terça-feira, 11 de agosto de 2026

LINGUAGEM: O ESPERANTO, A LÍNGUA UNIVERSAL

 ESPERANTO: 

O NASCIMENTO E A EVOLUÇÃO DE UMA LÍNGUA UNIVERSAL

L.L. Zamenhoff teve um sonho: desenvolver um idioma que simplificasse a comunicação entre humanos de diferentes culturas. Hoje, o esperanto é a língua artificial mais falada no mundo.

Portugala Esperantisto, Nº1, Janeiro de 1936 
- Hemeroteca Municipal de Lisboa / Em domínio público 
- Capa da primeira edição do bilingue “Portugala Esperantisto”, 
o órgão mensal do Movimento Esperantista Português. 
Esta publicação durou apenas oito edições 
(entre Janeiro e Agosto de 1936).

Ao contrário de outras passagens bíblicas, os estudiosos do mais sagrado livro da cristianismo concordam que a mítica Torre de Babel – a ambiciosa construção humana que chegaria ao céu – não se baseia em qualquer evento que tenha percorrido a História do Médio Oriente. Destina-se apenas a explicar os motivos da divisão tão grande de culturas e a incapacidade de os indivíduos comunicarem numa língua comum. Sempre foi um enorme problema, para lá de qualquer crença religiosa.

Há, aliás, casos em que as palavras desarmam mesmo: em Novembro de 1956, Nikita Khrushchev, o líder soviético, discursava na embaixada polaca em Moscovo quando proclamou uma frase que, perdida na tradução, viria a ser imortalizada na letra da canção “Russians”, de Sting: “We will bury you”. A sala, cheia de representantes diplomáticos ocidentais, tremeu. Parecia uma ameaça séria, clara, em plena Guerra Fria. O medo nuclear efervescente ficou plasmado nas capas dos jornais mundiais no dia seguinte. O problema é que as intenções e até as palavras do líder do Politburo eram muito mais ideológicas: a expressão usada no discurso significava “dig in”, que utilizada no contexto da frase completa (“Gostem ou não, a História está do nosso lado: iremos colocar-vos num buraco”) se torna muito menos agressiva. “Bury you” significa o mesmo, mas de uma forma muito mais violenta (“...iremos enterrar-vos!”). Um simples capricho ideológico, que alude ao Manifesto Comunista, virou declaração de guerra e Khrushchev passou os anos seguintes a ter de explicar a confusão... tudo por causa de um tradutor.

O doutor chegou...

O mentor do esperanto Ludwik Lejzer Zamenhof 
(Lázaro Luís Zamenfof), o mentor do esperanto,
quis contribuir com esta língua universal 
para um mundo sem guerra. 
Fonte: Bildarchiv Austria


L.L Zamenhoff, um oftalmologista russo, tinha em mente, já no final do século XIX, esta exacta questão. Num período em que a Europa estava envolvida por pequenos conflitos que se tornavam cada vez mais inescapáveis, um homem bem intencionado ambicionava unir as pessoas através de um idioma comum. Fomentar a paz através do entendimento, criando uma comunidade de falantes que unida pela mesma língua pudesse trabalhar para o bem da Humanidade, era mais do que um sonho – era uma missão.

Zamenhoff nasceu judeu e a diversidade de dialectos que separavam as diferentes comunidades judaicas europeias mostrou-lhe como até as mais pequenas variações linguísticas podiam causar as maiores separações. Não poucas vezes, estas misturaram o seu hebraico com as línguas dos países onde se instalaram – o Yiddish, da Alemanha Ocidental, é um resultado deste cruzamento.

Antes de mais, o oftalmologista ecuménico fixou-se na ideia de reavivar o Latim, a língua franca dos antigos territórios do Império Romano. Mas achou-o demasiado complicado de aprender e optou então por focar-se nos idiomas que derivaram do romance e do germânico, em larga escala os mais ensinados nas escolas de todo o mundo. Para resolver o problema de um largo vocabulário, usou um truque muito comum no seu russo: os afixos. Esta nova língua devia ser fácil de aprender, reconhecível de imediato e simples, para que qualquer pessoa tivesse bases suficientes para se tornar um falante.

