segunda-feira, 30 de dezembro de 2024

LITERATURA: UM DEFEITO DE COR - UM DOS MELHORES ROMANCES DOS ÚLTIMOS TEMPOS

 

UM DEFEITO DE COR



Há medos que devemos confessar antes que nos tomem por pessoas destemidas. Livros pesados, com mais de 500/600 páginas costumam assustar a maioria das pessoas. Partindo dessa premissa, tendemos a achar que livros mais compactos, os famosos “mais fininhos” serão mais “rápidos”, uma leitura mais “fácil”. Um livro com mais de 600 páginas intimida, exige uma envergadura – e se não for bom? E hoje com tudo tão rápido, tão a zap, acabamos por cobrar que a leitura também seja assim: abriu- leu- acabou- fechou. Próximo! Mas ler exige um pouco mais, outro tempo. E acho que perdi esse “medo coletivo” ao encontrar “Um defeito de cor”, de Ana Maria Gonçalves.

Confesso que quando o peguei e senti o peso de suas 947 páginas, veja bem, eu disse 947 páginas - pensei “Vou ler depois...”, mas resolvi encarar. E fui. Esta obra superou minhas expectativas. As páginas voaram.

O livro já nos instiga pela forma como a autora obteve o material para o romance. Ao mudar-se para Ilha de Itaparica, vinda de São Paulo, Ana Maria afirma ter encontrado casualmente na casa de uma moradora do lugar uma pilha de papéis velhos sobre os quais uma criança desenhava. No verso de cada folha era possível ver uma escrita feita com caneta tinteiro. Percebendo a importância histórica daqueles papéis, por reconhecer ali vários nomes, fatos e datas de importantes eventos históricos do Brasil do século XIX, ela negociou com a família e conseguiu esses documentos. Assim a viagem da escrita começa. Tudo isso, segundo a autora, é fruto da serendipidade. E para saber o que é a tal da Serendipidade, serendipity, em inglês aqui vai à definição pela própria autora: "Serendipidade foi usada para descrever aquela situação em que descobrimos ou encontramos alguma coisa enquanto estávamos procurando outra, mas para a qual já tínhamos que estar, digamos, preparados."

O título encontra na própria história do Brasil a sua justificativa. “Um defeito de cor” guarda referências ao decreto colonial que impedia aos não-brancos de assumirem certas prerrogativas na sociedade brasileira tais como: empregos públicos e outras profissões. No entanto, a história do negro no Brasil ocupa o centro desta narrativa e o relato que lemos está na voz memorialística de Kehinde que nos narra sua infância em Savalu, reino do Daomé (atual Benin), passando por sua vinda para o Brasil como escrava, na Bahia e no Rio de Janeiro, até seu retorno à África e sua derradeira volta ao Brasil no fim da vida.

O livro não se fixa apenas na cor da pele ou na origem étnica, mas na criação de um discurso dos afrodescendentes no país e as marcas deixadas por essa experiência. Mostra um passado sobre o ponto de vista não eurocêntrico. Kehinde não é a heroína deste romance porque é negra e escrava. Kehinde é uma criança submetida a violências tanto na África como no Brasil, quando escrava participa de levantes contra a ordem estabelecida em Salvador, torna-se fugitiva, mulher, amante, mãe, é abandonada e se forja em uma empreendedora com visão comercial aprendida em sua condição de escrava que através da comercialização de cookies caseiros consegue comprar sua liberdade.

Um pouco da história para dar uma “palinha”: Após o trauma vivido em ver os guerreiros de o Rei Adandozan matarem seu irmão e violentarem sua mãe, Kehinde, junto de sua avó e de Taiwo, sua irmã gêmea, viajam e chegam a Uidá. Depois de um curto período feliz, as meninas foram capturadas e embarcadas em um navio negreiro. A avó, desesperada, decidiu segui-las. Mas quis o destino que sua irmã gêmea Taiwo e sua avó não conseguissem completar a viagem devido a insalubridade em que viviam os escravos nesses navios que cruzavam o Atlântico rumo ao Brasil.

