quarta-feira, 16 de setembro de 2026

SOCIEDADE: A POLÊMICA RELAÇÃO ENTRE FRIDA KAHLO E DIEGO RIVERA

A APAIXONADA E ABERTA RELAÇÃO DE FRIDA E DIEGO


21 de agosto de 1929. Um casamento simples, após um curto namoro. Ela, Frida Kahlo, tem 22 anos. Ele, Diego Rivera, 43. Nas mesas, há sopa de ostras, arroz com banana, pimentões recheados, mole negro, pozole vermelho. Ao redor, decoração colorida e um punhado de amigos: artistas, fotógrafos e militantes do Partido Comunista.

De repente, surge a ex-mulher dele, Lupe Marín, para levantar a saia da noiva e mostrar suas pernas, uma mais magra que a outra, uma sequela da espinha bífida, de que ela padecia. “Olhe para esses dois pauzinhos. É o que Diego tem em vez de pernas”, grita bem alto. O episódio define o tom do que seria daquele dia em diante um relacionamento tempestuoso e fascinante entre os dois grandes artistas mexicanos.

As vidas do Elefante e da Paloma (pomba), como eram chamados por sua grande diferença de tamanho, se entrelaçaram por 25 anos. Durante todos eles, haveria dois casamentos, um divórcio e um sem-número de infidelidades e escândalos que deliciavam a imprensa da época. Em seu último livro, Heridas. Amores de Diego Rivera, a escritora Martha Zamora reconstrói a vida das mulheres que compartilharam a vida com o famoso pintor. Reconstruímos com Zamora a apaixonada relação de Frida e Diego a partir de cartas, depoimentos, fotografias e obras de arte.

“Diego é bom para mim e me ama (até agora) bastante”, dizia Frida Kahlo à mãe em uma carta enviada em 1931 dos Estados Unidos, onde os recém-casados moraram por alguns anos. Mas os casos de Rivera já haviam começado.

Quando Alberto Veraza Uthoff, enteado da irmã de Frida, foi visitar o casal em Nova York, encontrou a pintora furiosa. “Estava muito irritada, dizendo grosserias porque Diego tinha ido a Detroit com outra senhora e a havia deixado sozinha”, disse em uma entrevista à escritora Martha Zamora.

Ione Robinson, uma das assistentes norte-americanas nos murais de São Francisco em 1930, foi uma dessas muitas amantes que o teriam acompanhado – algumas por horas, outras por dias. Eram jovens pintoras de “talento sobrenatural”, dirá Frida em uma carta anos depois; talento que “está sempre em razão direta da temperatura de suas partes de baixo”, acrescentava. Enquanto isso, naqueles anos de casamento nos Estados Unidos, Frida teria o primeiro de seus abortos. A dor das traições e a infertilidade marcariam sua obra.

Para quem conhecia Diego, suas aventuras não eram uma surpresa: 20 anos mais velho que Frida, chegou a ela depois de viver dez anos em Paris com a artista Angelina Beloff, a quem traiu com a cubista Marevna Vorobev – com quem teve uma filha não reconhecida. “Depois, ele a abandonou para voltar ao México, onde se casou com Lupe Marín e teve duas filhas”, diz Zamora.

O triângulo amoroso, neste caso, se formou com a fotógrafa ítalo-americana Tina Modotti. Mas Frida era “a mais maravilhosa”, segundo Diego. “Tive a sorte de amar a mulher mais maravilhosa que já conheci. Ela era poesia e a própria genialidade”, disse Diego sobre Frida em uma entrevista a Elena Poniatowska. “Infelizmente, eu não soube amar somente a ela, porque sempre fui incapaz de amar uma única mulher”, confessou.

Frida pintou, em 1931, uma tela que retratava o casal: 
transposição da vida real para as artes era comum na obra da artista mexicana

De volta ao México, os Riveras se mudaram em 1934 para o bairro de San Ángel, para duas casas ligadas por uma ponte na altura do telhado, que ele havia encomendado ao arquiteto Juan O'Gorman. Era um símbolo da autonomia e codependência dos gênios criativos. Ali aconteceria a maior traição do mestre. Frida havia convencido Diego a contratar sua irmã Cristina Kahlo como secretária e que ela posasse nua para a obra O Conhecimento e a Pureza. A proximidade resultou em um caso. Frida deixou a casa-estúdio e Diego.