O trabalho que Zamenhoff desenvolveu desde a sua adolescência demorou vários anos a terminar e enfrentou obstáculos: a censura czarista proibiu-o de publicar o seu livro explicando o recém-nascido idioma. Entretanto, traduzir obras literárias permitiu-lhe melhorar os fundamentos da sua criação. Assim, em Julho de 1887, lançou Unua libro (“O primeiro livro”), onde declarava que “uma língua internacional, como qualquer língua nacional, é propriedade da sociedade, e o autor renuncia para sempre a todos os direitos pessoais sobre ela”. Para escapar à censura, usou um pseudónimo, “Doktoro Esperanto”, que na gramática nova significava “Aquele que é esperançoso”. No entanto, a palavra, forte e marcante, viria a baptizar então esta língua artificial. De início, o livro tornou-se uma curiosidade apenas nos territórios eslavos, mas foi-se espalhando para vários continentes, gerando até uma revista, La Esperantisto (com uma versão bilingue publicada em Portugal em 1936). Novas vozes e novos adeptos levaram a discussões sobre como melhorar o esperanto e Zamenhoff, com alguma relutância, foi incorporando as mais populares. Em 1905, com o Congresso de Bolonha, o esperanto ficou estabelecido tal como o conhecemos hoje.

Foto de Henri Caudevelle - 
Em 1905, no primeiro Congresso Universal de Esperanto, 
foram estabelecidas as regras da língua criada de raiz 
por Ludwik Lejzer Zamenhof que vingam até hoje. 
Fonte: Arquivo da UEA – Universala Esperanto-Asocio

Esperanto: como funciona

Não temos espaço para explicar como este idioma está construído. De uma forma simplificada, o esperanto possui um vocabulário derivado maioritariamente das línguas latinas, com o restante vindo do germânico, do grego e das línguas eslavas. Como todas as línguas latinas, a estrutura frásica é “sujeito-verbo-objecto”. Apesar disto, as propriedades linguísticas e frásicas derivam de 13 outras linguagens, que vão desde desde o hebraico ao lituano, passando por outra língua artificial chamada volapük, criada por volta da mesma altura por um sacerdote católico alemão.

O esperanto confunde os linguistas e é um óptimo caso de estudo sobre como uma forma de comunicar pode surgir incorporando elementos e até características aparentemente incompatíveis. Pela sua estrutura, podia ser facilmente incluído na família das línguas indo-europeias; no entanto, a formação de palavras tem muito mais em comum com o mandarim e a estrutura linguística é reminiscente do eslavo. Não deixa de ser uma língua criada por um europeu, que reflecte uma mentalidade eurocêntrica; mas ainda assim, para se facilitar e destacar, utiliza estratégias intuitivas que, algures na História, civilizações bem distantes da Europa usaram para construir a sua própria comunicação.

Hoje, o esperanto é, de longe, a língua artificial mais popular em todo o mundo. Existem clubes de faladores em todos os continentes, principalmente Europa e Ásia, tendo países recém-independentes após a Primeira Guerra Mundial, como o Irão, ponderado usá-lo como língua oficial para unificar populações culturalmente diversas. Calcula-se que o número de falantes varie entre 63.000 e 2.000.000, podendo encontrar alguns exemplos aqui e aqui. Desses, garantidamente dois mil são falantes aprenderam-no desde crianças.

Com uma periodicidade anual, o Congresso do Esperanto foi acolhido por Portugal em 2018, com a presença de 1.567 participantes de todo o mundo. Neste ano, a 110.ª edição ocorreu em Brno, na República Checa, entre 26 de Julho e 2 de Agosto de 2025.

Arquivo da UEA – Universala Esperanto-Asocio - 
Com uma periodicidade anual, o Congresso Universal de Esperanto
foi acolhido por Portugal em 2018, 
com a presença de 1.567 participantes de todo o mundo. 
Neste ano, a 110.ª edição ocorreu em Brno, 
na República Checa, entre 26 de Julho e 2 de Agosto de 2025.


OUTRAS LÍNGUAS ARTIFICIAIS

Existem várias toponímias baptizadas em honra do esperanto e do seu criador, e até objectos cósmicos, como os asteróides 1421 Esperanto e 1462 Zamenhoff, os celebram. Se o assunto lhe interessar, pode investigar outras línguas artificiais. Algumas delas antigas como a lingua ignota, criada sem estrutura aparente por Hildegarda de Bingen; ou mais contemporâneas como o eurolengo, uma mistura de inglês e espanhol da autoria de Leslie Jones; e claro, qualquer nerd digno dos seus galões conhecerá o quenya de Tolkien, o klingon da saga Star Trek ou o na'vi, que o linguista Paul Frommer construiu para servir o mundo de Avatar, de 
James Cameron.