Kehinde desembarcou sozinha na Bahia e foi levada à ilha de Itaparica para ser escrava de companhia da Sinhazinha. Ao chegar ao Brasil, a interação com a população daqui, já bem diversificada, permitiu o surgimento de uma cultura própria, de caráter afro-brasileiro e assim começa sua saga no Brasil. Na fazenda, a protagonista passa boa parte de sua infância e adolescência, sendo sexualmente abusada pelo senhor e tendo seu primeiro filho, Banjokô. Começa a trabalhar como escrava de ganho e consegue comprar sua liberdade. Casa-se com Alberto, um comerciante português, e tem um filho chamado Omotunde Adeleke Danbiran.

Ligada às tradições de sua família, Kehinde dá nomes africanos a seus filhos. Os nomes são escolhidos em cerimônias às escondidas, nos porões da casa grande. As cerimônias de nome, feita por um babalaô, afirmam que uma pessoa não tem um nome, ela é o nome que carrega. Seu segundo filho veio de uma relação estável se chamava Omotunde Adeleke Danbiran. O primeiro nome Omotunde “a criança voltou” o segundo nome Adeleke que significa “a criança será mais poderosa que os inimigos” e o terceiro nome Danbiran é um nome que homenageia a avó de Kehinde. O pai deu o nome branco de Luiz, e aqui, Ana Maria Gonçalves lança a hipótese de que Kehinde e Luisa Mahin poderiam ter sido a mesma mulher - mãe de Luiz Gama, jornalista e poeta que foi um expoente no final do século XIX e lutou contra a escravatura e a favor da liberdade. Luisa Mahin foi uma líder feminista que participou da Revolta dos Maleses na qual a autora se inspirou para reconstituir ficcionalmente a história de Kehinde e, através dela, das condições de vida dos escravos na Bahia do século XIX.

O livro chama a atenção para o fato da protagonista ter uma vida marcada por andanças: Savalu, Uidá, Bahia, Rio de Janeiro, São Paulo, Campinas, por quase todo o Brasil até a sua volta África. Mudanças que modificaram Kehinde ao longo do tempo.

Essa nova personalidade nos é revelada no romance quando ela retorna a Uidá assumindo seu nome de branca, e passa a ser chamada de Sinhá Luíza, tanto pelos retornados quanto pelos que nunca haviam saído de lá. A explicação plausível para essa mudança deve-se ao fato de que Kehinde ao voltar para suas origens tenha perdido sua identidade original. Kehinde que ao chegar ao Brasil mantinha suas origens com a terra mãe, depois, conscientemente assume a sua nova identidade.

África, em sua volta, um novo campo comercial se abre para ela que não se recusa a negociar armas, pólvora, óleo de dendê tanto para os reis africanos quanto para os brasileiros de Salvador. Não demonstrando escrúpulos ao vender armas que seriam usadas no comércio de escravos, em nome de sua própria fortuna e segurança. Kehine reflete sobre isso, não aprova, mas comércio é comércio.

A saga de Kehinde não para. Outras histórias de amor, perdas e afetos se desenrolam até a última página, mas vou ficando por aqui antes que me alongue e conte o livro todo.

Uma das grandes virtudes de “Um defeito de cor” é que não é um livro sobre a vitimização, é uma biografia ficcional que constrói um discurso que nos aponta as marcas das experiências históricas e cotidianas dos afrodescendentes do país. Um livro que nos conduz a conhecer parte de nossa história, costumes e mutações sociais através de uma personagem que não se deixa prender no estereótipo do herói, mas que imprime sua personalidade a cada direção, a cada oportunidade aceita. E faz valer cada página lida.

Imperdível para os que gostam de um bom romance e de uma história bem contada.



Fonte :

Autor : Luiz Guilherme de Beaurepaire

sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

CITAÇÕES: USE COMO EPÍGRAFE ESTA FRASE DE RICHARD GORDON

 


      “Entre as grandes descobertas da medicina está a descoberta, quase sempre atrasada, de que alguns tratamentos são completamente inúteis!" 