Unos cuantos piquetitos

Umas Facadinhas de Nada, obra com uma mulher com várias facadas, em uma cama, é o testemunho comovente da dor de Frida Kahlo pela traição do marido com sua irmã Cristina. Em 1935, Frida concorda em voltar para Rivera porque o quer “mais do que a própria pele” – confessa em uma carta. Há quem acredite que se iniciou então um pacto de aceitação de aventuras. Embora ele explodisse de ciúmes, por exemplo, quando descobre o romance dela com o escultor Isamu Noguchi (1936). Dizem que, com uma arma na mão, os obrigou a se separarem.


Leon Trótski, o político e revolucionário russo refugiado no México, foi outro dos amores de Frida (1937), que cartas apaixonadas comprovam. Mas a grande fraqueza de Frida por quase uma década foi um fotógrafo de origem húngara de Nova York, que faria seus melhores retratos em cores. “Oh, meu caro Nick, te amo muito. Preciso tanto de você, meu coração dói “, ela escreve em uma de suas muitas cartas a Nickolas Muray.

Em 1939, Frida viaja para Nova York, cidade onde Muray está, e depois para a Europa. Enquanto isso, no México, Diego cai aos pés da pintora húngara Irene Bohus e da bela atriz norte-americana Paulette Goddard. É ele quem pede o divórcio, que se concretiza em 6 de novembro de 1939.

O médico Heinz Berggruen, com quem Frida viveu um mês de romance no Hotel Barbizon Plaza, em Nova York, conta que ela logo quis voltar para Diego. “Quanto mais tempo passávamos juntos, mais perceptível ficava o seu vínculo com ele. Tive que reconhecer que para ela nosso relacionamento não passava de um episódio”, diz Berggruen (Frida Kahlo, por Linde Salber).

Frida produz dezenas de pinturas após o divórcio, mas não consegue vendê-las. Cai em depressão e no álcool. “Diego me fez sofrer tanto que não pude perdoá-lo facilmente, mas ainda o amo, mais do que a minha vida, e ele sabe disso, e por isso age assim”, confessa Frida à atriz Dolores del Río em uma carta.

Frida e Diego se casam novamente em 8 de dezembro de 1940, após o assassinato de Trótski. Em seu segundo casamento com Rivera, Frida impõe regras: não haverá sexo. Serão cúmplices e amigos. “Está claro que Diego precisava de Frida tanto como Frida precisava dele”, diz a escritora e biógrafa Linde Saber.

A lista de rumores de amantes de ambos os lados se torna extensa. Diego sairá com a artista Rina Lazo. Frida vive um romance intenso e secreto com o pintor espanhol Josep Bartoli. E acredita-se que também com mulheres, como Chavela Vargas. “Extraordinária, lésbica, além do mais, a desejei eroticamente.” É assim que a artista a descreve em uma carta ao poeta Carlos Pellicer. Mas suas obras mostram dor diante das aventuras do marido.

Quando se prepara uma exposição em homenagem a Diego Rivera em 1949 no Instituto Nacional de Belas Artes, o mestre apronta outra das suas: “Dei outro desgosto a Frida. Eu me apaixonei pela atriz de cinema María Félix “, conta ele mesmo. Frida “sofreu inutilmente”, diz Diego: a exuberante María Félix nunca quis se casar com ele. A própria Frida enviará a ela uma carta decorada com desenhos de pombos pedindo que aceite a proposta de casamento do marido”, diz Martha Zamora.

Ele a esperaria no aeroporto da Cidade do México com um buquê de flores, em cada visita. Há quem diga que houve um triângulo entre Frida, Diego e María, que ficava na Casa Azul com os dois por longas temporadas. E que a artista oscilava entre os carinhos e o ciúme com as mulheres do marido. Ela pintou no quarto ao lado do estúdio: “Quarto de María Félix, Frida Kahlo e Diego Rivera”, com outros nomes de mulheres próximas ao mestre.

Diego trabalhava, como sempre, sete dias por semana, dezenas de horas por dia, em murais, desenhos e cavaletes. E visitava todos os dias a comerciante Emma Hurtado, que mais tarde se tornaria sua última mulher. Frida Kahlo morreu em 13 de julho de 1954, sozinha, na Casa Azul. “Espero alegre a saída e espero nunca mais voltar” foi seu último escrito. “Foi o dia mais trágico da minha vida. Perdi minha amada Frida para sempre”, recordaria Diego Rivera em uma entrevista a Gladys March.

Diego reconhece os tormentos de Frida em um relato despojado a March, e ensaia um mea culpa. “Tarde demais percebi que a parte mais maravilhosa da minha vida tinha sido meu amor por Frida, embora realmente não pudesse dizer que, se tivesse outra oportunidade, eu me comportaria com ela de maneira diferente. Todo homem é um produto da atmosfera social em que cresce e eu sou quem sou. Não tive nunca moral alguma e vivi apenas para o prazer, onde quer que o encontrasse […] Se amava uma mulher, quanto mais a amava, mais desejava magoá-la. Frida foi apenas a vítima mais óbvia desta desagradável característica da minha personalidade.”

























