sábado, 13 de junho de 2026

GRANDES PERSONALIDADES: MISTINGUETT E SUA RELAÇÃO COM O BRASIL



FURACÃO PARISIENSE:

OS HERDEIROS CARIOCAS DO SÍMBOLO DOS ANOS LOUCOS


Mistinguett, vedete francesa que passou pelo Rio 
há mais de 90 anos, tem neto e bisnetos no Rio

Um furacão vindo de Paris varreu o Rio de Janeiro entre agosto e setembro de 1923. Mistinguett, a vedete parisiense símbolo dos anos loucos, passava pela cidade com sua turnê sul-americana “C’est la Miss”, arrancando aplausos, muitos beijos e suspiros diante de suas pernas “inteligentes e espirituais”, consideradas as mais bonitas do planeta e seguradas em US$ 1 milhão. Da aventura tropical de Mistinguett, quase tudo se noticiou na imprensa carioca. Inclusive alguns de seus possíveis casos... O que grande parte do público não sabia é que a sua conexão com a cidade era anterior e ficaria marcada até hoje.

A irreverente Mistinguett durante turnê nos Estados Unidos em 1924: 
pernas (de um milhão de dólares de fora) e muitas, muitas plumas. 
Um ano antes, ela fez uma série de espetáculos no Rio 
e causou frisson na inauguração do Copacabana Palace.

A estrela do teatro de revista era pioneira: na virada dos séculos XIX e XX, ela teve um romance com o engenheiro e diplomata Leopoldo José de Lima e Silva, de rica família do Rio e cônsul do Brasil em Paris, com quem teve um filho, nascido em 1901. Seria o único herdeiro dos dois, que não se casaram e morreram solteiros. O filho, batizado com o nome de Leopoldo e apenas com o sobrenome do pai, se casaria com um francesa, Denise, e teria dois filhos cariocas: Helena Maria, ou Maléne, que vive na França, e o embaixador Francisco de Lima e Silva, que mora no Rio, no bairro de São Conrado. Cada um deles, por sua vez, teve três filhos.


Francisco conviveu até os 15 anos com a avó — que morreu em 1956, provocando grande comoção em Paris — e guarda em casa parte da memória de Jeanne Bourgeois, que ganhou o apelido de Mistinguett (uma derivação da opereta Miss Helyett) no final do século XIX. As pastas com a documentação da família meio parisiense, meio carioca, revelam curiosidades nunca publicadas e são um deleite para quem viaja nas histórias da belle époque e dos loucos anos 20. Em oposição à sua ousadia e irreverência, Mistinguett manteve até o fim certa discrição em relação a essa parte da sua história, mal contada até na sua autobiografia, “Toute ma vie” (“Toda minha vida”).


Em fotos do arquivo de família, Mistinguett (se pronuncia Mistãgueti) aparece em situações íntimas com o filho, que, de roupinha de marinheiro, faz cara de travesso numa imagem rara: ao lado do pai (de bigodão e chapéu) e da mãe, o pequeno Leopoldo finge conduzir a família num carro cenográfico. Mais velho, ele posa na companhia da mãe, sentada, cada um segurando o seu cigarro. Entre cartas carinhosas enviadas ao Rio pela artista e também dezenas de fotografias, Francisco aparece bem pequeno com a avó e um cachorrinho (ela adorava animais) na praça principal de Nice, no Sul da França.

Mistinguett no Moulin Rouge, C.1928

— Eu vivi em Paris dos 5 aos 15 anos de idade e, nesse período, todas as quintas-feiras, eu e meu pai almoçávamos com ela, no seu apartamento, na Rua des Capucines. A casa era aberta, e ela reunia artistas, jornalistas e intelectuais franceses. No meio do almoço, ela queria que todos os convidados apresentassem algo, como recitar uma poesia, contar uma história. É a lembrança mais viva que tenho dela — recorda Francisco, de 78 anos, que dentro de casa só conversa em francês e que seguiu a carreira do avô, tornando-se embaixador.

Leopoldo vinha de linhagem tradicionalíssima: o cônsul de Paris era sobrinho-neto de Duque de Caxias e bisneto do brigadeiro Francisco de Lima e Silva (regente do Império). O neto era, para Mistinguett, simplesmente o “petit François”. Por outro lado, ele chamava a avó pelo apelido de Miki, e com ela costumava passar férias na propriedade Villa Mistinguetti, em Antibes, na Riviera Francesa.

A fortuna da família Lima e Silva provinha do café. O neto (que não conheceu o avô, morto em 1931) imagina como foi o encontro dos dois:

— Como cônsul, meu avô tinha muitas atividades e contatos. Em 1900, ela já era uma pequena estrela. Ele era um diplomata da alta sociedade brasileira, e ela uma artista. Era uma situação complicada naquele tempo.

Ele lembra que, aos 6 anos, seu pai, Leopoldo, veio para o Brasil para ser criado pela família paterna, onde se tornou médico. Mais tarde ele retornaria para lutar com a resistência francesa contra a ocupação alemã. Na França, se especializaria em neurocirurgia. Ele morreu em 1971.

Mistinguett foi a primeira artista a descer de uma escada montada num palco e, 20 anos antes de Marlene Dietrich, adotava o estilo andrógino. Bisneto dela e filho de Francisco, o empresário Luis Cesar de Lima e Silva, de 46 anos, conta que se surpreendeu quando descobriu, durante uma viagem à França, que Mistinguett virou um apelido por lá:

O nome Mistinguett é sinônimo de mulheres modernas, à frente do seu tempo — defende Lulu, que herdou os profundos olhos verdes da vedete.



Fonte :

Autora : Ludmilla de Lima

Atualizado em 14/10/2013


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