– Richard Gordon, in A assustadora história da medicina.

terça-feira, 24 de dezembro de 2024

HUMOR: FRASES DE FORMULÁRIOS DE SEGUROS - UMA CRÔNICA DE MÁRIO PRATA

 



UMA CRÔNICA DE MÁRIO PRATA





O que você vai ler a seguir são frases colhidas de formulários de companhias de seguros, nas quais motoristas tentam descrever os detalhes de seus acidentes com os comentários mais breves possíveis. O português não foi nem corrigido para garantir a veracidade das declarações.


§ O pedestre não tinha idéia para onde ir, então eu o atropelei.


§ Eu vi um velho mole, de cara triste, quando ele caiu do teto do meu carro.


§ A causa indireta do acidente foi um rapazinho num carrinho pequeno com uma boca enorme.


§ Eu tinha certeza que o velho não conseguiria chegar ao outro lado da estrada, então eu o atropelei.


§ Eu disse à polícia que não estava machucado, mas quando tirei o chapéu, percebi que havia fraturado o crânio.


§ Eu fui atirado para fora do meu carro quando ele saiu da estrada. Mais tarde, fui encontrado numa vala por vacas perdidas.


§ Eu pensei que a minha janela estava aberta, mas descobri que estava fechada quando botei a cabeça para fora.


§ Eu bati contra um carro parado que vinha em direção contrária.


§ Um caminhão deu ré pelo meu pára-brisa, direto na cabeça da minha mulher.


§ Eu saí do acostamento, olhei para a cara da minha sogra e caí pela montanha abaixo.


§ O cara estava por tudo quanto era lado da estrada. Eu tive que desviar uma porção de vezes antes de atropelá-lo.


§ Eu vinha dirigindo já há 40 anos quando dormi no volante e sofri o acidente.


§ Um carro invisível veio de não sei onde, bateu no meu carro e desapareceu.


§ Meu carro estava estacionado legalmente, quando ele foi de ré no outro carro.


§ Eu estava a caminho do médico com problema na traseira, quando a minha junta universal caiu, causando o acidente.


§ De volta para casa eu entrei com o meu carro na casa errada e bati numa árvore que não é a minha.



Fonte:

OESP 16/12/98

sábado, 21 de dezembro de 2024

CITAÇÕES: USE COMO EPÍGRAFE ESTAS PALAVRAS DE MAURA LOPES CANÇADO


 

       “É bonito e humano rezar. Também não creio em nenhum deus, não creio nas divindades para as quais se reza. Rezo pela poesia da oração. Rezo para sentir-me próxima de meus semelhantes, ao fazer o mesmo pedido, ao externar a mesma necessidade. Eu rezo porque amo – é para o meio de comunicação.” 

Maura Lopes Cançado, in Hospício é deus.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

ARTES PLÁSTICAS: GOYA - GRAVURAS E PINTURAS NEGRAS

 

   (Vicente López Portaña - el pintor Francisco de Goya)


GOYA ( 1746 - 1828 )

GRAVURAS E PINTURAS NEGRAS DE GOYA

FEITIÇOS E BRUXARIAS


(Francisco de Goya - El aquelarre 
Museo Lázaro Galdiano, Madrid, 1797-98)

As pinturas de Goya sobre feitiço e bruxaria marcam um ponto importante no seu desenvolvimento. Seus climas sombriamente satíricos e mesmos cômicos estão fortemente relacionados à série Caprichos.

Feitiço e bruxaria eram temas especialmente populares entre escritores de teatro e figuras literárias do seu tempo, pois eram um veículo através do qual se podia atacar a Santa Inquisição. Durante vários séculos a Inquisição havia explorado a existência de crenças supersticiosas para efetivamente aterrorizar e subjugar o povo espanhol, impedindo o desenvolvimento de uma Espanha mais instruída...

GRAVURAS E PINTURAS NEGRAS DE GOYA

(Francisco de Goya - o feitiço, 1798)

As investidas de Goya pelo lado mais sombrio da natureza humana começaram a emergir em sua série de gravuras denominadas Caprichos. Aqui ele combina a sátira aos costumes da época às instituições com uma ácida crítica às superstições e à bruxaria.

O artista produziu ainda três outras grandes séries de gravuras: Os Desastres da Guerra, que retratam os tenebrosos acontecimentos após a invasão francesa em 1808; a Tauromaquia, série sobre touradas; e Os Provérbios, uma série enigmática que mostra vários aspectos da loucura humana.

