domingo, 30 de março de 2025

AILUROFILIA: UM POEMA DE PABLO NERUDA

 

UM INCRÍVEL POEMA DE PABLO NERUDA PARA QUEM AMA GATOS

(Ágata)



Gatos são animais fascinantes, curiosos, ora mais brincalhões, ora mais reflexivos. São afetuosos e se movimentam com agilidade e graça. A pelagem macia, os olhos penetrantes e profundos desses felinos conquistam muitos admiradores. Se você, assim como eu, ama os gatos, o poema “O gato” de Pablo Neruda irá te cativar.

O poema “Ode ao Gato” de Pablo Neruda, parte de sua obra Odas Elementales de 1954, é um exemplo notável da capacidade do poeta em personificar elementos da natureza e do cotidiano com uma profundidade emocional única. Neste poema, Neruda retrata o gato como um ser misterioso e sensual, capturando sua graça felina e seu comportamento independente. A linguagem utilizada é rica em imagens sensoriais, evocando a suavidade do pelo do gato, seus movimentos elegantes e seu olhar enigmático. Além disso, o poema explora temas como a solidão, o desejo e a conexão emocional, refletindo a intensidade dos sentimentos humanos através da figura do animal. A habilidade de Neruda em dar voz e profundidade a um objeto aparentemente simples como um gato é uma das marcas de sua genialidade poética, que continua a fascinar leitores ao redor do mundo.

Agora leia o poema na íntegra, na versão original em espanhol e na versão traduzida para o português:



ODA AL GATO 

Pablo Neruda


(Rubi)


Los animales fueron

imperfectos,

largos de cola, tristes

de cabeza.

Poco a poco se fueron

componiendo,

haciéndose paisaje,

adquiriendo lunares, gracia, vuelo.

El gato,

sólo el gato

apareció completo

y orgulloso:

nació completamente terminado,

camina solo y sabe lo que quiere.


(Mittens)

El hombre quiere ser pescado y pájaro,

la serpiente quisiera tener alas,

el perro es un león desorientado,

el ingeniero quiere ser poeta,

la mosca estudia para golondrina,

el poeta trata de imitar la mosca,

pero el gato

quiere ser sólo gato

y todo gato es gato

desde bigote a cola,

desde presentimiento a rata viva,

desde la noche hasta sus ojos de oro.


(Jade - desapareceu de casa)

No hay unidad

como él,

no tienen

la luna ni la flor

tal contextura:

es una sola cosa

como el sol o el topacio,

y la elástica línea en su contorno

firme y sutil es como

la línea de la proa de una nave.

Sus ojos amarillos

dejaron una sola

ranura

para echar las monedas de la noche.


(Leon)

Oh pequeño

emperador sin orbe,

conquistador sin patria,

mínimo tigre de salón, nupcial

sultán del cielo

de las tejas eróticas,

el viento del amor

en la intemperie

reclamas

cuando pasas

y posas

cuatro pies delicados

en el suelo,

oliendo,

desconfiando

de todo lo terrestre,

porque todo

es inmundo

para el inmaculado pie del gato.

(Neil)


Oh fiera independiente

de la casa, arrogante

vestigio de la noche,

perezoso, gimnástico

y ajeno,

profundísimo gato,

policía secreta

de las habitaciones,

insignia

de un

desaparecido terciopelo,

seguramente no hay

enigma

en tu manera,

tal vez no eres misterio,

todo el mundo te sabe y perteneces

al habitante menos misterioso,

tal vez todos lo creen,

todos se creen dueños,

propietarios, tíos

de gatos, compañeros,

colegas,

discípulos o amigos

de su gato.

(Marie)


Yo no.

Yo no suscribo.

Yo no conozco al gato.

Todo lo sé, la vida y su archipiélago,

el mar y la ciudad incalculable,

la botánica,

el gineceo con sus extravíos,

el por y el menos de la matemática,

los embudos volcánicos del mundo,

la cáscara irreal del cocodrilo,

la bondad ignorada del bombero,

el atavismo azul del sacerdote,

pero no puedo descifrar un gato.

Mi razón resbaló en su indiferencia,

sus ojos tienen números de oro.




ODE AO GATO


(Fred)


Os animais foram

imperfeitos,

compridos de rabo, tristes

de cabeça.

Pouco a pouco se foram

compondo,

fazendo-se paisagem,

adquirindo pintas, graça vôo.

O gato,

só o gato apareceu completo

e orgulhoso:

nasceu completamente terminado,

anda sozinho e sabe o que quer.


(Theo, antes de perder a orelhinha)

O homem quer ser peixe e pássaro,

a serpente quisera ter asas,

o cachorro é um leão desorientado,

o engenheiro quer ser poeta,

a mosca estuda para andorinha,

o poeta trata de imitar a mosca,

mas o gato

quer ser só gato

e todo gato é gato do bigode ao rabo,

do pressentimento à ratazana viva,

da noite até os seus olhos de ouro.

(Theo, já sem a orelhinha)


Não há unidade

como ele,

não tem

a lua nem a flor

tal contextura:

é uma coisa

só como o sol ou o topázio,

e a elástica linha em seu contorno

firme e sutil é como

a linha da proa de uma nave.

Os seus olhos amarelos

deixaram uma só

ranhura

para jogar as moedas da noite .



Oh pequeno imperador sem orbe,

conquistador sem pátria,

mínimo tigre de salão, nupcial

sultão do céu

das telhas eróticas,

o vento do amor

na intempérie

reclamas

quando passas

e pousas

quatro pés delicados

no solo,

cheirando,

desconfiando

de todo o terrestre,

porque tudo

é imundo

para o imaculado pé do gato.



Oh fera independente

da casa, arrogante

vestígio da noite,

preguiçoso, ginástico

e alheio,

profundíssimo gato,

polícia secreta

dos quartos,

insígnia

de um

desaparecido veludo,

certamente não há

enigma na tua maneira,

talvez não sejas mistério,

todo o mundo sabe de ti e pertences

ao habitante menos misterioso

talvez todos acreditem,

todos se acreditem donos,

proprietários, tios

de gato, companheiros,

colegas,

discípulos ou amigos do seu gato.



Eu não.

Eu não subscrevo.

Eu não conheço o gato.

Tudo sei, a vida e o seu arquipélago,

o mar e a cidade incalculável,

a botânica

o gineceu com os seus extravios,

o pôr e o menos da matemática,

os funis vulcânicos do mundo,

a casca irreal do crocodilo,

a bondade ignorada do bombeiro,

o atavismo azul do sacerdote,

mas não posso decifrar um gato.

Minha razão resvalou na sua indiferença,

os seus olhos têm números de ouro.



Pablo Neruda foi um dos poetas mais influentes do século XX, conhecido por sua poesia apaixonada e engajada. Nascido no Chile em 1904 como Neftalí Ricardo Reyes Basoalto, adotou o pseudônimo de Pablo Neruda em homenagem ao poeta tcheco Jan Neruda. Sua obra é marcada por uma profunda sensibilidade à condição humana, explorando temas como amor, natureza e justiça social. Neruda recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1971 principalmente por sua obra “Canto Geral”, um épico que celebra a América Latina e suas lutas. Sua escrita é caracterizada por uma linguagem intensa e acessível, que ressoa com leitores de diversas culturas até os dias de hoje, consolidando-o como um ícone da literatura mundial.


Fonte:

Autora: Daiana

15 de junho de 2024



Notas do blog: 

1. Não encontrei nenhuma foto de Neruda com um gato. E mais: ele amava os cães, embora tenha dedicado esse belo poema aos gatos.
2. A fotos são dos gatos da familíla do blogger.

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