quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

CINEMA: BACURAU

 



BACURAU


No filme Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles (2019), [...] o tratamento da agressividade é ilustrado em diferentes formas de pacto social. A cidade de Bacurau representa assim comunidades humanas locais, sem valor produtivo, que só entram no mapa neoliberal como alvos de pilhagem. As formas de expressão da agressividade sem álibi segundo as formas de pacto social que a metabolizam, a saber, o local comunitário, e o global, neoliberal, podem ser lidas nos diferentes regimes de visibilidade pelos quais a agressividade é tematizada no filme.

Foto: Udo Kier

Por exemplo, a agressividade dos norte-americanos e do coordenador alemão do safári humano a ser realizado em Bacurau é transmitida por câmeras em drones, dispositivos que podem ir a qualquer lugar e mostrar a destruição para a tela do espectador, enquanto este permanece bem fixado em seu ponto de vista, apesar da extrema mobilidade das perspectivas que tem à mão. Metáfora de uma visibilidade que poupa o espectador de se colocar no lugar do outro, sendo assim possível matá-lo com a consciência tranquila, sem empatia nem pudor diante de seu olhar. Não é um acaso que essa forma de visibilidade seja a forma geral do olhar em nosso tempo, olhar em perfeita continuidade com a ideia de liberdade neoliberal como autonomia sem submissão moral à lei, cuja obediência se reduz ao cálculo entre os benefícios da transgressão e os riscos da exposição. O filme mostra a fraqueza dessa forma de pacto social contratual em dois momentos. No primeiro, quando os sulistas brasileiros evocam sua semelhança com os norte-americanos: “O sul do país é rico, industrializado, dizem. Somos iguais a vocês, brancos, descendentes de italianos, alemães”. A resposta a essa demanda de reconhecimento que o colonizado faz ao colonizador é simplesmente uma gargalhada e uma rajada de tiros. O segundo momento que mostra a fragilidade desse pacto social se passa entre o próprio grupo dos participantes norte-americanos e o líder e organizador alemão do safári humano. Não encontrando ninguém de Bacurau em sua mira, o líder começa atirando num cachorro e depois passa a alvejar seus próprios clientes. Quando todos estes estão mortos, e nada mais tendo para matar, resolve enfiar o cano da arma em sua própria boca. Ilustração da lógica da pulsão de morte em ação livre, resumível na equação simples: ou eu te mato, ou eu me mato.


Temos também um tratamento da agressividade como experiência catártica, presente na repetição dos 10 mais do personagem Pacote. Nessa experiência, incessantemente repetida pela mídia local, a saber, a grande tela ambulante da camionete que circula pela cidade e os celulares, o povo de Bacurau submerge em horas mortas. Retrato da absorção hipnótica do homem comum pela indústria cultural no cinema, na televisão, nas telas de computador e nos celulares e metáfora da imobilização política do espectador, através da exposição repetida da violência sobre os corpos.


Finalmente, é importante lembrar que temos, do início ao fim do filme, a presença do museu de Bacurau, espaço que mostra e lembra àquela comunidade o seu próprio passado. Museu que mantém na lembrança a violência do cangaço. Pelo museu, esse tempo é narrado e rememorado, mas não revivido. Nesse sentido, uma das cenas mais importantes no lme é aquela em que a mulher encarregada da limpeza do museu, após a chacina, diz à sua ajudante: “Limpe o chão, mas deixe as marcas de sangue nas paredes”. Forma de inscrever na história a barbárie presente ao lado das barbáries do passado e assim lembrar que ela sempre estará ali onde estivermos. Barbárie que, inscrita, localiza cada visitante do museu como seu possível autor. Estratégia análoga àquela dos vidros que Francis Bacon colocou sobre algumas de suas telas mais fortes: com o seu reflexo, tais vidros mostram o gozo que as imagens de corpos deformados produzem no olhar do próprio espectador. Talvez assim ele recupere seu pudor.

Francis Bacon - study for a portrait - 1952


FONTE:

BACURAU. Direção: Kleber Mendonça Filho, Juliano Dornelles. Brasil; França, 2019. 2h10min.

Wladimir Safatle, Nelson da Silva Junior, Christian Dunker (organizadores), in “Neoliberalismo como gestão do sofrimento psíquico”.

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