Fonte:

Autora: Pamela Subizar

Publicado em 27/08/2019; Editado em 13/12/2019


quarta-feira, 9 de setembro de 2026

CITAÇÕES: USE COMO EPÍGRAFE ESTA FRASE DE ROBERT A. HEINLEIN

 


“Nunca apanhe um gatinho perdido... a menos que já tenha resolvido que ele vai ser seu dono” 

- Robert A. Heinlein, in “O gato que atravessa paredes – uma comédia de costumes”; tradução de Ruy Jungmann.

terça-feira, 8 de setembro de 2026

FAKE NEWS: LINCHAMENTO DE FABIANE MARIA DE JESUS

 LINCHAMENTO DE FABIANE MARIA DE JESUS


Fabiane Maria de Jesus

Participantes: Moradores do bairro de Morrinhos IV

Localização: Guarujá,  São Paulo, Brasil

Data: 3 de maio de 2014

Fabiane Maria de Jesus foi uma mulher linchada por moradores do bairro de Morrinhos IV, na periferia do município de Guarujá, no litoral do estado brasileiro de São Paulo, em 3 de maio de 2014.[1] A mulher tinha 33 anos, era uma dona de casa casada, mãe de duas crianças e morava no bairro em que foi espancada e assassinada. O linchamento ocorreu porque a vítima foi confundida com uma suposta sequestradora de crianças, cujo retrato falado que havia sido feito dois anos antes, passou a circular nas mídias sociais. O fato causou forte comoção nacional, principalmente por ter sido motivado por notícias falsas, disseminadas pelas redes sociais. Foi a vigésima morte por linchamento no Brasil, no ano de 2014.[2]

O Brasil está entre os países onde mais acontecem linchamentos no mundo. Segundo o Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (USP), ocorreram 1.179 linchamentos no Brasil entre 1980 e 2006.[3] Segundo o livro Linchamentos: A justiça popular no Brasil (Ed. Contexto, 2015), do sociólogo José de Souza Martins, ocorrem quatro linchamentos e tentativas de linchamento por dia no país e cerca de um milhão de brasileiros participaram de linchamentos nos últimos 60 anos.[4] O perfil da vítima de linchamento é similar ao das vítimas de homicídio: 95% são homens e a maior parte tem entre 15 e 30 anos. Em geral, tanto linchadores quanto linchados são pobres, habitantes de regiões carentes e periféricas, tanto em cidades grandes quanto pequenas, onde o Estado é pouco presente.[3] Segundo Martins, o principal motivo que leva as pessoas a participarem de linchamentos é justamente a falta de confiança nos poderes do Estado.[4]

A partir do advento das redes sociais, estas vêm sendo usadas para difundir boatos que levam aos linchamentos o que, segundo Martins, mostra um descompasso entre o avanço tecnológico e a mentalidade retrógrada de quem usa as redes sociais.[4] Para Ariadne Natal, doutoranda em sociologia da USP, sempre que um caso é repercutido nacionalmente, ocorre um "um efeito de "espelhamento", as pessoas se sentem compelidas a fazer o mesmo se deparadas com uma situação semelhante".[3] Segundo ela, a mídia, na maioria das vezes, aceita os linchamentos como algo natural.[3] Pouco antes de Fabiane ser linchada, a âncora do SBT Brasil, Rachel Sheherazade, defendeu o linchamento de um adolescente acusado de cometer um furto no Rio de Janeiro. Segundo ela, "num país que sofre de violência endêmica, a atitude dos vingadores é até compreensível".[5] Após o linchamento de Fabiane, Sheherazade foi apontada como responsável, em partes, pelo crime por colegas de profissão como Ricardo Boechat e Laura Capriglione e acadêmicos.[6]

Um boato de que uma mulher estaria sequestrando crianças para realizar rituais de "magia negra" na cidade se espalhou pela internet (principalmente em redes sociais). Posteriormente, foi divulgado online um retrato falado que passou a ser associado com o hipotético sequestro de crianças. No entanto, a representação gráfica da mulher era, na verdade, um retrato que havia sido feito por agentes da Polícia Civil do Rio de Janeiro por conta de um crime que havia acontecido dois anos antes do assassinato de Fabiane a muitos quilômetros de distância do local do linchamento. A polícia local também afirmou que não tinha qualquer registro de acontecimentos desse tipo no município do Guarujá.[7]

No dia 3 de maio de 2014, os moradores do bairro confundiram Fabiane com a suposta criminosa dos rumores depois que a dona de casa ofereceu uma fruta, que havia comprado pouco antes, para uma criança que estava na rua. A mãe do menino presenciou a cena e acreditou que Fabiane fosse a suposta sequestradora, o que desencadeou um processo de fúria coletiva que culminou no linchamento da mulher por cerca de 100 pessoas; outras mil presenciaram as violentas agressões.[8] Além disso, Fabiane estava carregando um livro preto, na verdade uma Bíblia, que foi logo associado ao satanismo pelos agressores.[4]

Cinco dos envolvidos no linchamento foram presos.[9] Lucas Rogério Fabrício Lopes, um dos homens acusados, foi condenado a 30 anos de prisão por homicídio qualificado e também deverá pagar uma indenização de 550 mil reais à família de Jesus. Na sentença, o juiz Edmundo Lellis Filho diz que as circunstâncias do crime revelam uma "barbárie atípica". O documento também afirma que o Lopes, ao liderar o linchamento de Jesus, demonstrou uma "afinidade com a monstruosidade"."No seu falar e agir, o acusado não revelou qualquer empatia com os ofendidos por seu ato, nem deixou ver o mais leve verniz de remorso", afirmou o juiz.[10]



Referências

1. G1, ed. (6 de maio de 2014). «Preso primeiro suspeito por linchamento de mulher em Guarujá». Consultado em 8 de maio de 2014

2. Correio Braziliense, ed. (6 de maio de 2014). «Mulher morta em linchamento é a 20ª vítima de "justiçamentos" só neste ano». Consultado em 8 de maio de 2014. Arquivado do original em 13 de novembro de 2014

3. Puff, Jefferson. "'Quem lincha sabe que tem respaldo social no Brasil', diz pesquisadora". BBC. 24 de julho de 2015.

4. Paiva, Thais. O Brasil dos linchamentos. Carta na Escola. Edição 95, de abril de 2015.

5. Correio da Bahia, ed. (6 de maio de 2014). «Boechat alfineta Rachel Sheherazade após linchamento de mulher por boato: 'tem responsabilidade'». Consultado em 25 de janeiro de 2016

6. Comunique-se, ed. (6 de maio de 2014). «Jornalistas e internautas culpam Rachel Sheherazade por linchamento de mulher». Consultado em 25 de janeiro de 2016

7. Portal Terra, ed. (6 de maio de 2014). «'Foto era idêntica', alega preso por linchamento em Guarujá». Consultado em 8 de maio de 2014

8. O Estado de S. Paulo, ed. (7 de maio de 2014). «Dona de casa foi linchada no Guarujá após oferecer fruta a criança». Consultado em 8 de maio de 2014

9. A Tribuna, ed. (6 de julho de 2014). «Marido publica mensagem em rede social lembrando morte de dona de casa». Consultado em 25 de julho de 2014

10. Da redação (5 de outubro de 2016). «Acusado de linchar dona de casa em Guarujá é condenado a 30 anos». Folha de S. Paulo. Consultado em 5 de outubro de 2016


Fonte:  

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

MÚSICA: VIELA DE RODA

 



VIELA DE RODA



A viela de roda (vihuela de roda em espanhol; vièlle à roue em francês; hurdy-gurdy em inglês; ou sanfona, termo utilizado em Portugal) é um instrumento muito peculiar da família do violino, pois é o único cujo som é produzido a partir do girar de uma manivela.

É formada por uma caixa de ressonância na qual se encontra uma roda de madeira resinada que é rotacionada a partir de uma manivela girada pelo músico. Além disso, possui um largo braço que abriga um teclado que, ao ser tocado, aciona pequenas tangentes de madeira.



As cordas da viela de roda são normalmente seis e podem emitir 3 tipos diferentes de som: sons graves e contínuos semelhantes aos da gaita de foles (bordões); sons médios e agudos semelhantes aos do violino (melódicos); e sons agudos e percussivos, como os de um zumbido.

Como funciona?

Para se tocar a viela de roda, o músico, com uma das mãos, define as notas musicais pressionando o teclado que aciona as tangentes, alterando o comprimento vibrante da corda. Com a outra mão, gira a manivela fazendo rotacionar a roda do instrumento que fricciona as cordas e as fazem vibrar, produzindo, assim, o som.


Um pouco de história...


A viela de roda é um instrumento medieval essencialmente popular, cuja origem remonta provavelmente ao século XI, na Península Ibérica. Durante o século XVII foi utilizada nos salões de Paris e atualmente ainda é usada em toda a Europa, sobretudo na Central.

