terça-feira, 30 de dezembro de 2025

FRUTA: JABUTICABA BRANCA

 BRASIL TEM UMA FRUTA NATIVA DA MATA ATLÂNTICA MUITO RARA




O Brasil é famoso pela sua biodiversidade exuberante, e a Mata Atlântica abriga uma das suas preciosidades mais raras com a jabuticaba-branca (Myrciaria aureana).

Embora o país seja um dos maiores produtores de frutas comuns como a banana, existem espécies nativas quase desconhecidas do grande público, que despertam a atenção de botânicos, ambientalistas e apreciadores da natureza.


Jabuticaba branca

Localizada principalmente em trechos preservados da Serra da Mantiqueira, que abrange partes do Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo, a jabuticaba-branca é uma árvore pequena, que não ultrapassa os cinco metros de altura.

Ela produz frutos que contrastam fortemente com a jabuticaba tradicional, devido à sua coloração única, sua casca e polpa têm um tom amarelo-esverdeado mesmo quando maduros, diferente da casca roxa comum.

O nome “ibatinga”, que significa “fruta branca” em tupi-guarani, traduz a singularidade da espécie que, apesar de ser uma jabuticaba, chama atenção justamente pela coloração incomum.

Raridade e conservação


Documentos botânicos indicam que a jabuticaba-branca é extremamente rara. No início dos anos 2000, apenas seis árvores silvestres foram encontradas no país, três em Guararema (SP), uma em Carmo de Minas (MG) e duas no Rio de Janeiro (Paraty e Conceição de Macabu).

Essa escassez levou a esforços de preservação. Pesquisadores, colecionadores e ambientalistas têm cultivado mudas para evitar a extinção da espécie. Um exemplo marcante é o cultivo de cerca de 180 mudas na cidade de Cambuí, Minas Gerais, iniciativa que busca disseminar a planta para além de seu habitat natural.

A jabuticaba-branca é considerada uma espécie rara e ameaçada, restrita a ambientes preservados. Sua reprodução exige manejo delicado, o que dificulta o cultivo fora de áreas protegidas.

Características e usos da jabuticaba-branca



Apesar de sua raridade, a jabuticaba-branca apresenta diversas qualidades:

  • Sabor e textura: Polpa aquosa, doce com leve acidez.
  • Valor nutricional: Rica em vitaminas B e C, ferro, fósforo e cálcio.
  • Formas de consumo: Pode ser ingerida in natura ou transformada em geleias, vinhos, doces e sorvetes.
  • Uso tradicional: Reconhecida por comunidades locais como remédio caseiro para asma e problemas respiratórios.

Jabuticaba-branca vs. banana, a fruta popular

Enquanto a jabuticaba-branca é rara e de cultivo restrito, a banana é a fruta mais consumida no Brasil e no mundo.

  1. Produção e consumo: O Brasil produz cerca de 6,8 milhões de toneladas de banana por ano, com consumo médio de aproximadamente 27 kg por pessoa anualmente, o que corresponde a quase uma banana por dia.
  2. Variedades: São mais de mil tipos no mundo, com as mais comuns no Brasil sendo nanica, prata, maçã, banana-ouro e banana-da-terra.
  3. Economia: Em 2021, a receita da produção de banana no Brasil atingiu R$ 13,8 bilhões.
  4. Geografia: Produzida em todos os estados brasileiros, destacando-se São Paulo, Bahia, Minas Gerais e Santa Catarina.


A jabuticaba-branca é um exemplo da riqueza escondida na biodiversidade brasileira. Conhecê-la e protegê-la é um passo importante para valorizar as espécies nativas e garantir que essas preciosidades não desapareçam diante do avanço da urbanização e da degradação ambiental.

Enquanto isso, a banana segue reinando como fruta de consumo diário para milhões, um símbolo da produtividade agrícola nacional. Ambas as frutas, cada uma à sua maneira, contam histórias sobre o Brasil, seu povo e sua natureza exuberante.


Fonte:




Filha da Terra da Luz, jornalista pela Universidade de Fortaleza (Unifor).