(Francisco de Goya - El Tres de Mayo, Prado)

"Os Desastres da Guerra" talvez seja a mais impressionante e de caráter mais devastador.Não há heróis nem tampouco glórias - apenas morte e destruição, dor e degradação. Aqui, Goya, pintor da corte, de reis e príncipes, sofre com o desespero dos homens sem nome, sem títulos e sem passado. São obras de arte atemporais, verdadeiros testemunhos das forças conflitantes do bem e do mal, da vida e da morte, da luz e das trevas.

(Francisco de Goya - pinturas negras)

O aperfeiçoamento dessa temática viria com as chamadas "pinturas negras", feitas no decorrer de 1819.Neste ano, o artista recolhe-se numa casa de campo, à margem do Manzanares, nos arredores de Madri. Isola-se em sua "quinta del surdo" como a chamam os vizinhos, para desvendar, pintando, o rresponsável enigma da crueldade humana.

(Francisco de Goya - Los disparates)

De sua época de reclusão na "quinta del surdo" sabe-se muito pouco. Realiza dois grupos de importantes obras: as "pinturas negras" e a série de gravuras "Os Disparates" (ou "Provérbios").

(Francisco de Goya - pinturas negras)

O primeiro grupo de obras (no total de 14 ) constitui o mais impressionante exemplo das reflexões de Goya sobre a tragédia da condição humana. São quadros expressionistas, com severas tonalidades negras, ocres ou brancas. São as obras mais terríveis e, tecnicamente, estão entre as mais admiráveis de sua carreira. Tal despojamento foi explicado pelo próprio artista a um amigo: "Na natureza existem tão poucas cores quanto linhas, só existem o sol e as sombras. Dá-me um pedaço de carvão e eu te darei o quadro mais belo".


(Francisco de Goya – saturn)

Os muros de sua casa de campo foram cobertos com essas pinturas. Bruxas horríveis, aleijados, mendigos, uma humanidade monstruosa, constituem essa estranha procissão que invadiu a imaginação do artista. Obras como Saturno e O Colosso representam o ponto-limite dessa visão sombria de Goya.
 
(Francisco de Goya - pinturas negras)

Os Disparates representam o ponto culminante do clima de pesadelo das gravuras de Goya. As imagens não são tão impiedosas quanto as dos Desastres da Guerra; apresentam-se, porém, muito mais alucinadas. Elas exploram um mundo de absurdo, de loucura, onde as explicações parecem ter desaparecido.



Fontes:

Os Grandes Artistas - Nova Cultural

Mestres da Pintura - Abril Cultural

Goya - Alfonso Perez Sanchez - Henry Holt

Goya - Patricia Wright - Editora Manole


domingo, 15 de dezembro de 2024

CITAÇÕES: USE COMO EPÍGRAFE ESTE TEXTO DE ALBERTO MANGUEL:

 


    “A arte de ler é, de muitas maneiras, oposta à arte de escrever. Ler é uma arte que enriquece o texto concebido pelo autor, o aprofunda e o torna mais complexo, concentrando-o de modo a refletir a experiência pessoal do leitor e a expandi-la aos mais distantes confins do seu universo, e para além deles. Escrever, em vez disso, é a arte da resignação. O escritor deve aceitar o fato de que o texto final não será mais do que um reflexo borrado da obra que concebeu em sua mente, menos esclarecedor, menos sutil, menos pungente, menos exato. A imaginação do escritor é todo-poderosa, e capaz de sonhar as mais extraordinárias criações em toda a sua almejada perfeição. Depois vem o descenso para a língua, e na passagem do pensamento para a expressão, muito – muito mesmo – se perde. Para essa regra quase não há exceções. Escrever um livro é se resignar ao fracasso, por mais honroso que esse fracasso possa ser.” 