Embora em Portugal seja conhecida como sanfona, um documento alfandegário do Rio de Janeiro do final de século XVIII sugere que a viela de roda também foi conhecida no Brasil e em Portugal por gaita de roda.

Ouça o instrumento neste endereço do YouTube:




Fonte:


https://musicabrasilis.org.br/pt-br/instrumentos/viela-de-roda/

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

CITAÇÕES: USE COMO EPÍGRAFE ESTE TEXTO DE MICHAEL SHERMER

 

“[...] há princípios morais pelos quais podemos construir um sistema ético secular. Estes princípios não são absolutos (sem exceções), nem tampouco são relativos (vale tudo). Eles são provisionais -- verdadeiros para a maioria das pessoas na maioria das circunstâncias a maior parte do tempo. Sempre que possível, as questões morais devem ser sujeitas ao escrutínio científico e racional, tanto quanto as questões da natureza são sujeitas ao escrutínio científico e racional.”

– Michael Shermer, in O Enigma da Ética sem Religião; publicado originalmente em Skeptic, vol. 4, n.º 2, 1996; tradução de Rodrigo Farias)

sábado, 29 de agosto de 2026

FOTOGRAFIA: PIERRE VERGER

REGISTRO DE ENTRADA DE PIERRE VERGER NO BRASIL 
SOB A GUARDA DO ARQUIVO NACIONAL

Pierre Verger; 1952: autorretrato

O acervo do Serviço de Polícia Marítima e de Fronteira (SPMAF), sob a guarda da Coordenação Regional do Arquivo Nacional em Brasília, guarda o registro de entrada no Brasil, em 1946, do fotógrafo, etnólogo e babalaô francês, Pierre Edouard Léopold Verger.

Pierre Verger - Porto dos Saveiros, Salvador, Brasil-1946-1950

Pierre Verger nasceu em Paris, em 1902, em uma típica família burguesa. Com seu pai, Leopold Verger, empresário belga das artes gráficas, sua mãe, Marie Adéle Samuel, e mais dois irmãos, residiam no luxuoso distrito 16. Em 1932, com a morte da mãe, tornou-se o único descendente da família, pois os seus irmãos faleceram prematuramente, e o pai, no ano de 1915. Assim, aos 30 anos de idade, Verger abandonaria o destino traçado por seus pais e se reinventa, seguindo para as Ilhas do Pacífico e encontrando uma nova profissão: a de fotógrafo. Verger foi um dos associados da famosa agência Alliance Photo , fundada em Paris, em 1934. Viajou por diferentes regiões do mundo durante muitos anos, reunindo uma vasta documentação e realizando um importante trabalho fotográfico, desde o registro de paisagens, tipos humanos das mais distintas origens, hábitos, costumes e rituais religiosos.

Pierre Verger - Pai Balbino de Xangô; Salvador - Bahia - Brasil; 1972-1973

Segundo os documentos do Arquivo Nacional, em pleno pós-guerra, em 13 de abril de 1946, Verger desembarcou na cidade de Corumbá. Três dias depois, estava em São Paulo para encontrar o professor francês Roger Batiste, ocupante da cátedra de Sociologia no Departamento de Ciências Sociais da Universidade de São Paulo - USP, vaga ocupada anteriormente pelo antropólogo Claude Lévi-Strauss. Batiste e Verger realizaram numerosos trabalhos em parceria. Ao estabelecer residência no Rio de Janeiro, Verger foi contratado pela maior revista do país à época, O Cruzeiro, sendo designado para a sua sucursal em Salvador, uma vez que, no Rio de Janeiro, já atuava o fotógrafo frânces Jean Mazon, que trabalhava com o jornalista David Nasser. O ofício na revista permitiu a Verger obter sua permanência definitiva no Brasil, em 5 de junho de 1946, obtendo assim a carteira de residente estrangeiro.

Pierre Verger - Festa Shango - Sakété - Benin; 1958

Pierre Verger se apaixonou pela Bahia e realizou viagens pela costa ocidental da África, principalmente Daomé e Nigéria, intensificando suas pesquisas sobre a influência e a relação entre a cultura africana e a baiana. Seus estudos o levaram a envolver-se com o candomblé, exercendo funções no ritual religioso. Na Bahia, foi Ogã no Opô Afonjá da Mãe Senhora e no Opô de Aganju de Balbino. No Daomé, foi iniciado como babalaô, quando estudava a arte adivinhatória de Ifá, recebendo o nome de Fatumbi – renascido pelo Ifá.

Pierre Verger - porto - Belem - Brasil; 1948

Pierre Fatumbi Verger, como ficou conhecido, faleceu em 1996, deixando à Fundação Pierre Verger a tarefa de prosseguir com o seu legado.