Fonte:


Autor: Bruno Fernandes




Actualizado a 7 de agosto de 2025

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

FRUTA: LIMA-DA-PÉRSIA OU SIMPLESMEMTE LIMA

LIMA-DA-PÉRSIA É A DOCE LIMA DO SERÃO DE MINHA MENINICE

É como se estivesse no pomar da casa da vovó…


Não sei exatamente quando, mas não faz muito tempo, fiquei emocionada ao ver, no sacolão, umas limas amarelinhas. Virei menina no quintal da casa da vovó Maria… Peguei uma e cheirei. Era mesmo lima!

Comprei mais ou menos uma dúzia. Em casa, depois de lavá-las e enxugá-las, fiquei apreciando uma bacia cheia delas. Comecei a descascar a primeira. Resumo da ópera da bacia de lima: comi todas, gomo por gomo, degustando aquela refrescante fruta da infância e da adolescência que não saboreava havia muitos anos.


A lima, hoje vendida com o pomposo nome de lima-da-pérsia, em alguns lugares, conhecida como lima-doce, no sertão onde nasci, era apenas lima, fruta comum em quase todos os quintais – frutificava tanto que os galhos, às vezes, se quebravam. A lima floresce e frutifica durante todo o ano, com mais abundância de maio a setembro. Graça Aranha, nos anos 1960/70, era importante município produtor de lima. Originária da Índia e do sul da Ásia, nem sequer imagino por que era tão apreciada em nossa região. Apenas descobri que o vocábulo "lima é derivado do nome persa (?) ‘Limu’, quando da introdução da fruta na Europa durante as Cruzadas", e que, na culinária tailandesa, a fruta é uma mascote.


A limeira se parece com a laranjeira, só que cresce menos, pois é um arbusto, e o cheiro das folhas tende ao adocicado; a lima é muito parecida com a laranja, até no tamanho, mas a casca é fina e de cor amarelo-clara; a polpa – doce, suavemente amarga, uma delícia – fica dentro de gomos esbranquiçados, uma pele amarga, daí porque, diferentemente da laranja, para se comer a lima, é necessário abrir os gomos ou então chupá-la, mas não dá para comer o bagaço porque amarga demais!


Os valores medicinais da lima estão suficientemente demonstrados: o suco é auxiliar da digestão, daí dizerem que a fruta previne e trata "doenças do estômago" em geral; é diurético, por tal motivo, "entrou na moda" como "o suco que combate a celulite e emagrece"! Evidentemente, tais propriedades milagrosas carecem de respaldo científico.

Pense num diurético potente: é a lima! Tanto que, no sertão, criança não podia comer a fruta à noite para não fazer xixi na cama! Lembro-me, também, da história de que "lima quente dá dor de barriga". Por tal motivo, a gente só podia colhê-la para "comer na hora", pela manhã ou no fim da tarde, mesmo assim, colocando-as delicadamente dentro de um balde de água para esfriá-las.


Além disso, "a cultura popular diz que o chá feito de casca de lima, quando tomado regularmente após as refeições, ajuda a prevenir as palpitações cardíacas". Ou seja, é um tranquilizante. A sabedoria sertaneja diz que criança muito danada deve chupar lima e tomar um chazinho de casca da fruta de vez em quando para se acalmar. Vovó era incansável em "receitar" lima e chá da casca dela para crianças inquietas e arreliadas.


Meu avô Braulino dizia que "lima tem ciência" e só era boa "pegada com a mão" e chupada debaixo do pé, por ser uma fruta fina: se machucar, fica amargosa. Estava coberto de razão! Tanto que as limas de sacolão nem sempre são docinhas, algumas possuem um sabor de doce-amargo. Não há do que duvidar: são frutas machucadas, muito manuseadas, porque lima colhida e transportada com cuidado é doce, doce, doce…


Comer lima é voltar à minha infância. Cada vez que como a fruta é como se estivesse no pomar da casa da vovó… São recordações de manhãs de brisa aconchegante debaixo do nosso pé de lima, pegando uma por uma no pé.