Alberto Manguel in Uma história natural da curiosidade.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

MISTÉRIO: PILAR DE KATSKHI NA GEÓRGIA

 IGREJA DE KATSKHI: UM MISTÉRIO MILENAR NO CORAÇÃO DA GEÓRGIA


Construída sobre uma rocha a 40 metros de altura, a Igreja de Katskhi desafia a gravidade e intriga pesquisadores há séculos




Nas montanhas da remota região de Imereti, na Geórgia, um dos mistérios arquitetônicos mais intrigantes do mundo desafia a compreensão. A Igreja de Katskhi, erguida sobre um pilar rochoso a 40 metros de altura, apelidado de "Pilar da Vida", é um santuário ortodoxo cercado de mistério e espiritualidade. Como essa estrutura desafiou a gravidade e foi construída em um local tão inapropriado? Essa é uma pergunta que intriga pesquisadores há séculos.

Descoberta por acaso em 1944, a igreja só passou por estudos mais aprofundados a partir de 1999, sendo restaurada em 2009. Com uma área de 150 metros quadrados, o edifício abriga uma igreja, uma cripta, celas de eremitério e uma adega. As primeiras ruínas encontradas datam do século 5, mas a igreja atual foi construída no século 11.

História



A história da Igreja de Katskhi está intrinsecamente ligada à figura de Saint-Maxime, um monge que, segundo pesquisas, viveu no topo do rochedo em condições extremamente rudimentares, após ter sido preso por crimes relacionados com drogas. "Ele percebeu que a melhor maneira de se arrepender do seu crime e entrar em contato com Deus era meditar em uma cela solitária no topo do pilar Katskhi, disse a mídia indiana.

Até 2015, o padre georgiano Maxime Qavtaradze seguiu os passos do santo, vivendo em isolamento no topo do pilar.

Segundo a 'Casa Vogue', o acesso à igreja é restrito. Atualmente, apenas monges que vivem em um mosteiro na base do pilar podem fazer a árdua escalada diária. A subida por uma estreita escada leva cerca de 20 minutos e, segundo os monges, aproxima-os de Deus. Mulheres, por sua vez, não têm permissão para fazer a ascensão.

Como a igreja foi construída e como o pilar foi escalado na Idade Média ainda é um mistério. Em 2021, o New York Post disse que "ninguém sabe como esta igreja foi construída".


Fonte:

Autor: Gabriel Marin de Oliveira, sob supervisão de Éric Moreira

Publicado em 11/12/2024

sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

CIDADES: AFUÁ, A CIDADE DAS BICICLETAS NA AMAZÔNIA

 

(Afuá - foto do site da prefeitura)

Nas vias e passarelas desta cidade paraense, construída sobre palafitas em uma ilha da foz do rio Amazonas, não entram motos, carros ou qualquer outro veículo motorizado – um exemplo de mobilidade urbana sustentável.

Com 40 mil habitantes, a cidade de Afuá proibiu o trânsito de qualquer veículo motorizado a partir de 2002.

Esta pequena cidade de 40 mil habitantes, localizada no Arquipélago de Marajó, estado do Pará, no norte do Brasil, pode ser considerada por muitos como parada no tempo, mas, após uma visita, fica claro que ela é um vislumbre de um futuro possível. Construída em cima de palafitas de madeira devido às cheias do rio Amazonas, o código de posturas do município proibiu, em 2002, o uso de qualquer veículo motor, incluindo elétricos, em suas ruas. Lá, todos, sem exceção, têm a bicicleta como meio de transporte. 

(Afuá: foto de Manuel Raimundo Fonseca)

Se em Afuá não há carros, ou motos, também não há leis de trânsito. Nenhuma mísera placa de pare. Congestionamentos? Multas? Nem pensar. Dar voltas e voltas para estacionar, medo de ser atropelado? Jamais. Outra ausência: mortes em acidentes de trânsito. Quando estes acontecem, são leves, geram poucos ferimentos e costumam ser causados por forasteiros tal como esta jornalista que pedalou para fazer esta reportagem. A atenção e o respeito pelo espaço do outro são o código não escrito da mobilidade.

Estranho é perceber que o movimento nas ruas é tão intenso quanto silencioso. Um silêncio quebrado somente pelo barulho do motor dos barcos que passam pelo rio e pela eclética música das caixas de som do animado povo paraense – um movimento que obedece aos horários de calor e às marés. Os afuaenses se movem conforme chegam e partem as barcas para Macapá ou Belém – as capitais mais próximas –, pulsando entre a lógica de conviver de maneira harmônica com a natureza, obedecendo sua geografia e clima, e a eterna pressão para adotar um modo de vida urbano mais 'moderno', movido a motor.