Fonte:

Arquivo Nacional


Publicado em 13/09/2019

Atualizado em 28/10/2020

sábado, 15 de agosto de 2026

HISTÓRIA: CURIOSIDADES DOS ANOS 1600 A 1700

 CURIOSIDADES DOS ANOS 1600 A 1700


- Ao se visitar o Palácio de Versailles, em Paris, observa-se que o suntuoso palácio não tem banheiros. Na Idade Média, não existiam dentifrícios ou escovas de dente, perfumes, desodorantes, muitos menos papel higiênico. As excrescências humanas eram despejadas pelas janelas do palácio. Em dia de festa, a cozinha do palácio conseguia preparar banquete para 1.500 pessoas, sem a mínima higiene.


- Vemos, nos filmes de hoje, as pessoas sendo abanadas. A explicação não está no calor, mas no mau cheiro que exalavam por debaixo das saias (que propositalmente eram feitas para conter o odor das partes íntimas, já que não havia higiene).

Francois Boucher - La Toiletteintime Une Femme qui pisse 1760s

Também não havia o costume de se tomar banho devido ao frio e à quase inexistência de água encanada. O mau cheiro era dissipado pelo abanador. Só os nobres tinham lacaios para abaná-los, para dissipar o mau cheiro que o corpo e boca exalavam, além de, também, espantar os insetos. Quem já esteve em Versailles admirou muito os jardins enormes e belos que, na época, não eram só contemplados, mas "usados" como vaso sanitário nas famosas baladas promovidas pela monarquia, porque não existia banheiro.

Paul Srusier - a noiva

- A maioria dos casamentos ocorria no mês de junho (para eles, o início do verão). A razão é simples: o primeiro banho do ano era tomado em maio; assim, em junho, o cheiro das pessoas ainda era tolerável. Entretanto, como alguns odores já começavam a incomodar, as noivas carregavam buquês de flores, junto ao corpo, para disfarçar o mau cheiro. Daí termos maio como o "mês das noivas" e a origem do buquê de noiva explicada.

Francois Eisen- jeune femme a sa toilette

- Os banhos eram tomados numa única tina, enorme, cheia de água quente. O chefe da família tinha o privilégio do primeiro banho na água limpa. Depois, sem trocar a água, vinham os outros homens da casa, por ordem de idade, as mulheres, também por idade e, por fim, as crianças. Os bebês eram os últimos a tomar banho. Quando chegava a vez deles, a água da tina já estava tão suja que era possível "perder" um bebê lá dentro. É por isso que existe a expressão em inglês "don't throw the baby out with the bath water", ou seja, literalmente, "não jogue fora o bebê junto com a água do banho", que hoje usamos para os mais apressadinhos.


- O telhado das casas não tinha forro e as vigas de madeira que os sustentavam era o melhor lugar para os animais - cães, gatos, ratos e besouros se aquecerem. Quando chovia, as goteiras forçavam os animais a pularem para o chão. Assim, a expressão "está chovendo canivete" tem o seu equivalente em inglês em "it's raining cats and dogs" (está chovendo gatos e cachorros).

Francisco Oller y Cestero - the wake

- Aqueles que tinham dinheiro possuíam pratos de estanho. Certos tipos de alimento oxidavam o material, fazendo com que muita gente morresse envenenada (lembremos-nos de que os hábitos higiênicos, da época, eram péssimos). Os tomates, sendo ácidos, foram considerados, durante muito tempo, venenosos. Os copos de estanho eram usados para beber cerveja ou uísque. Essa combinação, às vezes, deixava o indivíduo "no chão" (numa espécie de narcolepsia, induzida pela mistura da bebida alcoólica com óxido de estanho). Alguém que passasse pela rua poderia pensar que ele estivesse morto e, assim, recolhia o corpo e preparava o enterro. O corpo era, então, colocado sobre a mesa da cozinha por alguns dias e a família ficava em volta, em vigília, comendo, bebendo e esperando para ver se o morto acordava ou não. Daí surgiu o velório, que é a vigília junto ao caixão.


- A Inglaterra é um país pequeno, onde nem sempre havia espaço para se enterrarem todos os mortos. Então, os caixões eram abertos, os ossos retirados e postos em ossários e o túmulo utilizado para outro cadáver. Às vezes, ao abrirem os caixões, percebia-se que havia arranhões nas tampas, do lado de dentro, o que indicava que aquele morto, na verdade, tinha sido enterrado vivo. surgiu, assim, a ideia de, ao se fechar o caixão, amarrar uma tira no pulso do defunto, passá-la por um buraco feito no caixão e amarrá-la a um sino. Após o enterro, alguém ficava de plantão ao lado do túmulo, durante uns dias. Se o indivíduo acordasse, o movimento de seu braço faria o sino tocar. E ele seria "saved by the bell", ou "salvo pelo gongo", expressão usada por nós até os dias de hoje.