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

CITAÇÕES: USE COMO EPÍGRAFE ESTE TEXTO DE YANN MARTEL

 


  “Não há condições de ir além de uma explicação científica da realidade, e não é nada sensato acreditar em outra coisa senão na nossa experiência sensorial. Um intelecto claro, uma atenção minuciosa ao detalhe e um pouco de conhecimento científico bastam para demonstrar que a religião é uma baboseira supersticiosa. Deus não existe.” 

– Yann Martel, in “As aventuras de Pi”; tradução de Maria Helena Rouanet.

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

HUMOR: ORGASMOS ACENDEM LÂMPADAS

 XIBIU ELÉTRICO




Orgasmo feminino é coisa da qual as mulheres entendem muito pouco e os homens muito menos. Pelo fato de ser uma reação endócrina que se dá sem expelir nada, não apresenta nenhuma prova evidente de que aconteceu ou se foi simulado. O orgasmo masculino não, é aquela coisa que todo mundo vê. Deixa o maior flagrante por onde passa: Diante desse mistério as investigações continuam e muitas pesquisas são feitas e centenas de livros escritos para esclarecer este gostoso e excitante assunto.

Acompanho de perto, alias, juntinho, este latejante tema. Vi outro dia no programa do Jô Soares uma sexóloga sergipana dando uma entrevista sobre orgasmo feminino. A mulher, que mais parecia a gerente comercial da Wallita, falava do corpo como quem apresenta o desempenho de uma nova cafeteira doméstica.

Apresentou uma pesquisa que foi feita nos Estados Unidos para medir a descarga elétrica emitida pela piriquita na hora do orgasmo, e chegou a incrível conclusão de que, na hora H a piriquita dispara uma descarga de 250.000 microvolts. Ou seja, cinco pererecas juntas ligadas na hora do aimeudeus seria suficiente para acender uma lâmpada. Uma dúzia então, é capaz de dar partida num fusca com a bateria arriada.

Uma amiga me contou que está treinando para carregar a bateria do telefone celular. Disse que gozou e, tcham, carregou. É preciso ter cuidado porque isso não é mais xibiu, é a torradeira elétrica. Você coloca a linguicinha lá e brrrzz, sai torrada. Pensei : Camisinha agora é pouco, tem que mandar encapar na Pirelli ou enrolar com fita isolante. É recomendável, meu amigo, na hora que você for molhar o seu biscoito lá na canequinha de sua namorada perguntar : é 110 ou 220Volts?? Senão, meu xará, depois do que essa moça falou lá no Jô, pode dar ovo frito no café da manhã.


Fonte:

Artigo publicado num jornal de Sergipe, assinado pelo jornalista Ricardo Nunes.


Quarta-feira, 21 de Junho de 2000

sábado, 20 de dezembro de 2025

CITAÇÕES: USE COMO EPÍGRAFE ESTE TEXTO DE CHARLES BUKOWSKI

 


"Beijar é mais íntimo que trepar. Por isso eu odiava saber que as minhas mulheres andavam beijando outros homens. Preferia que só trepassem com eles. 

"Charles Bukowski, in “Mulheres”; tradução de Reinaldo Moraes.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

AILUROFILIA: SÃO PAULO E OS GATOS DO VALE DO ANHAGABAÚ

 



A HISTÓRIA DE QUANDO CENTENAS DE GATOS VIVIAM NO VALE DO ANHANGABAÚ


Você provavelmente já ouviu falar em algum momento do parque do gato ou mesmo da favela do gato, um local outrora insalubre que agora possui um conjunto de habitação social junto à marginal do rio Tietê, no bairro do Bom Retiro. Mas já parou para pensar a origem desse nome? Para entender como esse nome surgiu temos que voltar ao final da década de 1950 para o centro histórico de São Paulo, onde naquele momento surgiu ao mesmo tempo uma atração turística involuntária e um problema para o município: a Praça dos Gatos.