Fonte:

Autora: Fátima Oliveira

(Médica e escritora. É do Conselho Diretor da Comissão de Cidadania e Reprodução e do Conselho da Rede de Saúde das Mulheres Latino-americanas e do Caribe. Indicada ao Prêmio Nobel da paz 2005)

https://vermelho.org.br/coluna/lima-da-persia-e-a-doce-lima-do-sertao-de-minha-meninice/
































quarta-feira, 29 de julho de 2026

CITAÇÕES: USE COMO EPÍGRAFE ESTA FRASE DE ZORA NEALE HURSTON

 


“Deuses sempre se comportam como as pessoas que os criam”

 – Zora Neale Hurston; apud Mariana Enriquez, in “Nossa parte de noite”; tradução de Elisa Menezes.

segunda-feira, 27 de julho de 2026

RACISMO: SARAH BAARTMAN, AFRICANA QUE VIROU ATRAÇÃO DE CIRCO

 SARAH BAARTMAN


A CHOCANTE HISTÓRIA DA AFRICANA QUE VIROU ATRAÇÃO DE CIRCO

Em outubro de 1810, Sarah Baartman foi levada da África do Sul 
à Grã-Bretanha para aparecer em espetáculos. (Foto SPL)

Há dois séculos, Sarah Baartman morreu após passar anos sendo exibida em feiras europeias de "fenômenos bizarros humanos". Agora, rumores de que sua vida poderia ser transformada em um filme de Hollywood estão causando polêmica.

Sarah Baartman morreu em 29 de dezembro de 1815, mas o show, sob uma perspectiva ainda mais macabra, continuou.

Seu cérebro, esqueleto e órgãos sexuais continuaram sendo exibidos em um museu de Paris até 1974. Seus restos mortais só retornaram à África em 2002, após a França concordar com um pedido feito por Nelson Mandela.

Ela foi levada para a Europa, aparentemente, sob promessas falsas por um médico britânico. Recebeu o nome artístico de "A Vênus Hotentote" e foi transformada em uma atração de circo em Londres e Paris, onde multidões observavam seu traseiro.

Hoje em dia, ela é considerada por muitos como símbolo da exploração e do racismo colonial, bem como da ridicularização das pessoas negras muitas vezes representadas como objetos.


Boatos

Recentemente, começou a correr um rumor de que a cantora Beyoncé estaria planejando escrever e protagonizar um filme sobre Baartman.

Os representantes da artista negaram essa informação, mas o burburinho foi suficiente para provocar preocupação.

Jean Burgess, chefe do grupo khoikhoi – a etnia de Baartman – disse que Beyoncé não conta com "a dignidade humana básica para ser digna de escrever a história de Sarah, menos ainda para interpretá-la". Ela justificou que via com "arrogância" a suposta ideia de Beyoncé de "contar uma história que não pertence a ela" e sugeriu que a atriz fizesse um filme sobre indígenas americanos.

Boato de filme sobre vida de Baartman foi desmentido por equipe de Beyoncé

Já Jack Devnarain, presidente do Sindicato de Atores da África do Sul, disse que os cineastas têm "direito de contar a história de pessoas que as fascinam e não devemos nos opor a isso".

Ao negar qualquer vínculo com o filme, o representante de Beyoncé ponderou que "esta é uma história importante que deve ser contada".


História



A vida de Baartman foi marcada por penúrias.

Acredita-se que ela tenha nascido na Província Oriental do Cabo da África do Sul em 1789.

Sua mãe morreu quando ela tinha dois anos e seu pai, um criador de gado, morreu quando ela era adolescente.

Ela começou a trabalhar como empregada doméstica na Cidade do Cabo quando um colono holandês assassinou seu companheiro, com quem havia tido um bebê que também morreu.

Em outubro de 1810, apesar de ser analfabeta, ela supostamente assinou um contrato com o cirurgião inglês William Dunlop e o empresário Hendrik Cesars, dono da casa em que ela trabalhava, que disse que ela viajaria para a Inglaterra para aparecer em espetáculos.

Atração

Quando ela foi exibida em um estabelecimento em Piccadilly Circus, em Londres, causou fascinação.

"É preciso lembrar que, nesta época, nádegas grandes estavam na moda, e por isso muitas pessoas invejavam o que ela tinha naturalmente", diz Rachel Holmes, autora de A Vênus Hotentote: vida e morte de Saartjle Baartman.

O motivo para isso é que Baartman, também conhecida como Sara ou Saartjie, tinha esteatopigia, uma condição genética que faz com que a pessoa tenha nádegas protuberantes devido à acumulação de gordura. Essa condição é mais frequente em mulheres e principalmente entre aquelas de origem africana.

