades, todas com sua própria esfera especial de influência que controlavam o clima, a colheita, ditavam o nascimento e a morte – e o conceito de vida após a morte era semelhante à dos mesopotâmicos.

Os maias acreditavam na natureza cíclica da vida, que todas as coisas que morrem simplesmente se transformam, e a vida humana fazia parte desse padrão. Por isso, realizavam cerimônias para lembrar os mortos e honrar seu espírito – algo ancestral ao que hoje é o “Dia de los Muertos” no México. Essa crença também era mantida por outras culturas mesoamericanas, como a dos astecas.

Vista do monte Filoppappos do famoso Partenon em Atenas, na Grécia 
(criado em 447-432 a.C.). O majestoso templo foi construído para abrigar 
uma estátua gigante da deusa Atena, padroeira da cidade. 
Foto de Andrew Griffith CC BY-NC-SA 4.0

As religiões da antiga Grécia e Roma


Os gregos, assim como outros povos antigos, acreditavam em vários deuses. A religião grega não é a mesma coisa que a mitologia grega, que trata de contos tradicionais, embora as duas estejam ligadas, como explica a Britannica. A religião grega durou mais de mil anos, desde a época do poeta épico Homero (provavelmente no século 9 a.C.) até o reinado do imperador Juliano (século 4 d.C.).

A crença grega se espalhou pelo Mediterrâneo e influenciou também o Império Romano, que adotou vários de seus deuses usando outros nomes. Os gregos consultavam suas divindades para assuntos variados que iam desde questões de Estado até decisões pessoais relacionadas a amor ou emprego.

Já em Roma, a adoração dos deuses estava ligada aos assuntos de Estado e acreditava-se que a estabilidade da sociedade dependia do quanto as pessoas reverenciavam os deuses e participavam dos rituais, conta a WHE.



Fonte:


Publicado 18 de dez. de 2024


** O texto foi feito por Juliane Albuquerque, Editora Assistente de National Geographic Brasil.

terça-feira, 5 de maio de 2026

CITAÇÕES: USE COMO EPÍGRAFE ESTE TEXTO DE JEROME K. JEROME



"É impossível desfrutar completamente da ociosidade se não se tiver muito trabalho para fazer. Não tem graça nenhuma não fazer nada quando não se tem nada para fazer. Então, desperdiçar tempo é meramente uma ocupação e bem cansativa. A ociosidade, como os beijos, para ser doce, tem de ser roubada. “ 

— Jerome K. Jerome (2 de maio de 1859 – 14 de junho de 1927), escritor e humorista inglês, in “Idle Thoughts of an Idle Fellow“ (1886) / “Devaneios ociosos de um desocupado”; tradução de Jayme da Costa Pinto.

sábado, 2 de maio de 2026

HUMOR: CAMBALACHE

 


Cambalache, de Mario Benedetti

(Charles Cundall - A Cup Tie at  Crystal Palace - 
Corinthians V Manchester City, 1926)

Aquele time de futebol, rio-platense (não darei mais detalhes, pois o que interessa aqui é a anedota, não o nome dos atores), chegou à Europa apenas 24 horas antes da sua primeira partida contra uma das mais prestigiosas equipes do Velho Continente (aqui também não darei maiores detalhes). Mal tiveram tempo para um breve treino, num estádio mais ou menos secundário, com um gramado desastroso.

Quando por fim entraram no verdadeiro campo (ou eld, como preferem alguns puristas), ficaram estupefatos com as colossais dimensões do estádio, com as arquibancadas lotadas e vociferantes, e também com a atmosfera gélida de um janeiro implacável.

Como de praxe, as duas equipes se alinharam para ouvir e cantar os hinos. Primeiro, logicamente, o dos locais, entoado pelo público e pelos jogadores, seguido de uma intensa ovação.

Depois foi a vez do nosso. A gravação era horrível, com uma desafinação realmente olímpica. Nem todos os jogadores sabiam a letra inteira, mas acompanharam pelo menos a estrofe mais conhecida. Um dos atletas, casualmente um atacante, embora se lembrasse do hino, resolveu cantar no lugar dele o tango “Cambalache”: “Que el mundo fue y será una porquería/ ya lo sé,/ en el quinientos seis/ y en el dos mil también.” Só na tribuna de honra, alguns poucos aplaudiram por obrigação.