Jovem observa os gatos da praça Ramos de Azevedo no início da década de 1960

Esse local é bem conhecido do paulistano. Trata-se da parte inferior da Praça Ramos de Azevedo, onde se encontra a fonte dos desejos e outros monumentos. Não se sabe com exatidão quando o local se transformou em “Praça dos Gatos”, contudo pesquisando em jornais antigos é possível encontrar notícias sobre bandos de gatos vivendo por lá em 1957. Foi quando o local que se transformou em área de descarte de filhotes que seus donos julgavam indesejados, em uma época que castração gratuita e direto animal eram praticamente inexistentes.

Com isso em 1961 a praça já estava tomada por gatos, que habitavam ali na casa de centenas, uma vez que se reproduziam sem controle. Não era um cenário romântico de se ver, com gatos frequentemente atropelados no trânsito agitado do Vale do Anhangabaú ou mesmo no próprio viaduto do Chá, quando se aventuravam lá para cima em busca de alimento. Outros morriam de doenças e até mesmo de fome, em uma época que ração animal era rara.

Vale do Anhangabaú e praça Ramos de Azevedo na década de 1950: 
Cenário de muitos atropelamentos de gatos

PROTEÇÃO AOS BICHANOS

Na início da década de 1960 uma idosa começou sozinha a cuidar diariamente das centenas de gatos da praça. Era uma mulher de origem alemã chamada Mary Ada Lindsey Gericke, moradora de Higienópolis. Viúva e solitária (seu filho, engenheiro morava em Manaus) cozinhava logo cedo para depois pegar um bonde rumo ao centro para cuidar dos bichanos. Passava boa parte do dia com eles, alimentando-os com uma dieta que consistia de frango, peixe e arroz.

Em 1968 a senhora Gericke e outras amigas que amparavam os gatos ganharam os noticiários ao expulsar da praça, com bolsadas, calouros da faculdade de medicina da USP, que atendendo a ordem de um trote de veteranos organizaram um “safari” para caçar gatos no local, que seriam levados à universidade para serem usados como cobaia. A ação repercutiu mal e foi reprimida pelas cuidadoras, pelo zelador da praça e até pela polícia. Uma das calouras ficou ferida ao ser agredida pelas senhoras que cuidavam dos bichanos. Com o passar dos anos a senhora Gericke faleceu e outras pessoas continuaram sua missão.

Mary Ada Lindsey Gericke em sua única foto disponível,
 publicada no extinto jornal Correio Paulistano em 1961

O FIM DA PRAÇA DOS GATOS

Na década de 1980 o local era tão saturado de gatos que o então prefeito de São Paulo, Mário Covas, foi aconselhado a resolver a questão definitivamente por assessores e vereadores. Apesar disso parte da opinião pública achava que os gatos deveriam permanecer ali pois eram uma atração turística. Alguns comparavam os gatos da Praça Ramos de Azevedo aos esquilos do Central Park, em Nova York.

Na galeria abaixo é possível conferir algumas cenas extraídas de jornais paulistanos que mostravam os diversos gatos que perambulavam livremente pela praça do Anhangabaú e seu convívio pacífico com as crianças que frequentavam o local.




Foi quando Covas conheceu a atriz aposentada Jane Hegenberg, nome artístico de Eugênia Schaffman Hegenberg, que tal qual Ada Gericke décadas antes, igualmente nutria um amor incondicional pelos gatos. Ela comprava comida, remédios, pagava veterinário quando a UIPA não podia ir e tentava arrumar lares para os bichanos.

O prefeito então explicou que era preciso revitalizar a Praça Ramos de Azevedo e retirar os animais dali, nem mesmo pássaros ficavam por lá pois os gatos os matavam. Seriam plantadas novas árvores, floreiras e não poderia começar a obra com os mais de 300 gatos que se estimava ter na praça. Para resolver a questão Mário Covas cedeu uma área ociosa no Bom Retiro, junto à marginal do Rio Tietê, para onde os animais foram transferidos. Era o fim da Praça dos Gatos e o início do Parque do Gato.