A Venus de nádegas "belas" e as curvas de uma mulher 'esteatopígica'

Mas a própria palavra é motivo de debate, porque, para muitos, seria racista o fato de ela sugerir que se uma mulher tem nádegas grandes e é negra, sofre de uma doença.

Já para as nádegas pequenas a palavra é "calipigia", em referência à famosa estátua romana Vênus Calipigia – que significa "a Vênus das nádegas belas".


Toda uma Vênus

No espetáculo, Baartman usava roupa justa e da cor da sua pele, contas e plumas e fumava um cachimbo.

Clientes mais abastados podiam pagar por demonstrações privadas em suas casas, em que era permitido que os convidados a tocassem.

Os "empresários" de Baartman a apelidaram de "Vênus Hotentote" porque, nesta época, esse era o termo que os holandeses usavam para descrever os khoikhois e aos san, os principais membros de um importante grupo populacional africano, os khoisans.

Atualmente, o termo 'hotentote' é considerado pejorativo.

Livre ou assustada?

Nesta época, o império britânico já havia abolido o tráfico de escravos (em 1807), mas não a escravidão.

Mesmo assim, ativistas ficaram horrorizados com a forma como os empresários de Baartman a tratavam em Londres.

British Museum: Charges políticas foram feitas com figura de Baartman

Eles foram processados judicialmente por deter Baartman contra sua vontade, mas foram declarados inocentes. A própria Baartman testemunhou a favor deles.

"Ainda não se sabe se Baartman foi forçada, como os defensores da abolição e os ativistas humanitários alegavam, ou se atuou por livre arbítrio", diz o historiador Christer Petley, da Universidade de Southampton, na Inglaterra.

"Se eles a estavam obrigando a trabalhar, é possível que tenha se sentido intimidada demais para dizer a verdade no tribunal. Nunca saberemos."

"O caso é complexo e a relação entre Baartman e seus chefes definitivamente não era igualitária."

A caminho de Paris

Holmes destaca que o show de Baartman incluía dança e interpretação de vários instrumentos musicais, e diz que um público "sofisticado" em Londres – uma cidade em que as minorias étnicas não eram raras – não teriam se encantado por muito tempo com ela apenas pela sua cor.

De qualquer forma, com o tempo, o show da "Vênus" foi perdendo seu caráter de novidade e popularidade entre o público da capital, e por isso ela saiu em turnê pela Grã-Bretanha e Irlanda.

Em 1814, foi para Paris com seu empresário, Cesars, e outra vez virou uma celebridade, que tomava coquetéis no Café de Paris e ia às festas da alta sociedade.

Cesars voltou para a África do Sul e Baartman caiu nas mãos de um "exibidor de animais" cujo nome artístico era Reaux.

Baartman conquistou fama novamente em Paris

Ela bebia e fumava sem parar e, segundo Holmes, "provavelmente foi prostituída por ele".

'Grotesco'

Eventualmente, Baartman aceitou ser estudada e retratada por um grupo de cientistas e artistas, mas se recusou a aparecer completamente nua na frente deles.

Ela argumentava que isso estava além de sua dignidade: nunca havia feito isso em seus espetáculos.

Foi neste período que teve início o estudo que chegou a ser chamado de "ciência da raça", diz Holmes.

Baartman morreu aos 26 anos de idade.

A causa foi descrita como "uma doença inflamatória e eruptiva". Desde então, cogita-se que tenha sido resultado de uma pneumonia, sífilis ou alcoolismo.

O naturalista Georges Cuvier, que dançou com Baartman em um das festas de Reaux, fez um modelo de gesso de seu corpo antes de dissecá-lo.

Autoridades francesas e sul-africanas com o molde de gesso de Baartman antes da devolução

Além disso, preservou seu esqueleto, pôs seu cérebro e seus órgãos genitais em frascos, que permaneceram expostos no Museu do Homem de Paris até 1974, algo que Holmes descreve como "grotesco".

De volta para casa

"A dominação dos africanos foi explicada com ajuda da ciência, estabelecendo que os khoisan eram um grupo menos nobre no progresso da humanidade", escreveu Natasha Gordon-Chipembere, editora de Representação e feminilidade negra: o legado de Sarah Baartman.

Após sua eleição em 1994 como presidente da África do Sul, Nelson Mandela solicitou a repatriação dos restos mortais de Baartman e o modelo de gesso feito por Cuvier.