Finda essa parte da cerimônia e antes do pontapé inicial, que esteve a cargo de um encarquilhado ator do cinema mudo, os jogadores rioplatenses rodearam o atacante rebelde e o repreenderam duramente por cantar um tango em vez do hino. Entre outros amáveis epítetos, eles o chamaram de traidor, apátrida, sabotador e cretino.

O incidente teve inesperadas repercussões no jogo. No início, os demais jogadores evitaram passar a bola para o sabotador, de maneira que este, para tomá-la, era obrigado a recuar quase até a linha defensiva e depois avançar muito, esquivando-se dos robustos adversários e passando-a em seguida (porque não era egoísta) a quem estivesse melhor colocado para chutar a gol.

Os europeus jogaram melhor, mas faltavam poucos minutos para o apito final e nenhum dos times conseguira vazar a meta adversária. E assim foi até os 43 minutos do segundo tempo. Foi então que o apátrida tomou a bola num rebote e empreendeu sua desafiante disparada rumo ao gol adversário. Penetrou na grande área e, já que até então seus companheiros haviam desperdiçado as boas chances que lhes dera, driblou dois zagueiros com três gingadas geniais e, quando o goleiro saiu espavorido tentando cobrir o ângulo, o cretino ameaçou chutar com a direita mas chutou com a esquerda, deslocando totalmente o pobre homem e introduzindo a bola num inalcançável canto da trave. Foi o gol da vitória.

A segunda partida aconteceu em outra cidade (não entro em detalhes), num estádio igualmente imponente e com as arquibancadas lotadas. Lá também chegou a hora dos hinos. Primeiro o do time da casa e depois o dos visitantes. Embora a trilha sonora seguisse por outro lado, os 18 jogadores, perfeitamente alinhados e com a mão direita sobre o peito, cantaram o tango “Cambalache”, cuja letra, esta sim, todos sabiam de cor.

Apesar da vitória também nessa partida (não me lembro do resultado exato), os indignados dirigentes resolveram cancelar a excursão europeia e multar todos os jogadores, sem exceção, acusando-os de traidores, apátridas, sabotadores e cretinos.



Benedetti, Mário

Correio do tempo / Mario Benedetti ; tradução Rubia Prates Goldoni. - Rio de Janeiro : Objetiva, 2011. Tradução de: Buzón de tiempo

quarta-feira, 29 de abril de 2026

CITAÇÕES: USE COMO EPÍGRAFE ESTA FRASE DE YASUNARI KAWABATA

 


“Quando a gente se apega demais aos mortos, se expõe a terminar acreditando que a gente mesmo não existe mais.”

 – Yasunari Kawabata, in “Mil Tsurus” (“Nuvens de pássaros brancos”); tradução de Paulo Hecker Filho.

domingo, 26 de abril de 2026

HISTÓRIA: A NAU DOS INSENSATOS

 Navio dos loucos 

(Stultifera Navis)

(Navio dos loucos, Hieronymus Bosch, ~1495)

O 'Navio dos loucos' ou a 'nau dos insensatos', é uma antiga alegoria que começa a aparecer na cultura ocidental, nas artes visuais e na literatura, entre os séculos XV e XVI, apresentando passageiros loucos num navio, que não sabem e nem se importam para onde vão.

Segundo o filósofo francês,Michel Foucault (1926-1984), em seu livro 'História da Loucura na Idade Clássica' (1972), o navio dos insensatos seria um símbolo da consciência viva do pecado e do mal na mentalidade medieval e nas paisagens imaginativas da Renascença, quando a loucura começa a assombrar a imaginação do homem ocidental.

Essa temática pode ser encontrada em diversas obras deste período, como nas pinturas 'Navio dos loucos’ de Hieronymus Bosch (~1490) e 'Margot a louca' de Pieter Brueghel (1564), e nas obras literárias 'Stultifera Navis' de Sebastian Brant (1494) e ‘Elogio da loucura’ de Erasmo de Roterdã (1509).

A pintura 'Navio dos Loucos', do artista holandês Hieronymus Bosch (1450-1516), feita em óleo sobre madeira, por volta de 1495, apresenta uma crítica, de forma alegórica, sobre os costumes da sociedade da época: a devassidão e a profanidade, inclusive no clero, o jogo e o álcool. Entre os protagonistas estão uma monja franciscana e um clérigo pobre e transgressor, que se encontram distraídos. Esta pintura foi feita num período de grande crise religiosa e social.


(Ilustração do Navio dos Tolos, Albrecht Dürer, 1494)

O livro 'A nau dos insensatos' (Stultifera Navis ou Narrenschiff), escrito por Sebastian Brant em 1494, apresenta críticas e ironiza a sociedade de seu tempo sob a forma de um longo poema satírico, revelando um panorama dos costumes do final do século XV: os seresteiros noturnos sendo repelidos da janela com o conteúdo dos pinicos, a falsificação de dinheiro e a adulteração do vinho, o mensageiro bêbado que não consegue se lembrar da notícia a ser transmitida, os fiéis que levam para a igreja seus cães perdigueiros e gaviões de caça, a mania de falar ofensas e lançar maldições, entre outros.

Na obra de Brant, um grupo de loucos embarca em uma nave para Narragônia, a terra prometida dos insanos, e, antes do naufrágio, chegam a Schlaraffenland, a terra da riqueza. A obra possui diversas ilustrações em xilogravura, numa delas se vê escrito "A nau dos insensatos - Rumo à Insensatolândia! - Sejamos todos alegres – Segui por aqui – A bordo! A bordo, irmãos! Vamos partir! Vamos partir!".


(A nau dos insensatos, Sebastian Brant, 1494)

Esta foi uma das primeiras obras ricamente ilustradas a ser impressa em língua alemã no século XV e uma das mais populares. Após sua primeira edição, impressa em 1494, a sátira de Brant sobre a insensatez humana tornou-se um "best-seller" europeu. Em 1574, mais de 40 edições do texto haviam sido feitas, incluindo traduções para o latim, o francês, o inglês, o holandês e o baixo-alemão.

O texto descreve uma viagem fictícia de 112 insensatos pelo mar, cada um representando um certo tipo de conduta humana. A sucessão de insensatos é liderada pelo leitor tolo: convencido de sua aprendizagem, ele está empenhado em espantar as moscas que zumbem em torno de sua mesa abarrotada de livros que ele não abre para ler.

Brant não critica tanto a insensatez, mas o fato de permanecer insensato por não reconhecer as próprias falhas. Uma das razões para o grande sucesso da obra foi, sem dúvida, as xilogravuras de alta qualidade que introduzem e complementam o texto. Entre os artistas que colaboraram com Brant nesta obra está o pintor e ilustrador Albrecht Dürer (1471-1528).

Nesta sua nave simbólica, o autor acolhe os loucos de todas as categorias e promove um desfile das fraquezas humanas. Uma das estrofes diz: "É melhor seguir sendo laico do que comportar-se mal dentro das ordens". Há muitas semelhanças entre o livro e a pintura de Bosch, e é bem possível que o pintor se tenha baseado no poema.

A nave dos loucos era tanto um tema pictórico como também uma prática social, onde os loucos eram retirados dos centros urbanos e embarcados para navegar sem rumo. A água era tida como meio de purificação da animalidade de uma natureza secreta do ser humano.

"A água e a navegação têm realmente esse papel. Fechado no navio, de onde não se escapa, o louco é entregue ao rio de mil braços, ao mar de mil caminhos, a essa grande incerteza exterior a tudo. É um prisioneiro no meio da mais livre, da mais aberta das estradas: solidamente acorrentado à infinita encruzilhada. É o Passageiro por excelência, isto é, o prisioneiro da passagem. E a terra à qual aportará não é conhecida, assim como não se sabe, quando desembarca, de que terra vem. Sua única verdade e sua única pátria são essa extensão estéril entre duas terras que não lhe podem pertencer." (Michel Foucault, em 'História da loucura na Idade Clássica')



Referências:

BRANT, Sebastian. A Nau dos Insensatos. São Paulo: Octavo, 2010.

FOUCAULT, Michel. História da Loucura na Idade Clássica. Trad.: José Neto. São Paulo: Perspectiva, 2017.
FRAYZE-PEREIRA, João. O que é Loucura. São Paulo: Brasiliense, 2002.




FONTE:


Autor: Bruno Carrasco

Professor de filosofia e psicologia, interessado na complexidade da experiência humana, refletindo sobre questões sobre a vida, dilemas e modos de existir a partir de uma lente filosófica, social e histórica. Busca caminhos criativos e libertários para experimentar e compor outros modos de viver, escapando de roteiros prontos e afirmando a diferença.

https://www.ex-isto.com/2020/01/navio-dos-loucos.html