quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

GRANDES PERSONALIDADES: MIGUEL DE CERVANTES

 MIGUEL DE CERVANTES 

(1547 - 1616)


Retrato de Cervantes pintado por Juan de Jáuregui

O homem que criou o cavaleiro da triste figura. Que o fez lutar contra os moinhos de vento, e que deu o tiro de misericórdia nos grandes romances de cavalaria, nasceu em Alcalá de Henares, Espanha, em 1547, filho de um modestíssimo cirurgião e de uma nobre empobrecida.

Recebeu o nome Miguel de Cervantes de seus pais e o imortalizou.

Este jovem, provavelmente, estudou em Madrid retórica e gramática com o famoso humanista espanhol, Juan Lópes de Hoyos. Foi também nesta mesma cidade e nesta mesma época que Cervantes compôs seus primeiros sonetos.



Era época de novas estéticas e novos ideais de vida. Época em que os ventos do Barroco já começavam a soprar sobre as cabeças dos artistas espanhóis. Passada essa doce época de estudos e sonetos, Cervantes alistou-se, em 1570, nas tropas pontifícais para lutar contra os turcos que ameaçavam a Europa.

Foi guerreiro de grande coragem e sua fama correu a Espanha, porém sua bravura acabou custando-lhe a perda da mão esquerda na famosa batalha de Lepanto.

Quando voltou à Espanha, em 1575, o barco em que viajava foi tomado pelos inimigos turcos. Cervantes foi feito prisioneiro e passou cinco anos de sua vida preso na Argélia.


Tanto tempo de prisão deveu-se aos poucos recursos que tinha seu pobre pai cirurgião, pois os turcos exigiam um resgate pelo qual a família Cervantes não tinha como pagar.

Desesperado, seu pai saiu pedindo aos amigos, parentes, fidalgos e padres compadecidos dinheiro para libertar os filhos, pois o irmão de Miguel, Rodrigo, também estava na embarcação e havia sido feito prisioneiro.

Em 1577, seu irmão Rodrigo é liberado depois de pago o resgate. Cervantes continua preso, tenta fugir por duas vezes, mas não consegue.


Em 1578, tenta fugir pela terceira vez e fracassa. Tenta pela quarta vez e fracassa novamente. Às vésperas de ser mandado para Constantinopla, é resgatado por frades trinitários, que pagam por ele a quantia de quinhentos ducados. Mora um mês em Valência. Depois, dirige-se a Madri em busca de emprego. Viaja a Portugal. Desempenha uma missão em Oran.

Muito desiludido com a vida militar, Cervantes passa agora a dedicar-se à vida literária. Estabelecido em Madrid, procurou concluir Galateia, obra começada no cárcere e que celebrava, em contraste à vida sem liberdade, uma visão plácida e repousante do mundo.

Em 1584, casou-se com Catalina de Palácios, da qual, após um ano de intensas brigas, se separaria. Depois de sua separação, Cervantes, para sobreviver, aceita o cargo de Comissário Real de Abastecimento da Invencível Armada, passando, em seguida, a coletor de impostos.


Este emprego acabou causando-lhe alguns problemas com a lei. Cervantes foi acusado injustamente de se beneficiar do desvio de verbas. Foi preso em Sevilha, onde se supõe que tenha começado sua obra prima: Dom Quixote de la Mancha, cuja primeira parte foi editada em 1605 e a segunda em 1615, época em que Cervantes atingiu o auge de seu talento em obras teatrais e muitas novelas, entre elas, Novelas Exemplares, O Amante Liberal, A Espanhola Inglesa e Senhora Cornélia; no teatro: O Cerco de Numância, A Viagem de Argel, Oito Comédias e Oito Prelúdios, e outras.

O brilho das peças de Cervantes, porém, seria ofuscado pela genialidade de outro escritor da época: Lope de Vega, cuja obra dominou todo o século XVII. Sua maior criação, O Dom Quixote, por sua vez, não teve rivais. Inspirada em um caso real de loucura, destinava-se claramente a combater a cavalaria andante. Opondo-se de forma contundente e irônica à irrealidade das novelas de cavalaria, as quais ainda eram muito lidas na Espanha daquela época. Cervantes encontra a morte em 1616.

A intenção de Cervantes era fazer uma sátira mordaz dessa "propaganda" cavaleiresca e dos tolos que se armavam cavaleiros às cegas, movidos por esta literatura de aventuras.

Nesse sentido, qualquer analogia feita em relação àquelas pessoas que saem pela Espanha fazendo o Caminho de San Tiago após ler o Alquimista de Paulo Coelho não é mera semelhança, mas prova inconsteste de que as tolices humanas se perpetuam até os dias de hoje.

O Dom Quixote, porém, não foi apenas uma crítica. Devido à genialidade de seu autor, a obra acabou por se tornar muito mais que a simples caricatura de um estilo. Acabou por retratar a aventura humana dividida entre sonho e realidade, entre a alienação e a práxis.

O cavaleiro da triste figura é uma da imagens mais criativas e mais realistas da realidade humana. Cervantes consegue dar total e completa noção do que a alienação pode causar.

Seu Quixote divide-se entre uma realidade que vai aos poucos o desfigurando e uma loucura que demonstra o quanto uma perversão social - no caso a idéia de que a causa cavaleiresca se dava na vida real da mesma forma que nos inverossímeis romances de cavalaria - pode ser destruidora e imbecilizante.

O nazismo é um caso no qual se demonstra o quanto uma perversão social pode ser destruidora. Outro caso atualíssimo dessa divisão representada pelo Quixote é o da propaganda que induz em nós falsos desejos através da multiplicação das imagens do prazer.

Nós não somos os homens de Malboro, nem as maravilhosas mulheres que fumam Free, muito menos os saudabilíssimos consumidores de cerveja que a televisão, os outdoors e adjacências insistem em mostrar.


Fugimos à nossa realidade, da mesma forma que o Quixote, quanto tentamos viver no mundo inverossímel que a propaganda nos oferece comprando os produtos que ela divulga.

Ninguém será um homem ou uma mulher resolvida se comprar o último modelo de carro de luxo, da mesma forma que no tempo de Cervantes não havia cavaleiros andantes que lutavam, em nome de Deus, contra todo o mal existente na terra. Por essa e por outras razões que o livro de Miguel de Cervantes tornou-se uma das maiores obras da literatura mundial.


(ILUSTRAÇÕES: CÂNDIDO PORTINARI)


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