O governo francês acabou aceitando o pedido e fez a devolução, em 2002.

Em agosto do mesmo ano, seus restos mortais foram enterrado em Hankey, província onde Baartman nasceu, 192 anos após ela sair com destino à Europa.

Vários livros já foram publicados sobre a maneira como ela foi tratada e sua transcendência cultural.

"Ela acabou se tornando um molde sobre o qual se desenvolvem múltiplas narrativas de exploração e sofrimento da mulher negra", escreveu Gordon-Chipembere, que acha que, em meio à tudo isso, Baartman, "a mulher, permanece invisível".

Restos mortais foram enterrados em província em que ela nasceu

Em 2010, o filme Black Venus e o documentário The Life and Times of Sara Baartman contaram a história dela. Em 2014, a revista americana Paper botou na capa uma foto da celebridade americana Kim Kardashian balançando um copo de champanhe sobre suas nádegas avantajadas. Vários críticos reclamaram que a imagem lembrava desenhos retratando Baartman.

No ano passado, uma placa no local em que ela está enterrada em Hankey foi vandalizada com tinta branca. Isso ocorreu na mesma semana em que a Universidade da Cidade do Cabo retirou, após protestos, a estátua de Cecil Rhodes, um empresário e político do século 19, que declarou notoriamente que os britânicos seriam "a primeira raça no mundo".


"As pessoas estão resolvendo sobre como querem lidar com essas questões", diz Petley. "Muitas vezes elas foram ocultadas, e chegou a hora de reavaliá-las."



Fonte:


11 janeiro 2016

quinta-feira, 23 de julho de 2026

FAKE NEWS: O DIA EM QUE CHARLIE CHAPLIN PERDEU UM CONCURSO DE SÓSIAS

 

CHARLIE CHAPLIN JÁ PERDEU UM CONCURSO DE SÓSIAS?

Um concurso de sósias em um cinema em Dublin, Irlanda, durante a febre de Chaplin.

A imensa popularidade de Charlie Chaplin em meados da década de 1910 foi apelidada de "Chaplinite" pela imprensa. O crítico de cinema David Robinson descreveu o fenômeno em sua obra definitiva , Chaplin: Sua Vida e Arte :

“Os bailes de máscaras estavam em voga em 1917, mas jornalistas constantemente reclamavam que eles estavam sendo estragados, pois a maioria das moças se vestia de Annette Kellerman, a estrela da natação, e nove em cada dez homens se vestiam de Charlie Chaplin. Em fevereiro de 1917, uma fantasia de Charlie Chaplin foi usada como disfarce por um assaltante em Cincinnati. Quase na mesma época, a Sociedade de Pesquisa Psíquica de Boston investigava 'certos fenômenos relacionados ao anúncio simultâneo do Sr. Charles Chaplin, comediante de cinema, em mais de 800 grandes hotéis dos Estados Unidos'. Esse surpreendente fenômeno psicopatológico teria sido observado em 12 de novembro de 1916 em todo o país, do Atlântico ao Pacífico, e da fronteira canadense ao Golfo do México. O professor Bamfylde More Carew, membro da sociedade e autor do artigo sobre o fenômeno, destacou que Chaplin, com seu 'humor singular', havia se tornado uma obsessão americana e que, entre as mentes jovens e ativas do país, Chaplin era um tema de constante reflexão. …
Havia evidências mais concretas do apelo único de Chaplin no Photo-play News de 3 de março de 1917: várias administrações de cinema relataram que, após duas semanas de exibição de comédias de Chaplin, foi necessário apertar os parafusos das poltronas, pois o público havia rido tanto que a vibração os afrouxara.” (Robinson, 2001, p. 223-224. Obra original publicada em 1985)

Uma fotografia de 1916 de meninos vestidos como Chaplin, publicada em 1936.

A febre Chaplin também trouxe uma onda de produtos licenciados de Charlie Chaplin, partituras, canções – assim como imitadores, filmes falsificados de "Charlie Chaplin" e concursos de sósias.

Um cartão-postal retratando Chaplin enlouquecido por inúmeros imitadores.

Um anúncio de um concurso em Londres.

Segundo recortes de imprensa de 1918 nos Arquivos Chaplin, quando Mary Pickford estava em Londres para um jantar do Anglo Saxon Club, ela contou uma história a Lord Desborough, que a repetiu à imprensa: Charles Chaplin participou de um concurso de imitações de Chaplin em uma feira nos EUA e ficou em 20º lugar.

