domingo, 25 de outubro de 2026

HUMOR: "O AMIGO DA ONÇA", DE PÉRICLES

OS TRAÇOS E A PERMANÊNCIA DE PÉRICLES E DO AMIGO DA ONÇA


Dois caçadores conversam em seu acampamento:

— O que você faria se estivesse agora na selva e uma onça aparecesse na sua frente?

— Ora, dava um tiro nela.

— Mas se você não tivesse nenhuma arma de fogo?

— Bom, então eu a mataria com meu facão.

— E se você estivesse sem o facão?

— Apanhava um pedaço de pau.

— E se não tivesse nenhum pedaço de pau?

— Subiria na árvore mais próxima!

— E se não tivesse nenhuma árvore?

— Sairia correndo.

— E se você estivesse paralisado pelo medo?

Então, o outro, já irritado, retruca:

— Mas, afinal, você é meu amigo ou amigo da onça?”

Essa era uma das piadas mais populares do Brasil, nos anos 1940. Essa anedota foi além do riso e provocou um impacto profundo na vida de um pernambucano, Péricles de Andrade Maranhão.

Nascido em 14 de agosto de 1924, no Bairro do Espinheiro, zona norte do Recife, Péricles, desde cedo, demonstrou talento para desenhar. Leitor das histórias em quadrinhos de personagens como Dick Tracy, Agente Secreto X9 e Flash Gordon, o garoto vivia rabiscando.

Estudante do Colégio Marista, participou de um concurso para a Semana do Trânsito, organizado pelo escritor Souza Barros. Mesmo disputando com nomes já consagrados, o adolescente conseguiu alcançar o primeiro lugar. Encorajado pela vitória, levou seus desenhos ao Diário de Pernambuco e entusiasmou seu editor, Aníbal Fernandes.

Com apenas 17 anos, reuniu seus desenhos, enfrentou a timidez e arriscou uma viagem até à capital do país, com uma carta de recomendação de Aníbal Fernandes. No Rio de Janeiro, procurou Leão Gondim de Oliveira, diretor da então mais famosa publicação do país, O Cruzeiro.

No ano de 1942, Péricles publica as histórias de Oliveira, O Trapalhão, seu primeiro personagem, na revista O Guri e no Diário da Noite, ambos dos Diários Associados. Na tirinha, baseada no conceito da “piada de português”, o autor começa a utilizar figuras pitorescas do Rio, como o coadjuvante Laurindo, malandro carioca, de pele escura, com direito ao inevitável clichê “camisa listrada”.

No ano seguinte, Leão Gondim de Oliveira pensou em um personagem fixo para O Cruzeiro, a partir de um cartum de Guillermo Divito, Enemigos del Hombre, publicado na revista argentina Patoruzú. O editor já tinha até definido o nome: Amigo da Onça. Só faltava quem fizesse o desenho…

No Brasil, Zé Caipora (1869), do ítalo-brasileiro Angelo Agostini, era considerado o primeiro grande personagem do humor gráfico no país. Depois veio o Juca Pato (1929), do cartunista Belmonte, publicado na Folha da Manhã (atual Folha de S.Paulo). Com as vendas expressivas da revista em quadrinhos Tico-Tico (1907), cerca de 30 mil exemplares, Roberto Marinho, de olho no novo filão, lançou, em 1939, O Gibi, cujo êxito transformou a palavra que significa “moleque” em sinônimo de histórias em quadrinhos.

Frequentador de um bar na Rua Uruguaiana, foi lá que Péricles teve a inspiração para compor o Amigo da Onça. Um dos garçons que o servia costumava perguntar inconvenientemente o que o cliente estava desenhando na mesa. Certa vez, ouviu um comentário passivo-agressivo: “Você ganha dinheiro com esses rabiscos? Puxa, eu queria ter esse vidão!”

Péricles olhou para o homem e teve o estalo que precisava para criar o personagem: um sujeito de tamanho médio, olhos esbugalhados, bigodinho, cabelo preto impecável na brilhantina, paletó de linho branco, gravata borboleta e calça social preta. Nos cartuns, o Amigo da Onça poderia assumir qualquer profissão: barbeiro, médico, advogado, delegado ou apenas um grã-fino flâneur.

No início, O Amigo da Onça era publicado na última página. Mas a direção percebeu que o público chegava às bancas para ver o cartum da semana e descartava a compra. Então, a empresa resolveu realocar o desenho nas internas. Muitas dessas páginas foram arrancadas por leitores para serem emolduradas em bares, restaurantes, oficinas de automóveis e barbearias.

O êxito avassalador d’O Amigo da Onça não causava somente uma pontinha de inveja nos colegas desenhistas, mas, de alguma forma, no próprio Péricles. Afinal, o criador era menos conhecido do que sua criatura – quando alguém falava sobre o primeiro precisava mencionar o segundo. “Que Péricles? – “Péricles, d’O Amigo da Onça”.

O pernambucano morreu em 1961, ano em que o Brasil, pelas inovações em várias áreas, inclusive com a inauguração de Brasília um ano antes, imaginava entrar numa rota de desenvolvimento social, cultural, econômico e político. Mas estava nos últimos anos da primavera democrática pós-Estado Novo e prestes a entrar no inverno da ditadura militar a partir de 1964, quando os humoristas passaram a ser alvos de perseguição e censura.





















Fonte:

Texto Débora Nascimento

Débora Nascimento é editora-assistente das revistas Pernambuco e Continente.

Data 01 de agosto de 2024

Nota do blog: o texto acima é só um excerto do original, que pode ser lido neste endereço:








sexta-feira, 16 de outubro de 2026

ARTES PLÁTICAS: CÂNDIDO PORTINARI - OS RETIRANTES

 RETIRANTES DE PORTINARI: 

ANÁLISE DA OBRA

Retirantes é uma pintura feita em 1944 pelo artista brasileiro Cândido Portinari. Foi produzida com a técnica de óleo sobre tela, possui dimensão de 180 x 190 cm e encontra-se no Museu de Arte de São Paulo (MASP).

Nessa obra, Portinari aborda o tema da migração nordestina, triste realidade de uma parte da população brasileira, que deixa seu lugar de origem em busca de melhores condições de vida em outras partes do país.

retirantes portinari

Retirantes (1944), de Portinari, 

não foi a única obra do artista 

cujo tema é o êxodo rural nordestino

Análise detalhada da obra Retirantes

A pintura exibe uma família de retirantes, emigrantes nordestinos que estão se deslocando de sua terra a fim de fugir da seca, fome, miséria e falta de perspectiva.

O pintor retratou o grupo (quatro adultos e cinco crianças ao todo), de maneira sombria e triste. A paleta de cores escolhida exibe tons terrosos, o que dá ênfase à atmosfera fúnebre que envolve a cena.

As pessoas tomam grande parte da composição e ao fundo temos uma paisagem seca e sem vida.

Os corpos, muito magros, traduzem a fome daquele povo e as expressões nos rostos dão conta de expor o desespero daqueles que lutam pela sobrevivência em um país tão desigual.

Sobre a função social da arte, Portinari disse certa vez:

Estou com os que acham que não há arte neutra. Mesmo sem nenhuma intenção do pintor, o quadro indica sempre um sentido social.

A fim de esmiuçar os detalhes dessa grande obra, selecionamos algumas áreas da tela. Confira:

análise da obra retirantes

Áreas destacadas de Retirantes, para análise

1. Crianças de colo

As crianças são personagens importantes na obra e estão, inclusive, em maioria.

As duas crianças de colo exibem aparência fantasmagórica. O bebê, envolto em panos brancos, tem olhos que saltam, observando o mundo assustado.

crianças de colo retirantes

A outra, maior, está apoiada nas ancas da mãe, e exibe uma estrutura raquítica, com os ossos à mostra. Além disso, ela está nua, o que deixa ainda mais evidente a falta de recursos dessa família.

Elas expõem também a alta taxa de natalidade da população carente brasileira.

As famílias mais vulneráveis e menos instruídas acabam gerando mais filhos, isso ocorre em grande parte por conta da falta de políticas públicas de conscientização e acesso a meios contraceptivos.

2. Criança com barriga d'água

Outra triste realidade tratada na pintura é o alto índice de doenças a que essas pessoas estão expostas, sobretudo a população infantil.

Nessa área da tela, vemos um menino bem magro, mas que exibe uma enorme barriga redonda.

retirantes - criança com barriga d'água

Essa característica é sintoma da esquistossomose, uma enfermidade muito comum entre os moradores da área rural que não tem acesso ao saneamento básico.

Nas fases crônicas, a doença produz o aumento do abdômen, que gera o que chamamos de barriga d'água.

3. Urubus sobrevoando

Portinari traz uma cena em meio à natureza, mas não com uma paisagem bela e inspiradora, e sim, com um panorama desolador.

retirantes - urubus sobrevoando

Isso é notório por conta de vários elementos, dentre eles, os pássaros negros que sobrevoam a família. Percebe-se que essas aves são urubus, que costumam estar sempre em bando em busca de carcaças de animais.

Aqui também há a presença de um homem idoso, com as barbas longas e o rosto marcado pela dureza da vida.

4. Solo seco e pés descalços

O solo da paisagem é árido, não apresentando nenhum indício de vegetação.

As pessoas estão todas descalças, o que nos traz mais elementos que indicam a pobreza, traz também a reflexão sobre a dureza na jornada dos retirantes, tanto fisicamente como emocionalmente.

retirantes - solo seco e pés descalços

Há ainda alguns ossos pelo chão, sinal de que algum animal se decompôs ali. Nessa área da tela, no canto superior, à esquerda, vemos um bando de urubus rente ao solo, representados por alguns pontos pretos. Esses pássaros estariam comendo restos de animais.

5. Expressões de desespero

Os adultos revelam feições assustadas, que demonstram o imenso desespero e falta de perspectiva que a situação carrega.

O homem nos encara com olhar arregalado, como se fosse uma espécie de pedido de ajuda.

retirantes - expressões de desespero

Esse fato ajuda a transportar a obra para uma categoria de "retrato", fazendo um diálogo com a fotografia e elevando o quadro a um retrato também do sofrimento de um povo.

Quem foi Cândido Portinari?

Cândido Portinari foi um artista plástico importante brasileiro. Nasceu em 30 de dezembro de 1903 no interior de São Paulo, na cidade de Brodwski.

cândido portinari

Autorretrato (1956), à esquerda. Ao lado vemos uma fotografia do artista

Sua trajetória artística inclui pinturas, desenhos e grande painéis, reunindo mais de 5 mil obras.

Aos 50 anos, Portinari foi diagnosticado com intoxicação por chumbo devido ao contato com as tintas. Mesmo enfermo, ele não deixou de produzir.

Falece aos 58 anos, em 6 de fevereiro de 1962 em decorrência da doença e nos deixa um trabalho muito significativo.

FONTE:

Autoria: Laura Aidar

Arte-educadora, artista visual e fotógrafa. Licenciada em Educação Artística pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e formada em Fotografia pela Escola Panamericana de Arte e Design.

https://www.todamateria.com.br/retirantes-candido-portinari/

 

domingo, 11 de outubro de 2026

CITAÇÕES: USE COMO EPÍGRAFE ESTA FRASE DE ROBERT A. HEINLEIN

 


“O pescoço de um monarca deve ter sempre um laço de carrasco em volta do pescoço – para mantê-lo na postura certa”. 

– Robert A. Heinlein, in “O gato que atravessa paredes – uma comédia de costumes”; tradução de Ruy Jungmann.

terça-feira, 6 de outubro de 2026

AILUROFILIA: UMA PINTORA HOLANDESA DO SÉCULO XIX

 
OS GATOS DE HENRIËTTE RONNER-KNIP (1821–1909)


Henriëtte Ronner-Knip foi uma pintora holandesa mais conhecida por suas representações românticas de animais. As pinturas de Ronner-Knip são caracterizadas por suas pinceladas de penas e cores quentes, que emprestam um senso de emoção às suas representações de cães e gatos, representados brincando ou dormindo em cenas domésticas. Nascida em 31 de maio de 1821 em Amsterdã, Holanda, em uma família de pintores, seu pai deu a Ronner-Knip suas primeiras aulas. O artista também é conhecido por ter pintado vários retratos reais, incluindo os cachorros de colo de Marie Henriette da Áustria e a princesa Marie de Hohenzollern-Sigmaringen. O trabalho de Ronner-Knip está principalmente em coleções particulares, mas também pode ser encontrado no Rijksmuseum em Amsterdã e na National Gallery em Londres. A pintora ficou conhecida por transformar cenas simples do cotidiano dos felinos em pinturas extremamente detalhadas. No início da carreira, porém, seus principais temas eram animais rurais e cães. Com o tempo, os gatos passaram a ocupar um lugar central em sua obra. Para estudar seus movimentos, Ronner-Knip mantinha os animais por perto enquanto trabalhava, observando cuidadosamente como dormiam, brincavam e se limpavam. E isso aparece em suas pinturas. Seus gatinhos não ficam simplesmente parados posando. Eles derrubam objetos, brincam com tecidos, exploram móveis, descansam sobre almofadas e transformam ambientes elegantes em verdadeiros parques de diversão. A artista prestava atenção aos menores detalhes: os bigodes delicados, o brilho dos olhos, a textura dos pelos e, principalmente, as diferentes personalidades dos animais. Seu talento conquistou colecionadores e membros da realeza europeia, tornando-a uma das mais conhecidas pintoras de animais de sua época. Mais de um século depois, suas obras continuam familiares para qualquer pessoa que já tenha convivido com um gato. Porque os móveis e as roupas mudaram — mas a curiosidade dos gatos continua exatamente a mesma. Ela morreu em 28 de fevereiro de 1909 em Bruxelles, Bélgica. Uma galeria de gatos, para os ailurófilos (gateiros) se deliciarem:















Fontes (para o texto):


segunda-feira, 21 de setembro de 2026

FOTOGRAFIA: ROBERT DOISNEAU


UM OLHAR OBLÍQUO/UM OLHAR DE LADO: ROBERT DOISNEAU



Un Regard Oblique, também Le Regard Oblique, a fotografia acima, é do ffotógrafo francês Robert Doisneau, de 1948. Ela mostra um homem e uma mulher observando pinturas na vitrine de uma vitrine que pertencia à joja de antiguidades de Robert Miquel, conhecido como Romi, que também trabalhava como repórter para a Paris Match e era amigo de Robert Doisneau. A loja ficava no número 15 da Rue de Sein, no 6º arrodissement de Paris.

A fotografia foi publicada na edição de 23 de maio de 1949 da revista Life , na seção fixa "Falando de Imagens...", juntamente com outras oito fotografias de Doisneau. Sete delas mostram o mesmo tema, mas com pessoas diferentes olhando para a vitrine. A oitava fotografia mostra uma multidão em frente à loja. O título da série fotográfica é "Pintura provoca reações intensas na margem esquerda de Paris". " Um Olhar Oblíquo" é a última fotografia da seção e, além daquela da multidão, é a única com legenda. Ela é intitulada "A atenção de um casal que olha a vitrine está dividida. A esposa discute atentamente a pintura central, mas os olhos do marido já estão vagando". O texto que acompanha a matéria explica o contexto das fotografias. Afirma que o dono da loja de antiguidades havia colocado duas pinturas em sua vitrine. A pintura do meio retrata uma mulher nua entrando na banheira. A pintura na parede tem 50 anos e foi feita por um artista desconhecido chamado Wagner. No entanto, o dono da loja logo percebeu que o quadro colocado de forma menos visível na parede atraía muito mais atenção dos transeuntes. O fotógrafo Robert Doisneau observou isso e, portanto, posicionou sua câmera atrás da vitrine da loja para capturar a surpresa e a confusão de seus compatriotas ao verem o quadro.

As demais fotos da série: 









Robert Doisneau ajudou a construir o imaginário romântico parisiense. “Le Baiser de l'Hôtel de Ville” (em tradução livre, “O Beijo do Hôtel de Ville”), uma das fotos mais reproduzidas do século 20, ilustra um beijo apaixonado, em 1950, porém ensaiado na capital da França, revelou Francine Deroudille, filha do fotojornalista. Ele passeava pelas ruas de Paris com uma câmera em mãos, sempre registrando os movimentos urbanos e as belezas corriqueiras do cotidiano. Apesar da imagem transbordar naturalidade e intimidade, como se os espectadores pudessem espiar um momento de conexão amorosa entre dois amantes, não é tão espontânea como parece .“A foto foi tirada na primavera de 1950. O agente do meu pai havia proposto uma série sobre 'os amantes de Paris' para publicações americanas, e a revista Life a encomendou”, relembrou Francine, em entrevista à BBC.

A fim de evitar problemas legais por direitos de imagem, ele fotografava amigos ou atores para as reportagens encomendadas. Para produzir essas fotos românticas, o parisiense saiu com os estudantes de teatro apaixonados Françoise Bornet (na época, com o sobrenome de solteira “Delbart”) e Jacques Carteaud e deixou-os à vontade. "Não posavam. Doisneau simplesmente os flagrava flertando e se beijando, de uma forma muito natural", descreveu. O clique perfeito veio em meio a um beijo apaixonado em frente à prefeitura da cidade. O contraste é curioso: parisienses caminham indiferentes ao gesto de carinho; carros trafegam pela rua e o movimento continua na capital da França. É um momento sensível apenas para os pombinhos "clicados", sugere a foto. A fotografia foi publicada na Life em 1950, porém caiu no esquecimento pelos 30 anos seguintes.

Professor de fotografia e fotojornalismo na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), Weiler Finamore Filho descreve que Doisneau já era um profissional de referência quando foi chamado para produzir o clique romântico. "Tinha fotos incríveis e era conhecido por ser um fotógrafo do cotidiano e da rua", reconhece.