Gato na fonte dos desejos, na então chamada 
praça dos gatos no Vale do Anhangabaú

RUMO AO BOM RETIRO

No novo local Eugênia Schaffman Hegenberg juntou-se a voluntários e funcionários para cuidar dos gatos e posteriormente até cães. Alimentar cerca 800 animais não era fácil, muito menos barato. Em reportagem da época a cuidadora estimou gastar 2 milhões de cruzeiros com alimentação, fora medicamentos e salários para funcionários que ficavam no local. Tudo isso segundo pessoas que conheceram Hegenberg saia do próprio bolso da atriz aposentada.

Dois acontecimentos, porém, fariam a coisa desandar. Em 1992 a prefeitura de São Paulo solicitou a devolução do local, pois a cessão tinha sido apenas “de boca” e Erundina pretendia criar no local uma praça e conjuntos habitacionais. Entretanto nada iria se comparar ao escândalo que surgiria a seguir.

O PARQUE DOS HORRORES

Uma denúncia terrível abalava a cidade nos primeiros dias de fevereiro de 1993. Uma equipe de televisão do SBT, com o jornal Aqui Agora, chega ao local para averiguar a denúncia de uma funcionária do parque dos gatos. O local havia se transformado em um campo de extermínio de gatos saudáveis em uma tentativa, segundo denunciantes, de diminuir a população felina e, consequentemente, os gastos.



O caso tomou grandes proporções e a polícia passou a investigar o caso. Logo também surgiram outras denúncias, como de uma mulher que deixou seus gatos para serem hospedados durante uma viagem e desapareceram. A denunciante e uma funcionária apresentaram à imprensa e a polícia fotos da câmara de gás com diversos animais mortos.

A investigação apurou que gatos, doentes e sadios, eram colocados em um tanque de alvenaria e este ligado a um botijão de gás carbônico. O tanque era fechado com uma pesada tampa de madeira e então abria-se a válvula, para em questão de minutos liquidar cerca de 20 ou 30 animais. Colocados em sacos eram descartados no rio Tietê.

A responsável pelo espaço na época chegou a reconhecer a matança de animais, mas garantiu para a imprensa e em depoimento que apenas exterminava animais com doenças contagiosas e atribuiu as denúncias à ma fé de uma funcionária que queria prejudicar o trabalho que ela realizava no local. Com o tempo o caso foi esfriando e desapareceu do noticiário.


Anos mais tarde, já sem o abrigo de gatos, o local se transformou em uma favela e posteriormente foi urbanizado, transformando-se em um bonito conjunto de moradia popular. Uma estátua em homenagem aos felinos poderia ser instalada na entrada do conjunto residencial ou nos arredores para que esse fato não fosse esquecido e jamais repetido.

Bibliografia consultada:

* O Estado de S.Paulo – Edição de 27/4/1967

* O Estado de S.Paulo – Edição de 22/9/1967

* O Estado de S.Paulo – Edição de 24/1/1968

* O Estado de S.Paulo – Edição de 18/7/1968

* O Estado de S.Paulo – Edição de 16/4/1992

* O Estado de S.Paulo – Edição de 6/2/1993

* Correio Paulistano – Edição de 15/5/1961

Vista atual do conjunto de edifícios do Parque do Gato 
no bairro do Bom Retiro, região central de São Paulo



FONTE:

Autor: Douglas Nascimento

Jornalista, fotógrafo e pesquisador independente, é presidente do Instituto São Paulo Antiga e membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP).

22/05/2025


domingo, 14 de dezembro de 2025

CITAÇÕES: USE COMO EPÍGRAFE ESTE TEXTO DE ZYGMUNT BAUMAN

 


     “A experiência humana é formada e compilada, a partilha da vida é administrada, seu significado é concebido, absorvido e negociado em torno de lugares. E é nos lugares e a partir deles que os impulsos e desejos humanos são gerados e incubados, que vivem na esperança de se realizarem, que se arriscam a se frustrar e, na verdade, com muita frequência, se frustram.” 

– Zygmunt Bauman in “Amor líquido – sobre a fragilidade dos laços humanos”, tradução de Carlos Alberto Medeiros.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

ARTES PLÁSTICAS: A “LIÇÃO DE ANATOMIA DO DR. TULP” , DE REMBRANDT


A “LIÇÃO DE ANATOMIA DO DR. TULP”

E CURIOSIDADES SOBRE A HISTÓRIA DE PINTURAS ANATÔMICAS

(Rembrandt - De Anatomische les van Dr. Nicolaes Tulp)


A pintura a óleo sobre tela de Rembrandt van Rijn intitulada “Lição de Anatomia do Dr. Nicolaes Tulp” (1632) é considerada uma verdadeira obra-prima. Tendo trabalhado o chiaroscuro, o qual enfatiza principalmente os efeitos de luz e sombra, o pintor privilegiou o retrato em grupo. Basicamente, Dr. Tulp – um praelector anatomiae – é retratado demonstrando a dissecação do antebraço de um criminoso executado para o grêmio de cirurgiões de Amsterdã. Tratava-se do cadáver de Adriaen Adriaensz, também conhecido por Aris Kindt, um criminoso com longa ficha criminal que foi enforcado por roubar uma capa mediante grande violência contra a vítima no ano de 1632.

A representação do antebraço esquerdo do cadáver é alvo de grande debate por, supostamente, conter erros anatômicos na origem dos músculos flexores do antebraço. Por exemplo, ao se observar com cautela a imagem, sabe-se que o músculo sustentado pelo fórceps é o flexor superficial dos dedos, com o flexor profundo dos dedos sendo visualizado logo abaixo. Segundo Mellick (2007), ambos os músculos teriam origem retratada no epicôndilo lateral – obviamente um erro! Contudo, Ijpma et al (2008) acreditam que a pintura de Rembrandt é fidedigna pois o antebraço do cadáver estava estendido e supinado, com a mão posicionada na região da virilha. O epicôndilo medial do úmero estaria apontado para o corpo e, no caso, o epicôndilo lateral não estaria visível. Também debate-se sobre a possibilidade de um antebraço separado ter sido posicionado ao lado do corpo, e erroneamente interpretado como o antebraço esquerdo. Ainda, outros erros poderiam ser evidenciados entre a pintura e dissecações (Ijpma et al., 2008).

A pintura foi restaurada entre 1996-1998, fato que revelou muitos detalhes sobre as técnicas de pintura de Rembrandt. A sequência de pintura dos personagens e o pedaço de papel manuseado por um dos cirurgiões (Figura 1), por exemplo, puderam ser detalhadamente estudados.



É importante recordarmo-nos que no século XVII as dissecações eram abertas ao público e ocorriam no inverno, a fim de preservar os corpos, tendo duração de vários dias. Além disso, envolviam inicialmente as vísceras torácicas e abdominais, mais perecíveis, para então se prosseguir com as extremidades. Na pintura de Rembrandt, apenas o antebraço encontrava-se dissecado, o que indica que a “Lição de Anatomia do Dr. Nicolaes Tulp” representa uma interpretação de uma aula de anatomia clássica, e não necessariamente um retrato fiel desta lição. Ainda, a própria apresentação de Andreas Vesalius em De Humani Corpori Fabrica (figura 2) parece ter influenciado a posição do Dr. Tulp durante os esboços da pintura. Nesta obra clássica da Anatomia (e já apresentada neste site), Vesalius foi ilustrado expondo justamente os músculos flexores do antebraço!


Apesar de ser considerada a mais famosa, existem diversas pinturas sobre dissecações e aulas de anatomia, notadamente na Holanda, e que evidenciam uma época de ouro para as artes nos países baixos.