A primeira menção da história nos Arquivos Chaplin encontra-se em um álbum de recortes de imprensa de 1918.

Essa anedota, contada por Lord Desborough, quem quer que ele tenha sido, foi amplamente divulgada na imprensa britânica da época. Um jornalista observou com precisão em um artigo que essa história "teria vida longa". Diversas versões dessa suposta "história perfeita" foram disseminadas nas décadas de 1920 e 30 e continuam sendo propagadas até hoje, mais de um século depois.

Não há menção anterior à participação de Chaplin em tal competição em nenhum outro álbum de recortes de imprensa nos Arquivos Chaplin, portanto, presume-se que esta seja a fonte original da história.

Um recorte de imprensa de 1920 nos Arquivos Chaplin.

Décadas mais tarde, Charles Chaplin Jr. escreveu em seu livro, Meu Pai, Charlie Chaplin, que seu pai participou de uma competição e ficou em terceiro lugar, não em vigésimo. Ele escreveu que pessoas do mundo todo “iam assistir aos seus filmes. Elas acorriam para vê-lo quando ele viajava. Realizavam inúmeros concursos de imitação do Charlie Chaplin. Meu pai me contou sobre um desses concursos que aconteceu antes de eu nascer. Foi no Teatro Chinês de Grauman, em Hollywood, e havia trinta ou quarenta pessoas no palco fazendo o possível para imitar meu pai. Meu pai era uma delas. Ele subiu incógnito para ver como se sairia. Ele ficou em terceiro lugar. Meu pai sempre achou essa uma das piadas mais engraçadas que se possa imaginar — se sobre ele, sobre os jurados ou sobre ambos, eu não sei.” (Chaplin, 1960, p. 202-203)

Um recorte de jornal de 1931 afirma que Chaplin ganhou o terceiro prêmio em um concurso de sósias.

Cabe ressaltar que o Teatro Chinês de Grauman foi inaugurado em 1927, após o nascimento de Charlie Chaplin Jr. em 1925, e quase uma década depois da primeira menção à participação de Chaplin em um concurso de sósias nos recortes de imprensa de nossos arquivos. Além disso, o relato de Charlie Chaplin Jr. foi escrito décadas depois da suposta realização do concurso.

Sósias japoneses na década de 1930

Em 1966, seis anos após a publicação do livro de Charlie Chaplin Jr., o próprio Chaplin desmentiu a história em uma entrevista com Richard Meryman. Quando questionado sobre outro boato de que teria cometido um erro ao criar seu famoso figurino e maquiagem, cortando um bigode grande "pequeno demais", Chaplin explicou: "Isso não é verdade. Como diz a lenda, participei de uma competição – toda semana havia uma competição para ver quem era o melhor Charlie Chaplin – e ela acontecia na Main Street – com prêmios de 25 dólares, e a lenda diz que eu participei e fiquei em terceiro lugar... Em primeiro lugar", continuou ele, "eu trabalho duro o dia todo. Certamente não quero fazer isso."



Trecho da transcrição da entrevista com Meryman

Parece, portanto, que a “história perfeita” era boa demais para ser verdade.

Sósias de Charlie Chaplin e Jackie Coogan em frente ao Teatro Rialto em Butte, Montana, 1921.



Fonte:


segunda-feira, 20 de julho de 2026

HUMOR: CARTAZES ABSURDOS

CARTAZES ABSURDOS

Sabemos que o analfabetismo funcional carrega um estigma para milhares de brasileiros. Não saber interpretar um texto ou não saber escrever coisas simples constitui um desafio para as políticas educacionais de qualquer governo. E é preciso que tenhamos para com essas pessoas o respeito que olha com olhos de busca de solução e de ajuda, sempre que possível. Portanto, as redações absurdas dos cartazes abaixo não têm o escopo de crítica aos redatores: devemos vê-los como descuido, simples descuido, ou o viés de pessoas que interpretam as palavras de seu jeito e não têm nenhum senso de autocrítica para publicá-las assim:













quinta-feira, 16 de julho de 2026

HUMOR: CARTAZES DIVERTIDOS

Divulgar uma promoção, comunicar algo ao público ou, simplesmente, promover um serviço: usam-se cartazes. Mas, o redatores nem sempre tomam o devido cuidado com amibiguidades ou com o fato de se tornarem divertidos. Eis alguns exemplos: