OS TRAÇOS E A PERMANÊNCIA DE PÉRICLES E DO AMIGO DA ONÇA
— O que você faria se estivesse agora na selva e uma onça aparecesse na sua frente?
— Ora, dava um tiro nela.
— Mas se você não tivesse nenhuma arma de fogo?
— Bom, então eu a mataria com meu facão.
— E se você estivesse sem o facão?
— Apanhava um pedaço de pau.
— E se não tivesse nenhum pedaço de pau?
— Subiria na árvore mais próxima!
— E se não tivesse nenhuma árvore?
— Sairia correndo.
— E se você estivesse paralisado pelo medo?
Então, o outro, já irritado, retruca:
— Mas, afinal, você é meu amigo ou amigo da onça?”
Essa era uma das piadas mais populares do Brasil, nos anos 1940. Essa anedota foi além do riso e provocou um impacto profundo na vida de um pernambucano, Péricles de Andrade Maranhão.
Nascido em 14 de agosto de 1924, no Bairro do Espinheiro, zona norte do Recife, Péricles, desde cedo, demonstrou talento para desenhar. Leitor das histórias em quadrinhos de personagens como Dick Tracy, Agente Secreto X9 e Flash Gordon, o garoto vivia rabiscando.
Estudante do Colégio Marista, participou de um concurso para a Semana do Trânsito, organizado pelo escritor Souza Barros. Mesmo disputando com nomes já consagrados, o adolescente conseguiu alcançar o primeiro lugar. Encorajado pela vitória, levou seus desenhos ao Diário de Pernambuco e entusiasmou seu editor, Aníbal Fernandes.
Com apenas 17 anos, reuniu seus desenhos, enfrentou a timidez e arriscou uma viagem até à capital do país, com uma carta de recomendação de Aníbal Fernandes. No Rio de Janeiro, procurou Leão Gondim de Oliveira, diretor da então mais famosa publicação do país, O Cruzeiro.
No ano de 1942, Péricles publica as histórias de Oliveira, O Trapalhão, seu primeiro personagem, na revista O Guri e no Diário da Noite, ambos dos Diários Associados. Na tirinha, baseada no conceito da “piada de português”, o autor começa a utilizar figuras pitorescas do Rio, como o coadjuvante Laurindo, malandro carioca, de pele escura, com direito ao inevitável clichê “camisa listrada”.
No ano seguinte, Leão Gondim de Oliveira pensou em um personagem fixo para O Cruzeiro, a partir de um cartum de Guillermo Divito, Enemigos del Hombre, publicado na revista argentina Patoruzú. O editor já tinha até definido o nome: Amigo da Onça. Só faltava quem fizesse o desenho…
No Brasil, Zé Caipora (1869), do ítalo-brasileiro Angelo Agostini, era considerado o primeiro grande personagem do humor gráfico no país. Depois veio o Juca Pato (1929), do cartunista Belmonte, publicado na Folha da Manhã (atual Folha de S.Paulo). Com as vendas expressivas da revista em quadrinhos Tico-Tico (1907), cerca de 30 mil exemplares, Roberto Marinho, de olho no novo filão, lançou, em 1939, O Gibi, cujo êxito transformou a palavra que significa “moleque” em sinônimo de histórias em quadrinhos.
Frequentador de um bar na Rua Uruguaiana, foi lá que Péricles teve a inspiração para compor o Amigo da Onça. Um dos garçons que o servia costumava perguntar inconvenientemente o que o cliente estava desenhando na mesa. Certa vez, ouviu um comentário passivo-agressivo: “Você ganha dinheiro com esses rabiscos? Puxa, eu queria ter esse vidão!”
Péricles olhou para o homem e teve o estalo que precisava para criar o personagem: um sujeito de tamanho médio, olhos esbugalhados, bigodinho, cabelo preto impecável na brilhantina, paletó de linho branco, gravata borboleta e calça social preta. Nos cartuns, o Amigo da Onça poderia assumir qualquer profissão: barbeiro, médico, advogado, delegado ou apenas um grã-fino flâneur.
No início, O Amigo da Onça era publicado na última página. Mas a direção percebeu que o público chegava às bancas para ver o cartum da semana e descartava a compra. Então, a empresa resolveu realocar o desenho nas internas. Muitas dessas páginas foram arrancadas por leitores para serem emolduradas em bares, restaurantes, oficinas de automóveis e barbearias.
O êxito avassalador d’O Amigo da Onça não causava somente uma pontinha de inveja nos colegas desenhistas, mas, de alguma forma, no próprio Péricles. Afinal, o criador era menos conhecido do que sua criatura – quando alguém falava sobre o primeiro precisava mencionar o segundo. “Que Péricles? – “Péricles, d’O Amigo da Onça”.
O pernambucano morreu em 1961, ano em que o Brasil, pelas inovações em várias áreas, inclusive com a inauguração de Brasília um ano antes, imaginava entrar numa rota de desenvolvimento social, cultural, econômico e político. Mas estava nos últimos anos da primavera democrática pós-Estado Novo e prestes a entrar no inverno da ditadura militar a partir de 1964, quando os humoristas passaram a ser alvos de perseguição e censura.
Fonte:
Texto Débora Nascimento
Débora Nascimento é editora-assistente das revistas Pernambuco e Continente.
Data 01 de agosto de 2024
Nota do blog: o texto acima é só um excerto do original, que pode ser lido neste endereço:



















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