Geralmente, os pintores recebiam comissões para retratar o praelector anatomiae, o qual era tido como uma figura muito importante na sociedade e que frequentemente era designado como prefeito ou para cargos de liderança da cidade. A primeira pintura conhecida sobre uma lição de anatomia data de 1603: “A Lição de Anatomia do Dr. Sebastiaen Egbertsz de VriJ”, de Aert Pietersz (figura 3). Dr. Egbertsz é a figura central na pintura e encontra-se manipulando uma tesoura com um cadáver intacto logo a sua frente. Nessa obra, os cirurgiões retratados encontram-se de frente para o espectador. Quando a pintura ficou pronta, vários desses cirurgiões haviam perecido devido uma epidemia de praga em Amsterdã (Baljet, 2000).



Interessantemente, a aula de Dr. Egbertsz também foi tema para outra pintura, desta vez de autor desconhecido, possivemente elaborada por Nicolaes Eliasz ou Werner van de Valckert (Baljet, 2000). Nesta pintura, o professor demonstra osteologia para um grupo de seis estudantes por meio de um esqueleto (figura 4).



Já uma demonstração do crânio foi retratada em (1625-1626) por Nicolaes Eliasz em “Lição de Anatomia Dr. Johan Fonteijn” (figura 5). A pintura original era muito maior e retratava mais pessoas, mas foi bastante danificada pelo fogo em um incêndio em 1723 (Baljet, 2000).



O próprio Rembrandt, anos após ter concluído “Lição de Anatomia de Dr. Tulp”, retratou “Lição de Anatomia de Dr. Johannes Deijman” (1656) (figura 6). Nesta obra, o praelector apresentava apenas as mãos evidenciadas e demonstrava as meninges numa dissecção de cérebro por meio de um fórceps. O assistente de Dr. Johannes Deijman, Gijsbert Calkoen, acompanhava a dissecação portando a calota craniana extraída do cadáver. A imagem apenas demonstra um fragmento da pintura original, a qual continha mais pessoas e apresentava o teatro anatômico do local (Baljet, 2000).


Outras obras de destaque estão expostas no Museu de História de Amsterdã e incluem a “Lição de Anatomia do Prof. Frederik Ruijsch”, de Adriaen Backer (1670); “Lição de Anatomia do Prof. Frederik Ruijsch”, de Johan van Neck (1683) e “Lição de Anatomia de Dr. Willem Roell, de Cornelis Troost (1728), entre outras. Definitivamente, a Holanda é um destino fundamental para os amantes da arte e da anatomia…


Fonte:

Dr Bento J Abreu

Professor, pesquisador e interessado em assuntos atuais.


(Página cultural voltada para o estudo da Anatomia Humana, Fisioterapia e saúde em gera).



segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

CITAÇÕES: USE COMO EPÍGRAFE ESTA FRASE DE ARLETTY (LÉONIE BATHIAT)

 

(Arletty em 1942)

     “Meu coração é francês, mas minha bunda é internacional” 

– Arletty (nome artístico de Léonie Bathiat, atriz francesa ( 1898 – 1992), ao ser acusada de haver tido um romance com um oficial alemão durante a segunda guerra; apud Alan Ridding, in “Paris, a festa continuou”, tradução de Cesso Nogueira e Rejane Rubino).

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

ARQUITETURA: TEBAS, O ARQUITETO NEGRO DE SÃO PAULO


CONHEÇA A HISTÓRIA DE TEBAS, O ARQUITETO ESCRAVIZADO QUE ESCULPIU ÍCONES DE SÃO PAULO

Estátua de Joaquim Pinto de Oliveira, Tebas, na Praça Clóvis Beviláqua. 
Imagem de Marcel Farias.

Mestre da cantaria, Joaquim Pinto de Oliveira marcou a arquitetura colonial da cidade e esteve por trás da restauração da Catedral da Sé e do Mosteiro de São Bento


Um dos mais talentosos arquitetos de São Paulo do século XVIII era um homem negro escravizado. Joaquim Pinto de Oliveira, ou Tebas, como ficou conhecido, conseguiu a alforria aos 58 anos e deixou sua marca na cidade escravocrata. Responsável pela ornamentação de diferentes igrejas, ele teve participação em obras importantes como os projetos de restauração do Mosteiro de São Bento (1766 e 1798) e da antiga Catedral da Sé (1778).


A Matriz da Sé, em foto de Militão Augusto de Azevedo, década de 1860: 
fachada foi restaurada e ornamentada por Tebas


Especialista na arte e na técnica de talhar e aparelhar pedras, Tebas impactou de forma decisiva uma São Paulo até então erguida principalmente com taipas, construções de barro com possibilidades estéticas muito limitadas. Seu trabalho era requisitado, sobretudo, pelas ordens religiosas presentes na cidade desde a fundação.

"Ele foi um construtor que chegou a São Paulo escravizado, vindo de Santos, trazido por um mestre pedreiro português que identificou na cidade uma oportunidade de trabalho", conta o jornalista Abilio Ferreira, organizador do livro Tebas: um negro arquiteto na São Paulo escravocrata, lançado em 2019 por ele, Carlos Gutierrez Cerqueira, Emma Young, Ramatis Jacino e Maurílio Chiaretti. "Na época, quem tinha recursos eram as corporações religiosas. Por isso, ele atuou nos três vértices do chamado triângulo histórico formado pelos conventos de São Bento, do Carmo e de São Francisco", recorda o escritor. O trabalho cuidadoso com ornamentos transformou o pedreiro de ofício num arquiteto disputado, contratado pelos beneditinos, carmelitas, franciscanos e católicos.

O Chafariz da Misericórdia, em desenho de José Whasth Rodrigues, 
(1871-1957); obra foi a mais famosa de Tebas


Embora tenha tido seu talento reconhecido em vida, sua história foi perdida com o tempo até cair no esquecimento. Apesar disso, obras como as fachadas da Igreja da Ordem 3ª do Carmo e da Igreja das Chagas do Seráfico Pai São Francisco, ambas no centro da capital, resistem ao tempo e continuam de pé. Seu trabalho mais conhecido não teve a mesma sorte. O Chafariz da Misericórdia, primeiro chafariz público da capital, foi demolido em 1866 após o processo de canalização de água no centro. A obra, erguida onde hoje está a Rua Direita, funcionava como um ponto de encontro de escravizados que buscavam água para seus senhores.

Igreja da Ordem 3ª do Carmo em foto de Abilio Ferreira; 
fachada de pedra permanece até hoje da forma como Tebas concebeu


Longevo e talentoso, Joaquim Pinto de Oliveira exerceu seu ofício até os 90 anos. Morreu no dia 11 de janeiro de 1811, vítima de uma gangrena possivelmente causada por acidente de trabalho. E, apesar de ter definido os traços da arquitetura colonial paulistana, apenas foi reconhecido arquiteto mais de 200 anos depois, em 2018, pelo Sindicato dos Arquitetos no Estado de São Paulo (Sasp), depois que documentos oficiais localizados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) revelaram as relações de trabalho entre o arquiteto escravizado e as ordens religiosas. "É importante ressaltar que Tebas não era uma exceção. Os africanos transplantados para as Américas trouxeram consigo muitos conhecimentos, principalmente sobre o trabalho com pedras e metais", afirma Abilio. "Ele é mais um personagem que nos oferece pistas que dignificam esse segmento da população esquecida".


Convento do Carmo e suas duas igrejas (foto de Militão Augusto de Azevedo, 
década de 1860), localizados na atual Avenida Rangel Pestana, ao lado da Praça da Sé


Grupo de pesquisadores busca apoio para fortalecer as pesquisas e descobrir mais detalhes da trajetória, do legado e da história de vida de Tebas. "Ainda faltam muitas peças nesse quebra-cabeça. A pesquisa sobre essa figura histórica precisa ser estimulada. Há muitas perguntas sem respostas, como a sua religião, além de muitas outras obras, em São Paulo e Santos, que podem ser de autoria dele e sequer imaginamos".


FONTE:

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

CITAÇÕES: USE COMO EPÍGRAFE ESTA FRASE DE DALCÍDIO JURANDIR:


 

    “Só em presença do Vício é que se pode escrever sobre a Virtude”. 

– Dalcídio Jurandir, in “Chove nos campos de Cachoeira”.