Fonte:

terça-feira, 11 de agosto de 2026

LINGUAGEM: ESPERANTO, A LÍNGUA UNIVERSAL

 ESPERANTO: 

O NASCIMENTO E A EVOLUÇÃO DE UMA LÍNGUA UNIVERSAL

L.L. Zamenhoff teve um sonho: desenvolver um idioma que simplificasse a comunicação entre humanos de diferentes culturas. Hoje, o esperanto é a língua artificial mais falada no mundo.

Portugala Esperantisto, Nº1, Janeiro de 1936 
- Hemeroteca Municipal de Lisboa / Em domínio público 
- Capa da primeira edição do bilingue “Portugala Esperantisto”, 
o órgão mensal do Movimento Esperantista Português. 
Esta publicação durou apenas oito edições 
(entre Janeiro e Agosto de 1936).

Ao contrário de outras passagens bíblicas, os estudiosos do mais sagrado livro da cristianismo concordam que a mítica Torre de Babel – a ambiciosa construção humana que chegaria ao céu – não se baseia em qualquer evento que tenha percorrido a História do Médio Oriente. Destina-se apenas a explicar os motivos da divisão tão grande de culturas e a incapacidade de os indivíduos comunicarem numa língua comum. Sempre foi um enorme problema, para lá de qualquer crença religiosa.

Há, aliás, casos em que as palavras desarmam mesmo: em Novembro de 1956, Nikita Khrushchev, o líder soviético, discursava na embaixada polaca em Moscovo quando proclamou uma frase que, perdida na tradução, viria a ser imortalizada na letra da canção “Russians”, de Sting: “We will bury you”. A sala, cheia de representantes diplomáticos ocidentais, tremeu. Parecia uma ameaça séria, clara, em plena Guerra Fria. O medo nuclear efervescente ficou plasmado nas capas dos jornais mundiais no dia seguinte. O problema é que as intenções e até as palavras do líder do Politburo eram muito mais ideológicas: a expressão usada no discurso significava “dig in”, que utilizada no contexto da frase completa (“Gostem ou não, a História está do nosso lado: iremos colocar-vos num buraco”) se torna muito menos agressiva. “Bury you” significa o mesmo, mas de uma forma muito mais violenta (“...iremos enterrar-vos!”). Um simples capricho ideológico, que alude ao Manifesto Comunista, virou declaração de guerra e Khrushchev passou os anos seguintes a ter de explicar a confusão... tudo por causa de um tradutor.

O doutor chegou...

O mentor do esperanto Ludwik Lejzer Zamenhof 
(Lázaro Luís Zamenfof), o mentor do esperanto,
quis contribuir com esta língua universal 
para um mundo sem guerra. 
Fonte: Bildarchiv Austria


L.L Zamenhoff, um oftalmologista russo, tinha em mente, já no final do século XIX, esta exacta questão. Num período em que a Europa estava envolvida por pequenos conflitos que se tornavam cada vez mais inescapáveis, um homem bem intencionado ambicionava unir as pessoas através de um idioma comum. Fomentar a paz através do entendimento, criando uma comunidade de falantes que unida pela mesma língua pudesse trabalhar para o bem da Humanidade, era mais do que um sonho – era uma missão.

Zamenhoff nasceu judeu e a diversidade de dialectos que separavam as diferentes comunidades judaicas europeias mostrou-lhe como até as mais pequenas variações linguísticas podiam causar as maiores separações. Não poucas vezes, estas misturaram o seu hebraico com as línguas dos países onde se instalaram – o Yiddish, da Alemanha Ocidental, é um resultado deste cruzamento.

Antes de mais, o oftalmologista ecuménico fixou-se na ideia de reavivar o Latim, a língua franca dos antigos territórios do Império Romano. Mas achou-o demasiado complicado de aprender e optou então por focar-se nos idiomas que derivaram do romance e do germânico, em larga escala os mais ensinados nas escolas de todo o mundo. Para resolver o problema de um largo vocabulário, usou um truque muito comum no seu russo: os afixos. Esta nova língua devia ser fácil de aprender, reconhecível de imediato e simples, para que qualquer pessoa tivesse bases suficientes para se tornar um falante.