Esta relação de harmonia com a natureza é muito clara para a turismóloga da secretaria de Esporte e Lazer da cidade, Andra Lúcia Chaves Ataíde, 39 anos. Nascida e criada em Afuá, Ataíde enfatiza o quanto a bicicleta é o eixo central do cotidiano na cidade. “A cidade inteira anda de bicicleta, a nossa vida é a bicicleta, nosso meio de transporte é a bicicleta e vai ser pelo resto das nossas vidas”, diz ela. “Nossa cidade é específica para este modelo de transporte sustentável.”

 Por ser uma cidade 100% sem carros, Afuá se tornou conhecida em diversos lugares do mundo e ganhou alguns apelidos – como Veneza Marajoara e Copenhagen da Amazônia, locais cuja mobilidade também prioriza vias aquáticas ou ciclovias – e virou referência para arquitetos, historiadores, fotógrafos e ciclistas. A fama rendeu a Ataíde alguns convites para falar em palestras e conferências. “Uma vez, antes de uma palestra em Belém, me perguntaram quantos quilômetros de ciclovia tinha a minha cidade. Eu falei que cerca de 24 mil metros. Não acreditaram, até que comecei a mostrar as fotos”, lembra.

(Afuá - foto de Aislan de Paula)

Pela geografia, em meios aos canais e igarapés da floresta, a cidade recebeu o apelido de Veneza Marajoara, e, pelo uso das bikes, Copenhagen da Amazônia, em referência à capital dinamarquesa onde mais de 60% pedalam até a escola ou trabalho.

Claramente, não obedecer ao calor da latitude 00’09” – cerca de 15 km ao sul da Linha do Equador – é péssima ideia. O sol se torna extremamente forte logo no meio da manhã, e o jeito é se esconder à sombra ou pedalar com uma mão no guidão e outra segurando um guarda-chuva. Por isso, o dia começa cedo, ao som da rádio Afuá ecoando pelos postes da cidade. A partir das 5h da manhã, Raimundo do Socorro Souza, 53 anos, mais conhecido como Sarito, apresenta o programa Acorda Afuá. “Para você que está fazendo seu café, bom dia dona Maria, bom dia seu Benedito!”, narra em uma das transmissões. “Venha para Afuá, cidade de mulher bonita e homem trabalhador, e não esqueça de dar uma voltinha no bicitáxi.”

 Apaixonado pela cidade, Sarito conta que até os anos 1980 a bicicleta era objeto de luxo entre os afuaenses. A popularização das magrelas começou nos anos 1990, acompanhadas de algumas motos. “Com o passar do tempo, a população cresceu e as motos foram aumentando, então as autoridades proibiram, porque as ruas de madeira não estavam aguentando”, conta o radialista. “Depois surgiram as passarelas de concreto armado, mas ainda assim é proibido qualquer veículo motorizado.”

Homem de múltiplos talentos, Sarito é marceneiro, pintor, dj, radialista, músico e inventor. Em 1995, decidiu juntar duas bicicletas para dar um jeito de levar as crianças para passear: surgia o bicitáxi. “Eu comecei a levar toda a família comigo, era uma festa, e comecei a ganhar um dinheirinho levando outras pessoas.”

 Hoje, a hora do rush de Afuá é formada por uma aglomeração de bicitáxis a espera dos passageiros da barca, que chega conforme o horário da maré alta. Muitos bicitaxistas investem em luzes de led e caixas de som alimentadas por baterias. O som preferido é funk e eletrônico paraense. A estilização dos ‘carros’, como são chamados, não tem limites. “Um bicitáxi hoje pode custar de R$ 4 a 8 mil, mas, com led e som automotivo, chega até a R$ 15 mil, o valor de um carro mesmo”, diz Sarito. Além dos veículos particulares, também tem a bicilância, usada pelos bombeiros, e os ‘carros’ de propaganda.

(Afuá - foto de Aislan de Paula)

As criações ganham cores com grafites e luzes – todas elas exibidas em um desfile do Festival do Camarão, realizado no mês de julho. A criatividade é infinita e muitos tem nomes, como o Viúva Negra, um ‘carro’ com muita teia de aranha, cores e luzes coloridas. Outros, como Adriano dos Santos, 36 anos, metalúrgico, vivem de montar os bicitáxis por encomenda. “Eu sou autodidata, aprendi tudo vendo. Hoje crio qualquer coisa com solda e faço o ‘carro’ conforme a vontade do cliente”, conta. Ele mesmo tem suas criações estilizadas. “Eu gosto de dar nomes dos Vingadores ou dos Transfomers. O [‘carro’] amarelo que tenho hoje é Bumblebee, e a bicicleta, Venon”, explica.

“Eu sei que tudo isso é minha culpa”, brinca Sarito. Após sair da rádio, passa na feira do peixe e toma um café na praça, cumprimentando quase todo mundo. Os amigos escutam termos que só muita intimidade permite. “Bom dia! Chuva de corno!”, diz, com um sorriso no rosto. O movimento na cidade desaparece perto do meio-dia e só volta após às 16h. Os mais ativos deixam as bicicletas de lado para jogar futebol, volêi, nadar no rio, fazer crossfit – há muitas academias em Afuá – ou até mesmo realizar uma caminhada na pista do aeroporto, que, sem uso, vira pista de corrida. Antes de descer, os aviões dão duas voltas em cima da cidade para permitir que as pessoas saiam da área.

(Afuá - foto da internet sem indicação de autoria)

Afuá surgiu a partir da doação de terras de uma antiga proprietária da região, Micaela Archanja Ferreira, e se emancipou como município em 1890. De lá para cá, viveu a lógica de desenvolvimento e colonização por ribeirinhos do norte brasileiro. Das etnias indígenas da região, atualmente há poucos sinais além de sítios arqueológicos. O Indíce de Desenvolvimento Humano da cidade é baixo (0,489 segundo o PNUD) e, como a maioria das cidades no país, o tratamento de esgoto é inexistente. Há pressão para construção de uma ferrovia ligando as ilhas vizinhas e um projeto para desenhar ciclovias nas vias.

Em termos de mobilidade, se considerarmos que o Brasil perde cerca de 40 mil pessoas por ano em acidentes de trânsito – o equivalente à população de Afuá, onde o número é zero –, talvez tenhamos muito o que aprender com esta cidade. Em termos de mudanças climáticas, uma cidade construída sobre as águas e cuja mobilidade não emite gases estufa pode ser uma pequena mostra de como vai ser o futuro. “Aqui, na época das lançantes [cheia do rio Amazonas em março], é uma festa”, explica a turismóloga Andra. “Aproveitamos para limpar a cidade, e todos saem para nadar, brincar e andar de bicicleta dentro d’água.”

 

Fontes:

Autora: Gabi Di Bella

https://www.nationalgeographicbrasil.com/cultura/2021/09/afua-a-cidade-das-bicicletas-na-amazonia

Publicado 20 de set. de 2021, 18:09 BRT

Atualizado 22 de set. de 2021, 19:25 BRT

(Texto editado pelo blogger)

Site da Prefeitura de Afuá:

https://afua.pa.gov.br/o-municipio/turismo-e-lazer/

Maxblog:

https://blog.maxmilhas.com.br/dicas-de-viagem/afua-a-nossa-veneza-brasileira

G1:

https://g1.globo.com/pa/para/noticia/2023/08/13/bicitaxi-e-bicilancia-conheca-afua-veneza-marajoara-onde-so-se-anda-a-pe-ou-com-bicicletas-fotos.ghtml

Agência Pará:

https://agenciapara.com.br/noticia/14002/municipio-de-afua-recebera-investimentos-nesta-sexta-feira-26

terça-feira, 3 de dezembro de 2024

CITAÇÕES: USE COMO EPÍGRAFE ESTAS FRASES DE PAULINA CHIZIANE:

       


"Se o homem é a imagem de Deus, então Deus é um refugiado de guerra, magro e com o ventre farto de fome."

"Porque a cobra não tem pernas e rasteja, não se deve rir do seu destino."

 Paulina Chiziane, in Ventos do Apocalipse.