O trabalho que Zamenhoff desenvolveu desde a sua adolescência demorou vários anos a terminar e enfrentou obstáculos: a censura czarista proibiu-o de publicar o seu livro explicando o recém-nascido idioma. Entretanto, traduzir obras literárias permitiu-lhe melhorar os fundamentos da sua criação. Assim, em Julho de 1887, lançou Unua libro (“O primeiro livro”), onde declarava que “uma língua internacional, como qualquer língua nacional, é propriedade da sociedade, e o autor renuncia para sempre a todos os direitos pessoais sobre ela”. Para escapar à censura, usou um pseudónimo, “Doktoro Esperanto”, que na gramática nova significava “Aquele que é esperançoso”. No entanto, a palavra, forte e marcante, viria a baptizar então esta língua artificial. De início, o livro tornou-se uma curiosidade apenas nos territórios eslavos, mas foi-se espalhando para vários continentes, gerando até uma revista, La Esperantisto (com uma versão bilingue publicada em Portugal em 1936). Novas vozes e novos adeptos levaram a discussões sobre como melhorar o esperanto e Zamenhoff, com alguma relutância, foi incorporando as mais populares. Em 1905, com o Congresso de Bolonha, o esperanto ficou estabelecido tal como o conhecemos hoje.

Foto de Henri Caudevelle - 
Em 1905, no primeiro Congresso Universal de Esperanto, 
foram estabelecidas as regras da língua criada de raiz 
por Ludwik Lejzer Zamenhof que vingam até hoje. 
Fonte: Arquivo da UEA – Universala Esperanto-Asocio

Esperanto: como funciona

Não temos espaço para explicar como este idioma está construído. De uma forma simplificada, o esperanto possui um vocabulário derivado maioritariamente das línguas latinas, com o restante vindo do germânico, do grego e das línguas eslavas. Como todas as línguas latinas, a estrutura frásica é “sujeito-verbo-objecto”. Apesar disto, as propriedades linguísticas e frásicas derivam de 13 outras linguagens, que vão desde desde o hebraico ao lituano, passando por outra língua artificial chamada volapük, criada por volta da mesma altura por um sacerdote católico alemão.

O esperanto confunde os linguistas e é um óptimo caso de estudo sobre como uma forma de comunicar pode surgir incorporando elementos e até características aparentemente incompatíveis. Pela sua estrutura, podia ser facilmente incluído na família das línguas indo-europeias; no entanto, a formação de palavras tem muito mais em comum com o mandarim e a estrutura linguística é reminiscente do eslavo. Não deixa de ser uma língua criada por um europeu, que reflecte uma mentalidade eurocêntrica; mas ainda assim, para se facilitar e destacar, utiliza estratégias intuitivas que, algures na História, civilizações bem distantes da Europa usaram para construir a sua própria comunicação.

Hoje, o esperanto é, de longe, a língua artificial mais popular em todo o mundo. Existem clubes de faladores em todos os continentes, principalmente Europa e Ásia, tendo países recém-independentes após a Primeira Guerra Mundial, como o Irão, ponderado usá-lo como língua oficial para unificar populações culturalmente diversas. Calcula-se que o número de falantes varie entre 63.000 e 2.000.000, podendo encontrar alguns exemplos aqui e aqui. Desses, garantidamente dois mil são falantes aprenderam-no desde crianças.

Com uma periodicidade anual, o Congresso do Esperanto foi acolhido por Portugal em 2018, com a presença de 1.567 participantes de todo o mundo. Neste ano, a 110.ª edição ocorreu em Brno, na República Checa, entre 26 de Julho e 2 de Agosto de 2025.

Arquivo da UEA – Universala Esperanto-Asocio - 
Com uma periodicidade anual, o Congresso Universal de Esperanto
foi acolhido por Portugal em 2018, 
com a presença de 1.567 participantes de todo o mundo. 
Neste ano, a 110.ª edição ocorreu em Brno, 
na República Checa, entre 26 de Julho e 2 de Agosto de 2025.


OUTRAS LÍNGUAS ARTIFICIAIS

Existem várias toponímias baptizadas em honra do esperanto e do seu criador, e até objectos cósmicos, como os asteróides 1421 Esperanto e 1462 Zamenhoff, os celebram. Se o assunto lhe interessar, pode investigar outras línguas artificiais. Algumas delas antigas como a lingua ignota, criada sem estrutura aparente por Hildegarda de Bingen; ou mais contemporâneas como o eurolengo, uma mistura de inglês e espanhol da autoria de Leslie Jones; e claro, qualquer nerd digno dos seus galões conhecerá o quenya de Tolkien, o klingon da saga Star Trek ou o na'vi, que o linguista Paul Frommer construiu para servir o mundo de Avatar, de 
James Cameron.


Fonte:


Autor: Bruno Fernandes




Actualizado a 7 de agosto de 2025